Edição 1876 . 20 de outubro de 2004

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ECONOMIA

Nobel
Um prêmio à sensatez

O Nobel de Economia premia os
apóstolos das políticas de longo prazo


Carina Nucci


AP
AFP
Edward Prescott: o artigo sobre ciclos econômicos, de 1982, um dos que justificaram o prêmio, gera polêmica até hoje Finn Kydland: estudo de 1977 levou à independência de bancos centrais

Edward Prescott e Finn Kydland, ganhadores do Prêmio Nobel de Economia deste ano, mudaram a forma como os governos mais organizados do mundo lidam com seus bancos centrais. Em um dos dois artigos que lhes renderam a premiação, publicado há 27 anos, Prescott e Kydland mostraram que as economias se fortalecem com políticas monetárias coerentes e duradouras, mesmo que exista um preço a ser pago no curto prazo. Segundo os dois, empresas e consumidores hesitam quando percebem uma propensão do governo a abandonar a meta de perseguir a inflação ou a mudar as regras na metade do jogo.

Esse artigo serviu de base teórica para a adoção de bancos centrais independentes na Europa e na Nova Zelândia. Prescott, 63 anos, é professor da Universidade Estadual do Arizona e funcionário do Federal Reserve Bank de Minneapolis. Kydland, 60, é professor da Universidade Carnegie Mellon. Ambos sustentam que governantes e bancos centrais buscam objetivos às vezes contraditórios. Os primeiros têm visão de curto prazo, pensam apenas no momento. "Já os presidentes de bancos centrais estão comprometidos com a meta de inflação", explica Edward Prescott. O Brasil e o mundo estão cheios de exemplos de governantes que relaxaram no combate à inflação quando perceberam que os juros altos, instrumento usado para evitar aumento de preços, provocavam desgaste político em períodos eleitorais. "O mandato fixo do presidente do Banco Central, independentemente da troca de governos, é uma das grandes condições para o cumprimento da política monetária no longo prazo", explica o ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore. No Brasil, o sistema de metas de inflação foi criado em junho de 1999, mas até hoje o projeto que prevê a autonomia formal do Banco Central está parado no Congresso. Embora conte com o apoio do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, o sistema é sempre bombardeado por setores do próprio PT.

A Academia Real de Ciências da Suécia, que concede o Nobel, justificou a premiação de Prescott e Kydland com outro artigo, mais polêmico, publicado pela dupla em 1982. Nele, os dois argumentaram que mudanças tecnológicas e choques como a alta repentina da cotação do petróleo têm mais impacto nas fases de recessão e de crescimento do que a disposição de pessoas e empresas ao consumo. Até a publicação desse artigo, os ciclos econômicos eram explicados essencialmente pelas idéias de John Maynard Keynes, que dominaram o pensamento econômico no pós-guerra. Keynes acreditava que os altos e baixos da economia eram explicados somente pela variação da demanda.

Não se trata de um debate apenas teórico. A hipótese de Keynes serviu de base para todos os tipos de intervenção estatal na economia. De suas idéias surgiram, por exemplo, escolas de pensamento como a desenvolvimentista, que inspirou políticas econômicas de vários governos no Brasil e ainda encanta uma parcela do atual governo. Segundo essa linha de pensamento, bastaria estimular a demanda quando a economia desacelera para escapar de recessões. A teoria de Prescott e Kydland sugere uma abordagem mais centrada na busca de produtividade e de novas tecnologias.

Esse trabalho dos dois economistas é criticado não só pelos desenvolvimentistas, mas também por autoridades em política econômica, como Lawrence Summers, secretário do Tesouro no governo de Bill Clinton e atualmente reitor da Universidade Harvard. Summers acredita que a teoria de Prescott e Kydland sobre ciclos econômicos é "implausível" e não explicaria o que ocorreu na economia americana e em outras economias capitalistas nas últimas décadas. Summers, no entanto, considera a premiação dos dois economistas merecida em razão da reflexão de ambos sobre política monetária. Apesar dessas críticas, economistas de diferentes linhas hoje levam em consideração fatores como os avanços tecnológicos para entender processos recessivos ou de expansão.

De todos os ganhadores do Nobel de Economia nos últimos anos, Prescott e Kydland estão entre os que mais têm a ensinar aos brasileiros, não só pelos trabalhos que lhes renderam os prêmios, mas também por outras obras destinadas a explicar por que alguns países crescem mais que outros. Para Prescott, o México é, na América Latina, o país com mais chance de diminuir a distância que o separa dos países ricos. De acordo com os cálculos do economista premiado com o Nobel, os mexicanos alcançarão o mesmo nível de bem-estar de europeus e americanos caso consigam se manter crescendo a uma taxa média anual de 4% pelos próximos dezoito anos. Difícil. Mas não impossível.

 

"O Brasil tem potencial"

Edward Prescott, professor da Universidade Estadual do Arizona e pesquisador do Fed de Minneapolis, foi premiado junto com Finn Kydland com o Nobel de Economia de 2004. Prescott falou ao editor Eduardo Salgado de VEJA.

POR QUE O SENHOR DEFENDE QUE O PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL DETERMINE A TAXA DE JUROS SE É O PRESIDENTE DA REPÚBLICA O ELEITO PARA COMANDAR A ECONOMIA?
Presidentes inteligentes deixam a política de juros nas mãos do presidente do Banco Central. Detalhe: o objetivo da política monetária, ou seja, a meta de inflação, deve ser decidido pela sociedade por meio do representante eleito. Mas é o Banco Central que deve cumprir a meta estabelecida.

QUAIS SÃO AS LIÇÕES QUE A AMÉRICA LATINA TEM A APRENDER COM OS PAÍSES ASIÁTICOS QUE APRESENTARAM GRANDE CRESCIMENTO NAS ÚLTIMAS DÉCADAS?
Os países latino-americanos estão se integrando economicamente com economias mais desenvolvidas e isso levará ao crescimento. Na década de 50 do século XX, os economistas diziam que não havia saída para os países asiáticos. Olhe só como eles estão hoje. Nos anos 50, o Brasil iniciou o processo de substituição de importações. Era uma tentativa de desenvolver a indústria nacional à base de proteção. Infelizmente, não funcionou. A solução é justamente o contrário: abrir as economias para o comércio com as nações mais ricas e também promover uma maior integração entre os países da região. É incrível como o intercâmbio comercial regional ainda é pequeno. Na América Latina, o destaque é o México. O país vai despontar em breve. Teve uma transição difícil, mas está à frente dos demais.

EM QUE MEDIDA AS SUAS CONTRIBUIÇÕES PARA O ESTUDO DA ECONOMIA SÃO APLICÁVEIS A TODOS OS PAÍSES, INDEPENDENTEMENTE DO TAMANHO E DO NÍVEL DE DESENVOLVIMENTO?
Acredito que nossas descobertas se aplicam a todos os países. Nossa defesa da abertura da economia é um exemplo. Luxemburgo é um país pequeno, mas continua sendo um dos mais ricos do mundo porque tem uma economia bastante aberta. No caso do Brasil, um país grande e num nível de desenvolvimento menos elevado, houve uma melhora recente no quadro econômico. Há um enorme potencial para o crescimento da economia, mas é preciso empenho. Se o país conseguir honrar seus compromissos, seguir as regras estabelecidas e mantiver a credibilidade, estará no caminho certo.

 
 
 
 
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