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Líbia
Kadafi é bom
companheiro
O fim da
última das sanções
internacionais marca a volta do
ditador líbio ao mundo civilizado

José Eduardo
Barella
Fotos AP
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| O Jumbo da Pan Am que Kadafi mandou
explodir em 1988, na Escócia, e o ditador líbio atualmente:
de volta aos salões europeus |
Na segunda-feira,
a União Européia suspendeu o embargo à venda
de armas à Líbia, a última das sanções
internacionais significativas contra o país. Na sexta, o
"líder" (é esse seu título oficial) Muamar
Kadafi recebeu o primeiro-ministro alemão, Gerhard Schroeder.
Não foi o primeiro mandatário europeu a visitar a
tenda que lhe serve de palácio num trecho de deserto perto
de Trípoli, a capital líbia. Em março, o visitante
foi o primeiro-ministro inglês, Tony Blair. Silvio Berlusconi,
o primeiro-ministro da Itália, também esteve por lá
e há duas semanas inaugurou um gasoduto entre os dois
países que vai render 1 bilhão de dólares por
ano à Líbia. O próximo na fila para visitar
a Líbia é o presidente francês Jacques Chirac.
Até muito pouco tempo atrás, nenhum deles teria ousado
sequer trocar um telefonema com ele. A aceitação européia
de Kadafi como um bom companheiro é o mais surpreendente
caso de ressurreição desde Lázaro.
Há
dois meses, a Casa Branca suspendeu as sanções econômicas
que vigoravam desde 1986 e agora estuda reatar as relações
diplomáticas com Trípoli. É verdade que isso
não ocorreu de uma hora para outra. Nos últimos cinco
anos, Kadafi empenhou-se numa ofensiva sem precedentes para quem
tem as mãos sujas de sangue, com o objetivo de voltar ao
convívio do mundo civilizado. Nesse período, fez de
tudo para se livrar do triplo embargo que mantinha seu país
numa espécie de limbo. Além da União Européia,
havia sanções impostas pelos Estados Unidos e pelas
Nações Unidas. Foi entregando aos poucos as jóias
de sua intransigência. Primeiro os dois líbios acusados
pelo atentado que derrubou um Boeing da Pan Am sobre Lockerbie,
na Escócia, matando 270 pessoas em 1988 (o maior ataque terrorista
na Europa até as explosões nos trens de Madri, neste
ano), depois se pôs a pagar indenizações às
vítimas desse e de outros atentados terroristas cuja responsabilidade
lhe pesa no currículo. O recuo mais espetacular veio neste
ano. Assustado com a invasão americana do Iraque e temeroso
de que, depois de se livrar de Saddam Hussein, a Casa Branca fosse
atrás do velho desafeto líbio, Kadafi renunciou ao
terrorismo, às armas de destruição em massa
e ainda abriu as instalações nucleares de seu país
para inspeção internacional.
Estão
todos de acordo, na Europa e, com certa relutância nos Estados
Unidos, de que é melhor ter Kadafi como amigo do que mantê-lo
isolado. Como inimigo, ele dispõe de duas armas perigosas.
A primeira é o dinheiro proveniente do petróleo e
a disposição de gastá-lo em aventuras. A segunda
é um conjunto de idéias mais ou menos alucinadas,
das quais parece ter aberto mão, pelo menos oficialmente.
No tempo em que era o inimigo internacional número 1, ele
financiou todo tipo de terrorismo, do palestino, que é compreensível
para um dirigente árabe, até o separatismo europeu
do IRA irlandês e do ETA basco. Seu discurso com ênfase
no pan-arabismo, que já chegou a impressionar a vizinhança,
tem agora pouca ressonância. Seus antigos admiradores estão
mais propensos a ouvir Osama bin Laden. Por que Kadafi se cansou
de viver à margem da lei?
Quando
Kadafi tomou o poder, em 1969, o passado colonialista ainda estava
vivo na memória do norte da África e parecia possível
viver do petróleo e do apoio da União Soviética.
A queda do preço do petróleo nos anos 80, o fim da
União Soviética e as sanções econômicas
tiraram a pose do gabola Kadafi. Mas a melhor explicação
é a de que a maioria dos líbios está farta
do isolamento e da exclusão do mundo globalizado. Atropelado
pelas mudanças ocorridas no cenário internacional,
ele perdeu credibilidade pelo apoio indiscriminado a todo tipo de
terrorismo, mesmo entre os regimes mais ensandecidos. Restou-lhe
a decisão de capitular. Sem cargo oficial, ele é chamado
apenas de "o líder". Kadafi, aos 62 anos, não se ocupa
do cotidiano do governo, mas detém o poder de veto e controla
o serviço secreto. A nova geração de tecnocratas,
formada em universidades européias, o trata com a deferência
devida a um pai da pátria é possível
que, às escondidas, suspire pela hora em que ele desaparecerá
do horizonte, permitindo que a Líbia se torne um país
como qualquer outro.
A prioridade
de Kadafi agora é preparar a sucessão. Entre os sete
filhos, o preferido é Al-Saadi Kadafi, de 31 anos, misto
de jogador de futebol e cartola. Excêntrico como o pai, Al-Saadi
é conhecido por impor a própria convocação
à seleção líbia e pelas arruaças
que promove nas boates européias. Nos últimos dois
anos, Al Saadi se empenhou em comprar ações de times
europeus (tem participação no Juventus e é
dono do Triestina, da Itália) e em se firmar como a face
empreendedora do regime. O desejo de Kadafi é ampliar com
investimentos externos a produção de petróleo,
que rende 20 bilhões de dólares por ano. Não
são apenas os bons negócios que estão em jogo
na Líbia. Até a linha dura da Casa Branca sabe que
a reabilitação de Kadafi representa o maior troféu
da guerra contra o terror talvez o único triunfo da
estratégia do presidente George W. Bush de não poupar
ditadores envolvidos com o terrorismo.
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