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Livros
O reverso de Eliot
Apesar da
fama de inacessível, o autor de
A Terra Desolada sempre impressiona com
sua poesia, agora traduzida na íntegra

Jerônimo Teixeira
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Pouco depois
de T.S. Eliot escrever a peça teatral O Secretário
Particular, um repórter perguntou ao poeta o que ele
"queria dizer" com a obra. Eliot respondeu que queria dizer exatamente
aquilo que estava escrito. "E nada mais?", insistiu o jornalista.
Nada mais, confirmou o Nobel de Literatura de 1948. As perguntas
do jornalista traduziam o pasmo de muitos leitores diante dos versos
complexos de Eliot. Como uma espécie de ventríloquo,
ele sempre demonstrou a habilidade de assumir a dicção
dos grandes poetas do passado, fazendo de seus poemas um emaranhado
de citações e alusões. Alguns críticos
obtusos até o acusaram de plágio. A publicação
de sua obra poética completa, dividida em dois volumes
o primeiro dedicado à Poesia (tradução
de Ivan Junqueira; Arx; 568 páginas; 69 reais) e o segundo
ao Teatro (tradução de Ivo Barroso;
Arx; 704 páginas; 85 reais), com cinco peças compostas
na maior parte em versos , talvez confirme a percepção
de Eliot como o cacique mais difícil da difícil tribo
dos poetas modernos. Os dois calhamaços, porém, convidam
à fruição direta da poesia de T.S. Eliot
por extenso, Thomas Stearns Eliot (1888-1965) e à
descoberta de que, afinal, sua poesia tem o poder de impressionar
o leitor mesmo quando suas referências históricas e
literárias não são acessíveis.
É
a primeira vez que toda a poesia de Eliot é traduzida no
Brasil com a vantagem adicional de ser uma edição
bilíngüe. Essa obra completa chega quando a influência
do autor já arrefeceu. Igualmente talentoso no verso e no
ensaio, Eliot deu o tom predominante à crítica literária
por décadas. Hoje, porém, está em baixa em
seu país natal. Nascido nos Estados Unidos, o poeta naturalizou-se
inglês em 1927 e passou a se declarar "anglo-católico
em religião, classicista em literatura e monarquista em política".
Um conservador empedernido como esse dificilmente passa incólume
às releituras e desconstruções da correção
política. Para agravar a situação, sua defesa
ardente de uma tradição cultural amparada no cristianismo
muitas vezes derivou no mais deslavado anti-semitismo. Mesmo um
crítico como Harold Bloom, sempre tão eloqüente
no ataque ao proselitismo ideológico dos estudos literários,
é muito reticente em sua avaliação do poeta.
Bloom fez toda a sua carreira na contramão de Eliot, valorizando
autores que ele desprezava, como Shelley e os demais românticos
ingleses. No Brasil, a influência de Eliot foi mais limitada.
Com um caráter mais metafísico e devocional, seus
poemas tardios, especialmente os Quatro Quartetos, agradaram
à chamada "geração de 1945", que buscou uma
espécie de reação "neoclássica" às
inovações do modernismo. No fim dos anos 1950, o concretismo
reagiu alçando Ezra Pound, contemporâneo e amigo de
Eliot, ao posto de o mais inovador poeta da língua inglesa
no século XX. Não é por acaso que Eliot aparece
agora traduzido por dois poetas que se colocam na oposição
à vanguarda concretista. Na introdução à
Poesia, Ivan Junqueira coloca os Quatro Quartetos como
ponto culminante da obra de Eliot, acima do mais fragmentário
e radical A Terra Desolada, poema que contou com um copidesque
de luxo: Pound fez vários cortes na versão original.
Um tanto de ousadia poundiana, aliás, faltou à tradução
geralmente correta de Junqueira. Ele deixa a desejar sobretudo naqueles
trechos de A Terra Desolada em que Eliot reproduz a fala
coloquial de personagens da rua. Junqueira insiste em fazer a ralé
londrina colocar os pronomes no lugar certo.
Se os dois
volumes forem demasiado onerosos para seu orçamento, não
tenha dúvida: fique com Poesia. Vertente secundária
da poesia de Eliot, o teatro nem sempre funciona dramaticamente:
Pound desligou o rádio no meio de uma transmissão
da peça Assassínio na Catedral, reclamando
da "choradeira" do coro de mulheres. A Poesia, porém,
é um item indispensável a qualquer biblioteca. Um
texto difícil? Sem dúvida. Vaidoso (em certo período,
costumava pintar o rosto, mais ou menos como o "metrossexual" de
hoje), Eliot ao mesmo tempo rejeitava e cultivava sua fama de poeta
impenetrável. As famigeradas notas que o próprio autor
apôs a seu poema mais célebre, A Terra Desolada,
são exemplares nesse sentido: parecem elucidar, mas acabam
mistificando ainda mais o poema. Mas não é preciso
saber que a palavra sânscrita shantih, que encerra
o texto, quer dizer "paz", ou que o episódio do trenó
na primeira seção traz referências sutis ao
fim do Império Austro-Húngaro. Mesmo que essas miudezas
eruditas escapem ao leitor, o efeito poético permanece, por
obra do apuro técnico insuperável do versificador
T.S. Eliot. Lançada em 1922, mesmo ano do Ulisses, de
James Joyce (e mesmo ano de uma quermesse literária comparativamente
irrelevante na cidade de São Paulo), A Terra Desolada
é um registro sensível de uma crise histórica
que exigiu duas guerras mundiais para se resolver e enterrou uma
porção significativa da tradição cultural
européia na insignificância. O leitor guardará
o sentimento avassalador de que algo está se perdendo, mesmo
quando não souber exatamente o quê.
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