Edição 1876 . 20 de outubro de 2004

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Conjuntura
A Índia é a nova sensação

Consumo na Índia: transparência, regras
claras, profissionais com alto nível educacional
são atrativos ao investimento estrangeiro e
fazem o país crescer a taxas anuais de 8%


Chrystiane Silva


AP
Consumo na Índia: transparência, regras claras, profissionais com alto nível educacional são atrativos ao investimento estrangeiro e fazem o país crescer a taxas anuais de 8%

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Entre 25 nações avaliadas, o Brasil apareceu como a 17ª economia mais atrativa para investimentos estrangeiros. Além de estar perto do fim da lista, o país despencou oito posições em apenas um ano. Em 2003, ocupava o nono lugar. Foi a pior colocação dos últimos seis anos, desde que a consultoria americana A.T. Kearney começou a ouvir a opinião de 1.000 executivos ao redor do mundo sobre os países mais confiáveis para receber investimentos. Entre os emergentes, o preferido é a China, o que não chega a ser nenhuma novidade. A Índia foi a vedete. O país asiático conquistou os investidores com um mercado em firme expansão e um setor de tecnologia da informação perfeitamente integrado ao mundo por fibras ópticas de alta velocidade e satélites. Ao Brasil restou a sensação, cada vez mais angustiante, de mesmo fazendo progresso ver-se ultrapassado por alguns dos mais improváveis contendores econômicos de décadas passadas.

O Brasil fez avanços recentes, mas eles foram insuficientes para afastar a sensação de vulnerabilidade e a percepção de risco que os investidores estrangeiros têm do país. Entre os avanços estão a estabilidade econômica, a alternância de poder com manutenção da ordem democrática e as reformas estruturais, que garantiram a base mínima para o crescimento do país. Neste ano, as previsões apontam para um crescimento de cerca de 4,5%. Caso isso se confirme, será o melhor resultado dos últimos dez anos. As exportações vão atingir um novo recorde e podem chegar a 95 bilhões de dólares. A produção industrial cresce há seis meses consecutivos. Ou seja, o Brasil é um bom jogador no campo econômico planetário. Ocorre que outros estão aprendendo a jogar ainda melhor. Outra avaliação comparativa divulgada na semana passada deixou o país em posição pior do que a que ocupava. Estudo feito pelo Fórum Econômico Mundial, que organiza o encontro anual em Davos, na Suíça, ouviu mais de 8.700 empresários em 104 nações. O Fórum estava interessado em saber dos empresários que nível de competitividade eles enxergavam nos países estudados. Pelo terceiro ano consecutivo o Brasil piorou sua posição relativa na lista. O país ficou na 57ª posição em um ranking em que a Finlândia ficou com a primeira colocação, os Estados Unidos com a segunda e a Suécia com a terceira.

O que entrava o Brasil? Os principais problemas levantados são do conhecimento de todos os brasileiros. A alta carga tributária, a enorme burocracia e o crédito caro e raro foram as mazelas mais citadas. Pela primeira vez nas enquetes, a liberdade de atuação do crime organizado apareceu como o grande fosso institucional a separar a sociedade e a economia brasileiras das que prosperam mais rapidamente. O Brasil ficou atrás de países como Botsuana, Estônia e até do Marrocos, que vem despontando com vigor no cenário internacional. O Marrocos pode vir a ser o que foi o Líbano até ser dilacerado pela guerra civil nos anos 70 e 80. Problemas no marco regulatório foram uma das queixas mais ouvidas dos entrevistados pela A. T. Kearney. Também foram apontadas como fatores negativos a morosidade da Justiça e a dificuldade de fazer valer os contratos. "É difícil para o Brasil desfazer a imagem de um país que até pouco tempo atrás era conhecido por moratórias e por não respeitar contratos. A credibilidade demora anos até ser consolidada", diz Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e sócio da consultoria Tendências.

O Brasil precisa se apressar para não ficar ainda mais retardatário no cenário mundial. Os investimentos diretos estão diminuindo de volume no mundo. Por isso, os investidores estão cada vez mais seletivos. Em 2003, foram investidos 565 bilhões de dólares, quase um terço do que havia disponível há quatro anos. Nesse cenário, China e Índia saem na frente do Brasil. A China se destaca pela infra-estrutura eficiente, pelos incentivos do governo e por ser uma base exportadora com excelente indústria de manufaturados. Já a Índia tem trabalhadores com melhor qualificação educacional, regras claras, transparência e flexibilidade nas leis ambientais. Esses detalhes fazem a diferença. No ano passado, a China recebeu 53,5 bilhões de dólares em investimentos diretos, cinco vezes mais que o Brasil.

Na América Latina, as trajetórias das economias do Chile e do México realçam as fragilidades brasileiras. O Chile, que está 35 posições à frente do Brasil, iniciou as reformas e a abertura econômica na década de 70. O Brasil só começou a se mexer no começo da década de 90. Depois do último calote mexicano, há 22 anos, a palavra moratória sumiu da retórica política do país. Quatro anos atrás, em um dos maiores vexames internacionais da história brasileira, correu pelo país a proposta plebiscitária de perguntar ao povo se a dívida pública deveria ser paga. A desconfiança gerada por esse tipo de atitude não se dissipa rapidamente. Quando se trata de dívida, a única atitude positiva dos governantes é garantir que ela será paga. Como escreveu recentemente o colunista argentino Mariano Grondona, no jornal La Nación: "A história mostra que, quando a vontade de honrar a dívida é genuína e inequívoca, muitas vezes isso satisfaz os credores externos e a dívida nem precisa ser efetivamente paga".

 
 
 
 
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