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Energia
O grande mistério atômico
O Brasil criou uma tecnologia nuclear
funcional mas cuja viabilidade comercial
ainda é um enigma

Marcelo Carneiro
O projeto nuclear brasileiro, que andou chamando
a atenção do mundo, entrará em uma fase decisiva
nesta semana. Na terça-feira, uma equipe da Agência
Internacional de Energia Atômica (Aiea) visitará as
instalações da fábrica de enriquecimento de
urânio que o governo federal está implantando em Resende,
no sul do Rio de Janeiro. A visita pode representar o round final
de uma briga que já se estende desde o início do ano
passado. Fiscais da agência, órgão ligado à
ONU cuja tarefa é inspecionar atividades nucleares em todos
os países que detêm essa tecnologia, querem ter "acesso
visual irrestrito" às centrífugas onde é enriquecido
o urânio brasileiro, usado como combustível para o
funcionamento das usinas nucleares de Angra I e Angra II. O Brasil,
por sua vez, quer mostrar o mínimo possível de seus
equipamentos, sob o argumento de que o modelo nacional, desenvolvido
pela Marinha, é um avanço industrial e, como tal,
tem direito à proteção do sigilo. O impasse
pode estar perto de ser solucionado e disso depende a entrada
em pleno funcionamento da fábrica. VEJA ouviu de duas autoridades
brasileiras envolvidas nas negociações que o governo
concordou em ceder, parcialmente, aos apelos da agência. Hoje,
as centrífugas estão escondidas por painéis
de mais de 2 metros de altura. Eles deverão ser encurtados,
para dar maior visibilidade aos inspetores da Aiea, mas as centrífugas
continuarão ocultas. Ou, na peculiar definição
dada por um assessor do Ministério da Ciência e Tecnologia,
ao qual as Indústrias Nucleares Brasileiras (INB)
empresa responsável pela fábrica estão
subordinadas: "Vamos levantar um pouco mais a saia e abaixar o bustiê,
mas o segredo continuará".
O segredo que o Brasil resiste tanto a revelar
é uma inovação no processo industrial de enriquecimento
de urânio que, em tese, traria uma vantagem competitiva ao
país em um mercado anual de 6 bilhões de dólares
(veja
quadro). O problema é que as centrífugas
brasileiras ainda não foram testadas em escala industrial.
"Nossa tecnologia é, de fato, muito boa, mas atualmente funciona
em baixa produção. Resta saber como se comportará
quando for necessário produzir grandes quantidades de urânio
enriquecido", explica Roberto da Franca, que presidiu as INB de
1993 até o ano passado e acompanhou de perto todas as negociações
para o projeto da fábrica de Resende. Ou seja: na teoria,
as centrífugas nacionais são um sucesso. Na prática,
são ainda um mistério.
Para que se entenda como funciona uma centrífuga
de enriquecimento de urânio, o caminho mais simples é
imaginá-la como se fosse uma máquina de lavar caseira.
A parte da máquina onde se colocam as roupas gira em torno
de um eixo movido por um motor. O que os brasileiros conseguiram
foi fazer com que esse compartimento rode sem o eixo, apenas sustentado
por um campo eletromagnético. É igual ao trem japonês,
que anda sem encostar nos trilhos. Como não produz atrito,
necessita de menos energia e tem durabilidade muito maior. Essa
máquina é também silenciosa. A levitação,
como a chamam os técnicos, é o principal diferencial
da tecnologia brasileira. Acredita-se que uma ultracentrífuga
brasileira eletromagnética dure até vinte anos, enquanto
os modelos de outros países resistem metade desse tempo.
No início deste mês, VEJA esteve na fábrica
de Resende, no galpão onde as centrífugas estão
instaladas. Em um salão do tamanho de uma quadra de basquete,
agrupam-se cerca de 400 delas um número que a Marinha,
o governo brasileiro ou as INB não confirmam nem sob tortura.
Com base nessa informação é possível
calcular a capacidade de produção de cada centrífuga,
e assim chegar mais perto de dados altamente sigilosos como o tamanho
de cada aparelho, estimado entre 1,50 e 1,80 metro. Essas máquinas
giram a 1 300 quilômetros por hora, quase cinco vezes a velocidade
de um carro de Fórmula 1.
Mesmo quando estiver produzindo 43 toneladas
de urânio enriquecido, quantidade suficiente para suprir anualmente
o abastecimento de Angra I e Angra II, a fábrica de Resende
não chegará nem perto da produção de
uma empresa como a Urenco, um dos líderes mundiais nesse
setor. Formada por capital alemão, holandês e inglês
e com fábricas nesses três países, a Urenco
produz, por ano, cerca de 1.500 toneladas
de urânio enriquecido. É uma diferença abissal,
e mostra quanto o Brasil ainda engatinha no mercado nuclear. No
mundo inteiro existem, neste momento, apenas dois tipos de tecnologia
sendo usados em escala industrial para o enriquecimento de urânio.
Um deles é a difusão gasosa, com a qual os Estados
Unidos, uma potência nuclear, alimentam suas 104 usinas. O
outro chama-se ultracentrifugação. É essa a
técnica que o Brasil domina e, aparentemente, vem aprimorando.
Há apenas sete países capazes de enriquecer urânio
por esse processo. Os técnicos brasileiros dizem que a ultracentrifugação
é até 25 vezes mais eficiente que a difusão
gasosa e que as centrífugas de Resende proporcionariam uma
economia de energia de até 30%.
Ninguém imagina que o Brasil seja mais
capaz de produzir tecnologia de ponta do que um país do porte
dos EUA, com sua notável capacidade de pesquisa e verbas
estratosféricas. Ocorre que, de fato, o sistema de centrifugação
inventado pela Marinha e implantado em Resende é inovador.
O interesse por rotores que funcionam sem atrito é muito
grande. Ela está na base de diversas apostas futuras não
apenas no campo da energia, mas também do transporte e até
das viagens espaciais. O Brasil chegou a essa tecnologia aos trancos
e barrancos. As pesquisas tiveram início no período
militar, marcado por uma das maiores mancadas internacionais no
campo da energia nuclear. Do alto de sua sabedoria, os generais
compraram gato por lebre da Alemanha. O governo do general Ernesto
Geisel pagou bilhões de dólares por um brinquedo que
nunca se mostrou útil fora dos laboratórios. O país
virou piada. Dizia-se que, além da fissão e da fusão
nuclear, os brasileiros haviam desenvolvido uma terceira via para
o átomo: a ficção nuclear. Cercado de um sigilo
indevassável também em suas contas, o programa nuclear
brasileiro comandado pelos militares era mais do que secreto. Era
clandestino. Previsivelmente, o programa atolou em um cipoal de
contas secretas que somaram 1 bilhão de dólares. A
desconfiança de que o país tinha interesse em montar
um arsenal atômico nunca se dissipou. E tampouco foi muito
bem disfarçada pelos generais. Escaldada com os erros cometidos,
a Marinha começou a trabalhar em um projeto alternativo de
ultracentrifugação com o objetivo de produzir combustível
para um submarino nuclear, outro sonho que acalenta há décadas.
Foi assim que entraram no cenário mundial as hoje mundialmente
polêmicas centrífugas flutuantes brasileiras. Se elas
são apenas mais um capítulo da suculenta ficção
nuclear brasileira é ainda um grande mistério. Esse
segredo pode estar começando a se revelar quando, na próxima
semana, chegarem ao Brasil os inspetores internacionais.
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