|
|
Memória O
profeta da desconstrução
Jacques
Derrida, o polêmico filósofo francês que serviu de
guru aos pós-modernos e aos adeptos do politicamente correto
"Tenho enorme apreço por tudo
o que eu desconstruo."
Jacques Derrida |
|
|
| Jacques
Derrida foi o doutor Frankenstein da filosofia contemporânea. Como o cientista
na história de horror, ele deu vida a uma criatura, o conceito de "desconstrução",
que depois escapou ao seu controle e causou convulsões e ruína no
mundo das humanidades. Menos trágico que Frankenstein, contudo, o autor
francês não deixou que sua criatura o destruísse. Ele resistiu
aos ataques dos adversários e à paixão de seus admiradores
(que podiam ser bem piores do que os críticos) e morreu no último
dia 8, como um dos pensadores mais independentes e originais surgidos no século
XX. Tinha 74 anos e sofria de câncer no pâncreas.
A desconstrução surgiu nos textos de Derrida como parte de uma crítica
abrangente ao "pensamento ocidental". Ela é um dos termos numa equação
filosófica complexa, elaborada em vários livros. Trata-se de uma
estratégia "subversiva" de leitura, que parte do princípio de que
qualquer texto, por mais que almeje à clareza e ao rigor, sempre contém
pontos cegos ou nódulos de ambigüidade que, devidamente explorados,
permitem desfazer as amarras lógicas do raciocínio, inverter suas
premissas, anular sua hierarquia de idéias. Assim, ao ler o Fedro de
Platão, Derrida se agarra ao termo grego pharmakon, que tanto pode
significar remédio quanto veneno, para virar as entranhas do diálogo
do avesso.
Derrida começou a brincar com o conceito de desconstrução
em meados dos anos 60. Ainda não era uma estrela, mas já era uma
figura conhecida nos círculos "bem-pensantes" de Paris. Pouco mais de uma
década antes ele havia se mudado da Argélia, onde nasceu, para estudar
na metrópole. Tornou-se amigo de outros pensadores que depois ficariam
famosos, como Michel Foucault e Louis Althusser. Num romance sobre a vida intelectual
francesa daquela época, Samurai, a escritora Julia Kristeva retrata
Derrida num personagem que se chama Saida e que, como ele, dispõe de uma
espécie de hipersensibilidade para a linguagem. Saida acaba por adquirir
"uma reputação de guru que arrebata os Estados Unidos". E foi exatamente
isso que aconteceu com Derrida. Mais do que na França, foi do outro lado
do Atlântico que ele se tornou profeta e inspirou a seita dos desconstrucionistas.
A desconstrução
chegou às universidades americanas no exato momento em que os acadêmicos
de esquerda procuravam armas diferentes para fazer crítica social. A nova
importação francesa lhes caiu como uma luva. Logo, a desconstrução
passou a ser usada como um método de interpretação que dava
margem às leituras mais estapafúrdias de tratados filosóficos,
textos literários, filmes e obras de arte houve quem falasse numa
espécie de "derridadaísmo". Mais que isso, ela se tornou a ferramenta
política por excelência para quem pretendia denunciar "o substrato
autoritário e opressor do pensamento ocidental". As feministas foram as
primeiras a se apropriar de Derrida dessa maneira, e logo atrás vieram
os representantes de outras minorias, que tomaram conta de inúmeros departamentos
de ciências humanas nos anos 70 e 80 e criaram a famigerada voga do "politicamente
correto".
Derrida colaborou em parte com seus seguidores. Mas ele nunca se refestelou na
aventura da desconstrução barata e muito menos aderiu ao politicamente
correto. Ao contrário de seus acólitos, que liam Shakespeare para
denunciá-lo como um "macho branco", e que por isso foram agrupados pelo
crítico literário americano Harold Bloom sob o rótulo de
Escola do Ressentimento, Derrida deixou claro que seu relacionamento com os textos
que analisava era sempre amoroso: "Tenho enorme apreço por tudo o que eu
desconstruo", disse ele. Além disso ele manteve, durante toda a vida, uma
distância prudente do engajamento político. Sempre escolheu cuidadosamente
suas causas, pronunciando-se contra o apartheid na África do Sul, por exemplo.
Em sua última década de vida, o pensador começou inclusive
a brincar com a noção de que existem coisas que são "indesconstrutíveis"
idéias como as de justiça, democracia e amizade , o
que contrariou a velha caricatura de um guerrilheiro intelectual. Assim, que tipo
de pensador foi Derrida? Segundo o americano Richard Rorty, ele mesmo um dos grandes
nomes da filosofia contemporânea, haveria duas maneiras de ler a obra de
seu colega francês. Primeiro, como um filósofo engenhoso, difícil
e um bocado excêntrico, que escreveu "para o deleite de iniciados que compartilham
de sua formação e que se divertem ou se emocionam do mesmo modo
que ele diante de temas um tanto esotéricos". Em segundo lugar, como alguém
"que oferece armas para subverter as instituições sociais". A segunda
leitura levou ao politicamente correto. A primeira, diz Rorty, é de longe
a mais precisa. E também a melhor, até porque deixa claro: se você
não é filósofo, nem tente se aventurar. |