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ECONOMIA
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Nobel
Um prêmio à sensatez
O Nobel de Economia premia os
apóstolos das políticas de longo prazo

Carina Nucci
AP
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AFP
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| Edward Prescott: o artigo sobre ciclos econômicos, de
1982, um dos que justificaram o prêmio, gera polêmica
até hoje |
Finn Kydland: estudo de 1977 levou à independência
de bancos centrais |
Edward Prescott e Finn Kydland, ganhadores
do Prêmio Nobel de Economia deste ano, mudaram a forma como
os governos mais organizados do mundo lidam com seus bancos centrais.
Em um dos dois artigos que lhes renderam a premiação,
publicado há 27 anos, Prescott e Kydland mostraram que as
economias se fortalecem com políticas monetárias coerentes
e duradouras, mesmo que exista um preço a ser pago no curto
prazo. Segundo os dois, empresas e consumidores hesitam quando percebem
uma propensão do governo a abandonar a meta de perseguir
a inflação ou a mudar as regras na metade do jogo.
Esse artigo serviu de base teórica
para a adoção de bancos centrais independentes na
Europa e na Nova Zelândia. Prescott, 63 anos, é professor
da Universidade Estadual do Arizona e funcionário do Federal
Reserve Bank de Minneapolis. Kydland, 60, é professor da
Universidade Carnegie Mellon. Ambos sustentam que governantes e
bancos centrais buscam objetivos às vezes contraditórios.
Os primeiros têm visão de curto prazo, pensam apenas
no momento. "Já os presidentes de bancos centrais estão
comprometidos com a meta de inflação", explica Edward
Prescott. O Brasil e o mundo estão cheios de exemplos de
governantes que relaxaram no combate à inflação
quando perceberam que os juros altos, instrumento usado para evitar
aumento de preços, provocavam desgaste político em
períodos eleitorais. "O mandato fixo do presidente do Banco
Central, independentemente da troca de governos, é uma das
grandes condições para o cumprimento da política
monetária no longo prazo", explica o ex-presidente do Banco
Central Affonso Celso Pastore. No Brasil, o sistema de metas de
inflação foi criado em junho de 1999, mas até
hoje o projeto que prevê a autonomia formal do Banco Central
está parado no Congresso. Embora conte com o apoio do ministro
da Fazenda, Antonio Palocci, o sistema é sempre bombardeado
por setores do próprio PT.
A Academia Real de Ciências da Suécia,
que concede o Nobel, justificou a premiação de Prescott
e Kydland com outro artigo, mais polêmico, publicado pela
dupla em 1982. Nele, os dois argumentaram que mudanças tecnológicas
e choques como a alta repentina da cotação do petróleo
têm mais impacto nas fases de recessão e de crescimento
do que a disposição de pessoas e empresas ao consumo.
Até a publicação desse artigo, os ciclos econômicos
eram explicados essencialmente pelas idéias de John Maynard
Keynes, que dominaram o pensamento econômico no pós-guerra.
Keynes acreditava que os altos e baixos da economia eram explicados
somente pela variação da demanda.
Não se trata de um debate apenas teórico.
A hipótese de Keynes serviu de base para todos os tipos de
intervenção estatal na economia. De suas idéias
surgiram, por exemplo, escolas de pensamento como a desenvolvimentista,
que inspirou políticas econômicas de vários
governos no Brasil e ainda encanta uma parcela do atual governo.
Segundo essa linha de pensamento, bastaria estimular a demanda quando
a economia desacelera para escapar de recessões. A teoria
de Prescott e Kydland sugere uma abordagem mais centrada na busca
de produtividade e de novas tecnologias.
Esse trabalho dos dois economistas é
criticado não só pelos desenvolvimentistas, mas também
por autoridades em política econômica, como Lawrence
Summers, secretário do Tesouro no governo de Bill Clinton
e atualmente reitor da Universidade Harvard. Summers acredita que
a teoria de Prescott e Kydland sobre ciclos econômicos é
"implausível" e não explicaria o que ocorreu na economia
americana e em outras economias capitalistas nas últimas
décadas. Summers, no entanto, considera a premiação
dos dois economistas merecida em razão da reflexão
de ambos sobre política monetária. Apesar dessas críticas,
economistas de diferentes linhas hoje levam em consideração
fatores como os avanços tecnológicos para entender
processos recessivos ou de expansão.
De todos os ganhadores do Nobel de Economia
nos últimos anos, Prescott e Kydland estão entre os
que mais têm a ensinar aos brasileiros, não só
pelos trabalhos que lhes renderam os prêmios, mas também
por outras obras destinadas a explicar por que alguns países
crescem mais que outros. Para Prescott, o México é,
na América Latina, o país com mais chance de diminuir
a distância que o separa dos países ricos. De acordo
com os cálculos do economista premiado com o Nobel, os mexicanos
alcançarão o mesmo nível de bem-estar de europeus
e americanos caso consigam se manter crescendo a uma taxa média
anual de 4% pelos próximos dezoito anos. Difícil.
Mas não impossível.
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"O Brasil tem potencial"
Edward Prescott, professor da
Universidade Estadual do Arizona e pesquisador do Fed
de Minneapolis, foi premiado junto com Finn Kydland
com o Nobel de Economia de 2004. Prescott falou ao editor
Eduardo Salgado de VEJA.
POR QUE O SENHOR DEFENDE QUE
O PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL DETERMINE A TAXA DE JUROS
SE É O PRESIDENTE DA REPÚBLICA O ELEITO
PARA COMANDAR A ECONOMIA?
Presidentes inteligentes deixam a política
de juros nas mãos do presidente do Banco Central.
Detalhe: o objetivo da política monetária,
ou seja, a meta de inflação, deve ser
decidido pela sociedade por meio do representante eleito.
Mas é o Banco Central que deve cumprir a meta
estabelecida.
QUAIS SÃO AS LIÇÕES
QUE A AMÉRICA LATINA TEM A APRENDER COM OS PAÍSES
ASIÁTICOS QUE APRESENTARAM GRANDE CRESCIMENTO
NAS ÚLTIMAS DÉCADAS?
Os países latino-americanos estão
se integrando economicamente com economias mais desenvolvidas
e isso levará ao crescimento. Na década
de 50 do século XX, os economistas diziam que
não havia saída para os países
asiáticos. Olhe só como eles estão
hoje. Nos anos 50, o Brasil iniciou o processo de substituição
de importações. Era uma tentativa de desenvolver
a indústria nacional à base de proteção.
Infelizmente, não funcionou. A solução
é justamente o contrário: abrir as economias
para o comércio com as nações mais
ricas e também promover uma maior integração
entre os países da região. É incrível
como o intercâmbio comercial regional ainda é
pequeno. Na América Latina, o destaque é
o México. O país vai despontar em breve.
Teve uma transição difícil, mas
está à frente dos demais.
EM QUE MEDIDA AS SUAS CONTRIBUIÇÕES
PARA O ESTUDO DA ECONOMIA SÃO APLICÁVEIS
A TODOS OS PAÍSES, INDEPENDENTEMENTE DO TAMANHO
E DO NÍVEL DE DESENVOLVIMENTO?
Acredito que nossas descobertas se aplicam a todos
os países. Nossa defesa da abertura da economia
é um exemplo. Luxemburgo é um país
pequeno, mas continua sendo um dos mais ricos do mundo
porque tem uma economia bastante aberta. No caso do
Brasil, um país grande e num nível de
desenvolvimento menos elevado, houve uma melhora recente
no quadro econômico. Há um enorme potencial
para o crescimento da economia, mas é preciso
empenho. Se o país conseguir honrar seus compromissos,
seguir as regras estabelecidas e mantiver a credibilidade,
estará no caminho certo.
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