Edição 1876 . 20 de outubro de 2004

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Sérgio Abranches
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Auto-retrato
Contexto
Veja essa
VEJA on-line
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Televisão
O melhor do pior

O Pânico azucrina celebridades, usa e abusa
do trash, e faz barulho nas tardes de domingo


Ricardo Valladares


Fotos divulgação
Os marmanjos do Pânico e a viçosa Sabrina, entre eles e no destaque: paródias e caipirinhas

De tempos em tempos, um humorístico mambembe causa barulho na televisão brasileira. São programas que, mesmo sem ser campeões de audiência, acabam na boca do povo. Foi assim com o Perdidos na Noite, que revelou ao país o apresentador Fausto Silva, nos anos 80. Foi assim também com o Casseta & Planeta dos primeiros tempos e, mais recentemente, com Os Piores Clipes do Mundo, da MTV, que proporcionou minutos de fama ao VJ Marcos Mion. O fenômeno da hora é o Pânico na TV, protagonizado por uma trupe de nove marmanjos, dois mulherões e alguns anões. O grupo preenche uma hora e meia na programação das tardes de domingo da Rede TV! com puro trash. A grande novidade do Pânico é transformar o mundo das celebridades na matéria-prima básica de suas piadas. Eles fazem paródias de outros programas – como o Táxi do Gluglu ou o Show da Tchutcha – e têm como ponto alto um quadro em que um imitador de Silvio Santos e o personagem Repórter Vesgo "entrevistam" gente famosa em festas e eventos afins. Eles azucrinam as celebridades maiores e zombam sem dó daquelas que aspiram a um lugar ao sol ou começam a voltar à sombra (e, convenhamos, a maioria das celebridades brasileiras bem que merece a galhofa).

Certa vez, o Repórter Vesgo levou um soco do ator Victor Fasano, ao tascar à queima-roupa: "E aí, Victor, faz anos que você não aparece". Noutra ocasião, deixou Preta Gil, filha do ministro da Cultura, Gilberto Gil, falando sozinha. "Tchau, chegou alguém mais famoso para entrevistar", disse a ela. Antes do primeiro turno das eleições municipais, a convite de um jornal, a dupla fez perguntas aos candidatos à prefeitura de São Paulo. Sem pestanejar, Vesgo lançou o seguinte míssil sobre o ex-prefeito Paulo Maluf: "E aí, você me empresta a senha de sua conta na Suíça para eu comprar um terno novo?" A atmosfera bizarra de Pânico se completa com a presença de figurantes como uma ajudante de palco chamada Mulher Samambaia, de uma sósia da empresária Marlene Mattos e de Sabrina, aquela ex-participante do Big Brother Brasil conhecida pelas coxas portentosas e pelo sotaque arrastado. Sabrina realiza reportagens sobre a extração de sêmen de porcos ou sobre o efeito de várias caipirinhas nos reflexos de um motorista (ela mesma encheu a cara para depois dirigir). A viçosa apresentadora vive, aliás, um romance nos bastidores do programa. Ela namora Carlos Alberto da Silva, que interpreta o personagem Mendigo. Esmola boa é isso aí.

Pânico começou como programa humorístico numa rádio de São Paulo, cinco anos atrás. Alguns dos atuais integrantes entraram no show graças à informalidade reinante: o Repórter Vesgo era um ouvinte assíduo e o Mendigo trabalhava como office-boy na emissora. Ainda hoje, é a rádio que banca o salário dos apresentadores. A Rede TV! só cuida da produção, e o orçamento é curtíssimo. "Temos 1 200 reais para gastar por semana", diz um dos integrantes. Num programa exibido no mês passado, a trupe apagou a luz e fingiu dormir durante quase sete minutos – ao vivo –, por supostamente não ter o que colocar no ar. Apesar dos recursos minguados, a atração não faz feio nos índices de audiência: tem alcançado a média de 5 pontos no ibope, marca respeitável para a emissora e o horário em que é exibida. "Estamos aprendendo a fazer televisão", diz Emilio Surita, líder da trupe. Eles têm, no entanto, certos desafios pela frente. Um deles é vencer a resistência do mercado publicitário. "Programas humorísticos sempre têm uma dificuldade inicial para atrair anunciantes", diz Ivan Marques, diretor da agência de publicidade F/Nazca. Mas o maior risco é mesmo o de que o humor da turma se esgote ou, com o tempo, perca o jeito irreverente e atrevido. Depois do Perdidos da Noite, por exemplo, Fausto Silva viu sua carreira decolar, mas suas tiradas perderam a graça. O mesmo aconteceu com Mion, que passou a se repetir. A turma do Casseta & Planeta tornou-se uma exceção à regra, ao manter-se fiel a seu humor numa grande emissora. Depois de viver a própria fama, os rapazes do Pânico precisarão se cuidar para não ser as vítimas de um Repórter Vesgo no futuro.

 

Tudo se copia


Gugu e Monique: genérico de Márcia Goldschmidt Quadros assistencialistas: é só pedir que o Gugu dá

Em setembro do ano passado, o apresentador Gugu Liberato, do SBT, se envolveu em um escândalo ao exibir no Domingo Legal uma entrevista com falsos bandidos que ameaçavam de morte outros apresentadores. O episódio arranhou seu prestígio e lhe rendeu uma perda de audiência de 6 pontos. Além disso, fez com que programas como o Pânico, da Rede TV!, e o Jogo da Vida, da Bandeirantes, voltassem os seus canhões contra ele, na intenção de tirar uma casquinha de sua audiência periclitante. Nas últimas semanas, Gugu resolveu dar o troco – copiando seus adversários. O quadro Os Penetras, por exemplo, é xerox das estripulias que o Repórter Vesgo e o falso Silvio Santos aprontam no Pânico (esses dois, por sinal, não gostaram nada da concorrência. "Os caras são muito bobos", diz o Repórter Vesgo a respeito dos Penetras). Outra cópia é o Bate Coração, no qual Monique Evans procura resolver problemas de casais briguentos e imita o Jogo da Vida, de Márcia Goldschmidt. Para retomar sua imagem combalida de moço loiro e bonzinho, Gugu também tem investido num quadro "assistencialista". Num fim de semana ele ajuda pessoas a reformar a casa, noutro ele arruma trabalho para um desempregado. E assim por diante. É a reciclagem de uma atração que o pagodeiro Netinho comandou no próprio Domingo Legal quatro anos atrás e que depois se transformou em programa da Rede Record. Sem exibir um pingo de imaginação, Gugu já recuperou 2 pontos nessa sua "nova fase". Nada se cria.

 

 
 
 
 
topovoltar