Edição 1876 . 20 de outubro de 2004

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Cinema
O bom perdedor

Em Wimbledon, Paul Bettany
mostra o melhor do esporte
inglês de rir à própria custa


Isabela Boscov


Divulgação
Bettany, como o azarão Peter Colt: romance com inteligência

DA INTERNET
Trailer

Garota americana autoconfiante até demais vai para Londres, onde conhece um inglês irresistível, mas meio sem rumo na vida. Depois de muitas tiradas espirituosas, ela o coloca nos trilhos, e ele suaviza as arestas dela. Todo mundo conhece a receita. Com pequenas variações, ela é o prato de resistência da Working Title, a produtora que vende para o mundo uma Inglaterra eternamente embalada no suingue dos anos 60, e onde todos os homens têm o charme e a originalidade de Hugh Grant – aliás, todos os homens são Hugh Grant, como exemplificado em Quatro Casamentos e Um Funeral, Um Lugar Chamado Notting Hill, O Diário de Bridget Jones e Um Grande Garoto, os títulos mais conhecidos da produtora. Mas, apesar de Grant ter recusado o papel principal de Wimbledon – O Jogo do Amor (Wimbledon, Inglaterra/França, 2004), isso em nada prejudicou a proficiência da Working Title. Ao contrário, ajudou a injetar sangue e idéias novas na fórmula. No filme que estréia nesta sexta-feira no país, Paul Bettany faz as honras como Peter Colt, que já foi o 11º no ranking mundial do tênis, mas agora, na 119ª posição e já passado dos 30 anos, vai participar do torneio pela última vez como wild card – um jogador selecionado para preencher a escalação do evento. A única ambição de Peter é evitar a humilhação excessiva e, depois, resignar-se a dar aulas de tênis num clube. Isso até ele conhecer a deliciosamente temperamental Lizzie Bradbury (Kirsten Dunst), favorita à etapa feminina de Wimbledon. Com a colaboração de Lizzie, Peter descobre que um pouco de desconcentração na noite anterior ao jogo tem efeitos altamente benéficos sobre seu desempenho na quadra. E, repentinamente, a possibilidade de ganhar entra em questão.

Richard Loncraine, que dirigiu um excelente Ricardo III, com Ian McKellen, filma o jogo de forma empolgante (graças à computação gráfica, os atores tiveram apenas de parecer tenistas profissionais, sem se preocupar com as bolas, que foram acrescentadas digitalmente) e é ainda mais hábil na ação que se desenrola fora das quadras. Todo o seu esforço, plenamente recompensado, é o de fazer da melhor forma possível só e apenas uma comédia romântica. Mas o verdadeiro ás aqui é Bettany, um ator que, nem que quisesse, conseguiria errar. Bettany tem brilhado em papéis tão diversos quanto o médico de bordo de Mestre dos Mares, o amigo imaginário de Uma Mente Brilhante (ambos em parceria com Russell Crowe) e o filósofo moral de Dogville. Em Wimbledon, à maneira dos Grant (Cary e Hugh), ele dá sua contribuição a duas grandes tradições britânicas: a de perder (ou, se for o caso, ganhar) com elegância e a de fazer humor à própria custa. E, de quebra, institui um novo parâmetro. Se Kevin Costner e similares sempre terminam com cara de paisagem nos momentos em que é preciso expressar a tensão de uma jogada decisiva, é neles que Bettany atinge sua performance mais dinâmica e inteligente. Por sua causa, torcer pelo protagonista de Wimbledon não só é uma obrigação da platéia. É algo que se faz com prazer.

 
 
 
 
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