Edição 1876 . 20 de outubro de 2004

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Feitas para brilhar

Concursos são vitrine de jóias
espetaculares que nunca vão
chegar às lojas


Bel Moherdaui

 
Fotos Robert Schwenck
"Volpi", a saia vencedora, e o resplendor "Angel" (à dir.): ouro, coco e seda nas bandeirinhas; ouro com penas de galo no enfeite de escola de samba

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Pode não parecer, mas a minissaia na foto à esquerda é uma jóia. Batizada de "Volpi" (por motivos óbvios para quem já viu os quadros de bandeirinhas de São João do pintor), ela é feita com 420 gramas de ouro, casca de coco e seda. Criação da mineira Fernanda Barcellos, a peça foi a vencedora de um concurso promovido pela mineradora sul-africana AngloGold Ashanti no Brasil, encerrado na semana passada. Fernanda, como a maioria dos competidores dos concursos do gênero, trabalha com jóias há anos e adora a rara oportunidade de jogar para o alto a fôrma do dia-a-dia da oficina. Às vezes, a criatividade reprimida redunda em exageros formais, mas também pode produzir momentos de beleza pura, sem preocupação com a viabilidade comercial. "Peça de concurso é o inusitado, o que sai do comum. Você tem de viajar mesmo", diz a designer Cláudia Lamassa, criadora do resplendor (como é chamado o enorme adorno de penas que encima os ombros das beldades das escolas de samba) "Angel", inspirado no barroco brasileiro, com penas de ouro presas a penas de galo que chacoalham ao menor movimento. "Pode acontecer de alguém querer comprar um igual. Mas o mais provável é que ele seja transformado em algo mais comercial, talvez uma gola de ouro, um colar com menos penas, um brinco", explica Cláudia.

"Samambaia": as folhas de ouro em três cores montadas no adorno de cabeça devem chegar às joalherias na forma mais comercial de brincos

Brincos são justamente a transmutação mais imediata do desenho que resultou na "Samambaia", um magnífico arranjo de cabeça feito de ouro branco, amarelo e vermelho que os designers paulistas Guilherme Marin e Carlos Godoy inscreveram no mesmo concurso. É uma peça conceitual, que foge da joalheria tradicional", diz Marin. Entusiasmados com a oportunidade de brilhar – e tornar conhecidos nomes que até recentemente não passavam da porta das pequenas ourivesarias espalhadas pelo interior do Brasil –, muitos designers se tornaram assíduos de concursos mundo afora. Com freqüência, ficam entre os finalistas de competições patrocinadas pela indústria do ouro e das pedras preciosas. "Nosso design é abusado. Não temos uma tradição a seguir, então podemos ousar mais", analisa a designer Marga Premen, de Belo Horizonte, vencedora em 2000 do concurso da mineradora de diamantes De Beers. A multiplicação de concursos, além de estimular a criatividade dos joalheiros, tem o propósito de atiçar o desejo de consumo de jóias na população, em baixa desde que eletrônicos, canetas, bolsas e sapatos invadiram o universo dos objetos caríssimos que tanta gente sonha ter. "Ninguém mais acorda pensando em comprar um anel de ouro. Já um celular...", suspira Fernanda, a criadora da saia Volpi. O resultado dessa mudança nos padrões de consumo é que, se na década de 90 cerca de 80% de todo o ouro produzido no mundo virava jóia, hoje esse número gira em torno de 60%. "Promovendo concursos e premiando designs arrojados, queremos garantir que a demanda por ouro para jóias se mantenha", diz Roberto Carvalho Silva, diretor-presidente da AngloGold para a América do Sul. Se não funcionar no faturamento, pelo menos ajuda a sonhar.

 
 
 
 
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