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Amazônia
A fronteira final
A primeira expedição
científica
ao Parque
do Tumucumaque encontra
uma das áreas
de maior biodiversidade do planeta

Gabriela Carelli
Fotos Enrico Bernard/Conservação
Internacional
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| Espécies coletadas pela
expedição: tipo raro de morcego, que ajuda a preservar
a mata (no alto), sapo cujas toxinas podem se tornar
matéria-prima de remédios e o exuberante pássaro
maria-leque |
O Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque,
no Estado do Amapá, uma reserva natural tombada em 2002,
é considerado um dos maiores santuários ecológicos
do planeta. A maior parte de seus 3,8 milhões de hectares,
área equivalente à do Estado do Rio de Janeiro, permanece
incólume à presença do homem por causa do acesso
difícil. Para chegar lá, só navegando pelo
turbulento Rio Amapari até a entrada sul da reserva ou pulando
de um helicóptero e enfrentando a mata densa. Há um
mês, um grupo de 24 pesquisadores aceitou o desafio de desbravar
um trecho da reserva. Com 2 toneladas de suprimentos divididas em
seis canoas de madeira, a equipe percorreu 140 quilômetros
de águas cheias de corredeiras. Por várias vezes,
os integrantes do grupo tiveram de descer dos barcos e arrastá-los
pelas pedras por causa de troncos que impediam a passagem. Depois
de dois dias de viagem, eles desembarcaram na região sul
do parque. Foi um feito inédito. Até então,
nenhuma expedição científica havia chegado
ao local.
A empreitada durou dezoito dias e foi a primeira
de uma série de cinco expedições programadas
pelo grupo a Tumucumaque. O objetivo dos exploradores, cientistas
do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas
do Estado do Amapá (Iepa) e da ONG Conservação
Internacional, é coletar e catalogar o maior número
possível de animais e plantas da região. A expectativa
é que se comprove a tese de que se trata da área com
a maior biodiversidade do planeta. "É bem possível
que a exploração de Tumucumaque revele muitas novas
espécies", diz o ecólogo Philip Fearnside, do Instituto
Nacional de Pesquisas da Amazônia. Isso pode ocorrer não
apenas por causa do tamanho do território mas também
pela quantidade de ecossistemas que ele abriga. "Há mais
de uma dezena de habitats diferentes na área, que vão
desde montanhas a florestas inundadas. Isso aumenta muito as chances
de encontrar novas espécies", explica Fearnside.
Até agora, a região mais rica
em biodiversidade que se conhece é o Alto Juruá, no
Acre, área menos diversificada em termos de relevos e habitats
do que Tumucumaque. No Alto Juruá foram encontradas 616 espécies
de aves, cinqüenta de répteis, 300 de aranhas, 140 de
sapos e 1.620 tipos de borboletas. Os
resultados da primeira expedição indicam que Tumucumaque
pode ter uma quantidade ainda maior de espécies. "Em dez
dias de coletas num raio de 3 quilômetros, achamos 25 espécies
de lagartos, uma quantidade notável mesmo para os padrões
amazônicos", diz o biólogo Enrico Bernard, coordenador
de projetos da Amazônia da Conservação Internacional
e chefe das expedições. Também foram identificados
150 tipos de aves, 29 de morcegos e 35 de mamíferos. Neste
último grupo, destacou-se um tipo de veado nunca visto na
Amazônia. "Há muitas chances de termos encontrado espécies
novas de morcegos e de répteis, mas só podemos afirmá-lo
após estudos em laboratório e consultas à literatura
científica", diz Bernard.
Desbravar a mata virgem, como em Tumucumaque,
é uma aventura e tanto. Na primeira noite de acampamento,
um dos integrantes do grupo descobriu uma onça dentro de
uma árvore próxima. Na hora do banho, numa cachoeira,
surgiram cobras venenosas. Nos primeiros três dias, todo o
grupo se muniu de facões e motosserras para abrir trilhas
e instalar as 350 armadilhas destinadas a coletar os animais. A
jornada diária de trabalho girava em torno de quinze horas.
"Guardadas as proporções, estamos fazendo um trabalho
semelhante ao dos naturalistas dos séculos passados, só
que com mais recursos e tecnologia para encontrar as espécies",
diz Bernard.
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