Edição 1876 . 20 de outubro de 2004

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Cinema
Esqueceram de nós

Em Mar Aberto, um casal enfrenta
dois desafios: discutir a relação e
se manter inteiro


Isabela Boscov

DA INTERNET
Trailer

Brigar com o marido ou a mulher nas férias já é um péssimo programa. Ter de fazê-lo boiando no meio do nada, sem perspectiva de resgate e com tubarões à espreita, é um pesadelo de proporções épicas, que Mar Aberto (Open Water, Estados Unidos, 2003), em cartaz no país a partir de sexta-feira, explora com uma deliberação de propósitos e uma concentração de recursos que prenunciam um talento merecedor de muita atenção – o do diretor Chris Kentis, que, apropriadamente, bolou esse sucesso independente em parceria com Laura Lau, sua mulher e sócia. Kentis e Laura sabem que quem vai ver o filme já conhece a sua premissa – casal sai para mergulhar, é esquecido pelo barco da excursão e luta para se manter à tona e inteiro –, e passam a meia hora inicial de Mar Aberto atiçando esse sentimento de antecipação com um vagar que beira o sadismo, e que deixaria Alfred Hitchcock, o mestre nesse tipo de jogo, orgulhoso de seus discípulos. Quando o inevitável finalmente acontece, os diretores mudam de marcha: agora não só os protagonistas estão na ignorância do que vem a seguir. A platéia também está. O filme vira um contínuo de aflição, em que as possibilidades surgem para logo desaparecer, e a cada minuto são acrescidas de novas complicações – fome, frio, náusea, descontrole, exaustão, recriminação mútua. E, claro, tubarões, que rondam Susan e Daniel ameaçadoramente e comunicam os sinais de sua presença – uma barbatana, um empurrão – sem nunca se revelar por inteiro. É ponto pacífico que os personagens e os espectadores assistiram ao Tubarão de Steven Spielberg, e basta computar esse medo anterior para ampliá-lo.

O casal de diretores (e também roteiristas, produtores e cinegrafistas) de Mar Aberto tem outros trunfos na manga ainda. Dominar a dinâmica de um relacionamento, aqui exposto a um teste decisivo, é um deles – no que a escolha de Blanchard Ryan e Daniel Travis, dois atores desconhecidos mas muito eficientes (ela em especial), ajuda um bocado. O outro é a maneira como os diretores transformam uma imensidão sem horizontes num espaço claustrofóbico, em que tudo muda o tempo todo para continuar exatamente igual. O céu e o oceano se confundem e se separam, o sol vai e vem, as ondas sobem e descem, e o resultado é sempre o mesmo: a mais completa desorientação psicológica e espacial, que termina por minar a resistência também da platéia. A uma certa altura, tudo o que se quer é que esse horror termine, se possível por bem, e se necessário por mal. Mar Aberto foi rodado todo em câmera digital, longe da costa e com a participação de tubarões de verdade – todos eles. Mas, para muito além dessas curiosidades, o filme se destaca é pela precisão com que Kentis e Laura dissecam os componentes do pânico e enredam o espectador em sua proposição: fora do seu elemento e desassistido de seus confortos, o homem não pode nada. E basta um erro estúpido, como uma conta malfeita num barco, para devolvê-lo ao seu estado mais vulnerável.

 
 
 
 
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