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Cinema
Esqueceram de nós
Em Mar Aberto, um casal enfrenta
dois desafios: discutir a relação e
se manter inteiro

Isabela Boscov
Brigar com o marido ou a mulher nas férias
já é um péssimo programa. Ter de fazê-lo
boiando no meio do nada, sem perspectiva de resgate e com tubarões
à espreita, é um pesadelo de proporções
épicas, que Mar Aberto (Open Water, Estados
Unidos, 2003), em cartaz no país a partir de sexta-feira,
explora com uma deliberação de propósitos e
uma concentração de recursos que prenunciam um talento
merecedor de muita atenção o do diretor Chris
Kentis, que, apropriadamente, bolou esse sucesso independente em
parceria com Laura Lau, sua mulher e sócia. Kentis e Laura
sabem que quem vai ver o filme já conhece a sua premissa
casal sai para mergulhar, é esquecido pelo barco da
excursão e luta para se manter à tona e inteiro ,
e passam a meia hora inicial de Mar Aberto atiçando
esse sentimento de antecipação com um vagar que beira
o sadismo, e que deixaria Alfred Hitchcock, o mestre nesse tipo
de jogo, orgulhoso de seus discípulos. Quando o inevitável
finalmente acontece, os diretores mudam de marcha: agora não
só os protagonistas estão na ignorância do que
vem a seguir. A platéia também está. O filme
vira um contínuo de aflição, em que as possibilidades
surgem para logo desaparecer, e a cada minuto são acrescidas
de novas complicações fome, frio, náusea,
descontrole, exaustão, recriminação mútua.
E, claro, tubarões, que rondam Susan e Daniel ameaçadoramente
e comunicam os sinais de sua presença uma barbatana,
um empurrão sem nunca se revelar por inteiro. É
ponto pacífico que os personagens e os espectadores assistiram
ao Tubarão de Steven Spielberg, e basta computar esse
medo anterior para ampliá-lo.
O casal de diretores (e também roteiristas,
produtores e cinegrafistas) de Mar Aberto tem outros trunfos
na manga ainda. Dominar a dinâmica de um relacionamento, aqui
exposto a um teste decisivo, é um deles no que a escolha
de Blanchard Ryan e Daniel Travis, dois atores desconhecidos mas
muito eficientes (ela em especial), ajuda um bocado. O outro é
a maneira como os diretores transformam uma imensidão sem
horizontes num espaço claustrofóbico, em que tudo
muda o tempo todo para continuar exatamente igual. O céu
e o oceano se confundem e se separam, o sol vai e vem, as ondas
sobem e descem, e o resultado é sempre o mesmo: a mais completa
desorientação psicológica e espacial, que termina
por minar a resistência também da platéia. A
uma certa altura, tudo o que se quer é que esse horror termine,
se possível por bem, e se necessário por mal. Mar
Aberto foi rodado todo em câmera digital, longe da costa
e com a participação de tubarões de verdade
todos eles. Mas, para muito além dessas curiosidades,
o filme se destaca é pela precisão com que Kentis
e Laura dissecam os componentes do pânico e enredam o espectador
em sua proposição: fora do seu elemento e desassistido
de seus confortos, o homem não pode nada. E basta um erro
estúpido, como uma conta malfeita num barco, para devolvê-lo
ao seu estado mais vulnerável.
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