Edição 1876 . 20 de outubro de 2004

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O reverso de Eliot

Apesar da fama de inacessível, o autor de
A Terra Desolada sempre impressiona com
sua poesia, agora traduzida na íntegra


Jerônimo Teixeira

EXCLUSIVO ON-LINE
Poemas de T.S. Eliot
Trechos de peças

Pouco depois de T.S. Eliot escrever a peça teatral O Secretário Particular, um repórter perguntou ao poeta o que ele "queria dizer" com a obra. Eliot respondeu que queria dizer exatamente aquilo que estava escrito. "E nada mais?", insistiu o jornalista. Nada mais, confirmou o Nobel de Literatura de 1948. As perguntas do jornalista traduziam o pasmo de muitos leitores diante dos versos complexos de Eliot. Como uma espécie de ventríloquo, ele sempre demonstrou a habilidade de assumir a dicção dos grandes poetas do passado, fazendo de seus poemas um emaranhado de citações e alusões. Alguns críticos obtusos até o acusaram de plágio. A publicação de sua obra poética completa, dividida em dois volumes – o primeiro dedicado à Poesia (tradução de Ivan Junqueira; Arx; 568 páginas; 69 reais) e o segundo ao Teatro (tradução de Ivo Barroso; Arx; 704 páginas; 85 reais), com cinco peças compostas na maior parte em versos –, talvez confirme a percepção de Eliot como o cacique mais difícil da difícil tribo dos poetas modernos. Os dois calhamaços, porém, convidam à fruição direta da poesia de T.S. Eliot – por extenso, Thomas Stearns Eliot (1888-1965) – e à descoberta de que, afinal, sua poesia tem o poder de impressionar o leitor mesmo quando suas referências históricas e literárias não são acessíveis.

É a primeira vez que toda a poesia de Eliot é traduzida no Brasil – com a vantagem adicional de ser uma edição bilíngüe. Essa obra completa chega quando a influência do autor já arrefeceu. Igualmente talentoso no verso e no ensaio, Eliot deu o tom predominante à crítica literária por décadas. Hoje, porém, está em baixa em seu país natal. Nascido nos Estados Unidos, o poeta naturalizou-se inglês em 1927 e passou a se declarar "anglo-católico em religião, classicista em literatura e monarquista em política". Um conservador empedernido como esse dificilmente passa incólume às releituras e desconstruções da correção política. Para agravar a situação, sua defesa ardente de uma tradição cultural amparada no cristianismo muitas vezes derivou no mais deslavado anti-semitismo. Mesmo um crítico como Harold Bloom, sempre tão eloqüente no ataque ao proselitismo ideológico dos estudos literários, é muito reticente em sua avaliação do poeta. Bloom fez toda a sua carreira na contramão de Eliot, valorizando autores que ele desprezava, como Shelley e os demais românticos ingleses. No Brasil, a influência de Eliot foi mais limitada. Com um caráter mais metafísico e devocional, seus poemas tardios, especialmente os Quatro Quartetos, agradaram à chamada "geração de 1945", que buscou uma espécie de reação "neoclássica" às inovações do modernismo. No fim dos anos 1950, o concretismo reagiu alçando Ezra Pound, contemporâneo e amigo de Eliot, ao posto de o mais inovador poeta da língua inglesa no século XX. Não é por acaso que Eliot aparece agora traduzido por dois poetas que se colocam na oposição à vanguarda concretista. Na introdução à Poesia, Ivan Junqueira coloca os Quatro Quartetos como ponto culminante da obra de Eliot, acima do mais fragmentário e radical A Terra Desolada, poema que contou com um copidesque de luxo: Pound fez vários cortes na versão original. Um tanto de ousadia poundiana, aliás, faltou à tradução geralmente correta de Junqueira. Ele deixa a desejar sobretudo naqueles trechos de A Terra Desolada em que Eliot reproduz a fala coloquial de personagens da rua. Junqueira insiste em fazer a ralé londrina colocar os pronomes no lugar certo.

Se os dois volumes forem demasiado onerosos para seu orçamento, não tenha dúvida: fique com Poesia. Vertente secundária da poesia de Eliot, o teatro nem sempre funciona dramaticamente: Pound desligou o rádio no meio de uma transmissão da peça Assassínio na Catedral, reclamando da "choradeira" do coro de mulheres. A Poesia, porém, é um item indispensável a qualquer biblioteca. Um texto difícil? Sem dúvida. Vaidoso (em certo período, costumava pintar o rosto, mais ou menos como o "metrossexual" de hoje), Eliot ao mesmo tempo rejeitava e cultivava sua fama de poeta impenetrável. As famigeradas notas que o próprio autor apôs a seu poema mais célebre, A Terra Desolada, são exemplares nesse sentido: parecem elucidar, mas acabam mistificando ainda mais o poema. Mas não é preciso saber que a palavra sânscrita shantih, que encerra o texto, quer dizer "paz", ou que o episódio do trenó na primeira seção traz referências sutis ao fim do Império Austro-Húngaro. Mesmo que essas miudezas eruditas escapem ao leitor, o efeito poético permanece, por obra do apuro técnico insuperável do versificador T.S. Eliot. Lançada em 1922, mesmo ano do Ulisses, de James Joyce (e mesmo ano de uma quermesse literária comparativamente irrelevante na cidade de São Paulo), A Terra Desolada é um registro sensível de uma crise histórica que exigiu duas guerras mundiais para se resolver e enterrou uma porção significativa da tradição cultural européia na insignificância. O leitor guardará o sentimento avassalador de que algo está se perdendo, mesmo quando não souber exatamente o quê.

 
 
 
 
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