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Conjuntura
A Índia é a nova sensação
Consumo na Índia: transparência,
regras
claras, profissionais com alto nível educacional
são atrativos ao investimento estrangeiro e
fazem o país crescer a taxas anuais de 8%

Chrystiane Silva
AP
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| Consumo na Índia: transparência,
regras claras, profissionais com alto nível educacional
são atrativos ao investimento estrangeiro e fazem o país
crescer a taxas anuais de 8% |
Entre 25 nações avaliadas, o
Brasil apareceu como a 17ª economia mais atrativa para investimentos
estrangeiros. Além de estar perto do fim da lista, o país
despencou oito posições em apenas um ano. Em 2003,
ocupava o nono lugar. Foi a pior colocação dos últimos
seis anos, desde que a consultoria americana A.T. Kearney começou
a ouvir a opinião de 1.000 executivos
ao redor do mundo sobre os países mais confiáveis
para receber investimentos. Entre os emergentes, o preferido é
a China, o que não chega a ser nenhuma novidade. A Índia
foi a vedete. O país asiático conquistou os investidores
com um mercado em firme expansão e um setor de tecnologia
da informação perfeitamente integrado ao mundo por
fibras ópticas de alta velocidade e satélites. Ao
Brasil restou a sensação, cada vez mais angustiante,
de mesmo fazendo progresso ver-se ultrapassado por alguns dos mais
improváveis contendores econômicos de décadas
passadas.
O
Brasil fez avanços recentes, mas eles foram insuficientes
para afastar a sensação de vulnerabilidade e a percepção
de risco que os investidores estrangeiros têm do país.
Entre os avanços estão a estabilidade econômica,
a alternância de poder com manutenção da ordem
democrática e as reformas estruturais, que garantiram a base
mínima para o crescimento do país. Neste ano, as previsões
apontam para um crescimento de cerca de 4,5%. Caso isso se confirme,
será o melhor resultado dos últimos dez anos. As exportações
vão atingir um novo recorde e podem chegar a 95 bilhões
de dólares. A produção industrial cresce há
seis meses consecutivos. Ou seja, o Brasil é um bom jogador
no campo econômico planetário. Ocorre que outros estão
aprendendo a jogar ainda melhor. Outra avaliação comparativa
divulgada na semana passada deixou o país em posição
pior do que a que ocupava. Estudo feito pelo Fórum Econômico
Mundial, que organiza o encontro anual em Davos, na Suíça,
ouviu mais de 8.700 empresários
em 104 nações. O Fórum estava interessado em
saber dos empresários que nível de competitividade
eles enxergavam nos países estudados. Pelo terceiro ano consecutivo
o Brasil piorou sua posição relativa na lista. O país
ficou na 57ª posição em um ranking em que a Finlândia
ficou com a primeira colocação, os Estados Unidos
com a segunda e a Suécia com a terceira.
O que entrava o Brasil? Os principais problemas
levantados são do conhecimento de todos os brasileiros. A
alta carga tributária, a enorme burocracia e o crédito
caro e raro foram as mazelas mais citadas. Pela primeira vez nas
enquetes, a liberdade de atuação do crime organizado
apareceu como o grande fosso institucional a separar a sociedade
e a economia brasileiras das que prosperam mais rapidamente. O Brasil
ficou atrás de países como Botsuana, Estônia
e até do Marrocos, que vem despontando com vigor no cenário
internacional. O Marrocos pode vir a ser o que foi o Líbano
até ser dilacerado pela guerra civil nos anos 70 e 80. Problemas
no marco regulatório foram uma das queixas mais ouvidas dos
entrevistados pela A. T. Kearney. Também foram apontadas
como fatores negativos a morosidade da Justiça e a dificuldade
de fazer valer os contratos. "É difícil para o Brasil
desfazer a imagem de um país que até pouco tempo atrás
era conhecido por moratórias e por não respeitar contratos.
A credibilidade demora anos até ser consolidada", diz Mailson
da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e sócio da consultoria
Tendências.
O
Brasil precisa se apressar para não ficar ainda mais retardatário
no cenário mundial. Os investimentos diretos estão
diminuindo de volume no mundo. Por isso, os investidores estão
cada vez mais seletivos. Em 2003, foram investidos 565 bilhões
de dólares, quase um terço do que havia disponível
há quatro anos. Nesse cenário, China e Índia
saem na frente do Brasil. A China se destaca pela infra-estrutura
eficiente, pelos incentivos do governo e por ser uma base exportadora
com excelente indústria de manufaturados. Já a Índia
tem trabalhadores com melhor qualificação educacional,
regras claras, transparência e flexibilidade nas leis ambientais.
Esses detalhes fazem a diferença. No ano passado, a China
recebeu 53,5 bilhões de dólares em investimentos diretos,
cinco vezes mais que o Brasil.
Na América Latina, as trajetórias
das economias do Chile e do México realçam as fragilidades
brasileiras. O Chile, que está 35 posições
à frente do Brasil, iniciou as reformas e a abertura econômica
na década de 70. O Brasil só começou a se mexer
no começo da década de 90. Depois do último
calote mexicano, há 22 anos, a palavra moratória sumiu
da retórica política do país. Quatro anos atrás,
em um dos maiores vexames internacionais da história brasileira,
correu pelo país a proposta plebiscitária de perguntar
ao povo se a dívida pública deveria ser paga. A desconfiança
gerada por esse tipo de atitude não se dissipa rapidamente.
Quando se trata de dívida, a única atitude positiva
dos governantes é garantir que ela será paga. Como
escreveu recentemente o colunista argentino Mariano Grondona, no
jornal La Nación: "A história mostra que, quando
a vontade de honrar a dívida é genuína e inequívoca,
muitas vezes isso satisfaz os credores externos e a dívida
nem precisa ser efetivamente paga".
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