Edição 1876 . 20 de outubro de 2004

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Memória
O profeta da desconstrução

Jacques Derrida, o polêmico filósofo francês
que serviu de
guru aos pós-modernos e aos
adeptos do politicamente correto


"Tenho enorme apreço por tudo o que eu desconstruo."
Jacques Derrida
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Trechos de livros

Jacques Derrida foi o doutor Frankenstein da filosofia contemporânea. Como o cientista na história de horror, ele deu vida a uma criatura, o conceito de "desconstrução", que depois escapou ao seu controle e causou convulsões e ruína no mundo das humanidades. Menos trágico que Frankenstein, contudo, o autor francês não deixou que sua criatura o destruísse. Ele resistiu aos ataques dos adversários e à paixão de seus admiradores (que podiam ser bem piores do que os críticos) e morreu no último dia 8, como um dos pensadores mais independentes e originais surgidos no século XX. Tinha 74 anos e sofria de câncer no pâncreas.

A desconstrução surgiu nos textos de Derrida como parte de uma crítica abrangente ao "pensamento ocidental". Ela é um dos termos numa equação filosófica complexa, elaborada em vários livros. Trata-se de uma estratégia "subversiva" de leitura, que parte do princípio de que qualquer texto, por mais que almeje à clareza e ao rigor, sempre contém pontos cegos ou nódulos de ambigüidade que, devidamente explorados, permitem desfazer as amarras lógicas do raciocínio, inverter suas premissas, anular sua hierarquia de idéias. Assim, ao ler o Fedro de Platão, Derrida se agarra ao termo grego pharmakon, que tanto pode significar remédio quanto veneno, para virar as entranhas do diálogo do avesso.

Derrida começou a brincar com o conceito de desconstrução em meados dos anos 60. Ainda não era uma estrela, mas já era uma figura conhecida nos círculos "bem-pensantes" de Paris. Pouco mais de uma década antes ele havia se mudado da Argélia, onde nasceu, para estudar na metrópole. Tornou-se amigo de outros pensadores que depois ficariam famosos, como Michel Foucault e Louis Althusser. Num romance sobre a vida intelectual francesa daquela época, Samurai, a escritora Julia Kristeva retrata Derrida num personagem que se chama Saida e que, como ele, dispõe de uma espécie de hipersensibilidade para a linguagem. Saida acaba por adquirir "uma reputação de guru que arrebata os Estados Unidos". E foi exatamente isso que aconteceu com Derrida. Mais do que na França, foi do outro lado do Atlântico que ele se tornou profeta e inspirou a seita dos desconstrucionistas.

A desconstrução chegou às universidades americanas no exato momento em que os acadêmicos de esquerda procuravam armas diferentes para fazer crítica social. A nova importação francesa lhes caiu como uma luva. Logo, a desconstrução passou a ser usada como um método de interpretação que dava margem às leituras mais estapafúrdias de tratados filosóficos, textos literários, filmes e obras de arte – houve quem falasse numa espécie de "derridadaísmo". Mais que isso, ela se tornou a ferramenta política por excelência para quem pretendia denunciar "o substrato autoritário e opressor do pensamento ocidental". As feministas foram as primeiras a se apropriar de Derrida dessa maneira, e logo atrás vieram os representantes de outras minorias, que tomaram conta de inúmeros departamentos de ciências humanas nos anos 70 e 80 e criaram a famigerada voga do "politicamente correto".

Derrida colaborou em parte com seus seguidores. Mas ele nunca se refestelou na aventura da desconstrução barata e muito menos aderiu ao politicamente correto. Ao contrário de seus acólitos, que liam Shakespeare para denunciá-lo como um "macho branco", e que por isso foram agrupados pelo crítico literário americano Harold Bloom sob o rótulo de Escola do Ressentimento, Derrida deixou claro que seu relacionamento com os textos que analisava era sempre amoroso: "Tenho enorme apreço por tudo o que eu desconstruo", disse ele. Além disso ele manteve, durante toda a vida, uma distância prudente do engajamento político. Sempre escolheu cuidadosamente suas causas, pronunciando-se contra o apartheid na África do Sul, por exemplo. Em sua última década de vida, o pensador começou inclusive a brincar com a noção de que existem coisas que são "indesconstrutíveis" – idéias como as de justiça, democracia e amizade –, o que contrariou a velha caricatura de um guerrilheiro intelectual. Assim, que tipo de pensador foi Derrida? Segundo o americano Richard Rorty, ele mesmo um dos grandes nomes da filosofia contemporânea, haveria duas maneiras de ler a obra de seu colega francês. Primeiro, como um filósofo engenhoso, difícil e um bocado excêntrico, que escreveu "para o deleite de iniciados que compartilham de sua formação e que se divertem ou se emocionam do mesmo modo que ele diante de temas um tanto esotéricos". Em segundo lugar, como alguém "que oferece armas para subverter as instituições sociais". A segunda leitura levou ao politicamente correto. A primeira, diz Rorty, é de longe a mais precisa. E também a melhor, até porque deixa claro: se você não é filósofo, nem tente se aventurar.

 
 
 
 
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