Edição 1876 . 20 de outubro de 2004

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Líbia
Kadafi é bom companheiro

O fim da última das sanções
internacionais marca a volta do
ditador líbio ao mundo civilizado


José Eduardo Barella

 
Fotos AP
O Jumbo da Pan Am que Kadafi mandou explodir em 1988, na Escócia, e o ditador líbio atualmente: de volta aos salões europeus

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Em Profundidade: Terror Internacional

Na segunda-feira, a União Européia suspendeu o embargo à venda de armas à Líbia, a última das sanções internacionais significativas contra o país. Na sexta, o "líder" (é esse seu título oficial) Muamar Kadafi recebeu o primeiro-ministro alemão, Gerhard Schroeder. Não foi o primeiro mandatário europeu a visitar a tenda que lhe serve de palácio num trecho de deserto perto de Trípoli, a capital líbia. Em março, o visitante foi o primeiro-ministro inglês, Tony Blair. Silvio Berlusconi, o primeiro-ministro da Itália, também esteve por lá – e há duas semanas inaugurou um gasoduto entre os dois países que vai render 1 bilhão de dólares por ano à Líbia. O próximo na fila para visitar a Líbia é o presidente francês Jacques Chirac. Até muito pouco tempo atrás, nenhum deles teria ousado sequer trocar um telefonema com ele. A aceitação européia de Kadafi como um bom companheiro é o mais surpreendente caso de ressurreição desde Lázaro.

Há dois meses, a Casa Branca suspendeu as sanções econômicas que vigoravam desde 1986 e agora estuda reatar as relações diplomáticas com Trípoli. É verdade que isso não ocorreu de uma hora para outra. Nos últimos cinco anos, Kadafi empenhou-se numa ofensiva sem precedentes para quem tem as mãos sujas de sangue, com o objetivo de voltar ao convívio do mundo civilizado. Nesse período, fez de tudo para se livrar do triplo embargo que mantinha seu país numa espécie de limbo. Além da União Européia, havia sanções impostas pelos Estados Unidos e pelas Nações Unidas. Foi entregando aos poucos as jóias de sua intransigência. Primeiro os dois líbios acusados pelo atentado que derrubou um Boeing da Pan Am sobre Lockerbie, na Escócia, matando 270 pessoas em 1988 (o maior ataque terrorista na Europa até as explosões nos trens de Madri, neste ano), depois se pôs a pagar indenizações às vítimas desse e de outros atentados terroristas cuja responsabilidade lhe pesa no currículo. O recuo mais espetacular veio neste ano. Assustado com a invasão americana do Iraque e temeroso de que, depois de se livrar de Saddam Hussein, a Casa Branca fosse atrás do velho desafeto líbio, Kadafi renunciou ao terrorismo, às armas de destruição em massa e ainda abriu as instalações nucleares de seu país para inspeção internacional.

Estão todos de acordo, na Europa e, com certa relutância nos Estados Unidos, de que é melhor ter Kadafi como amigo do que mantê-lo isolado. Como inimigo, ele dispõe de duas armas perigosas. A primeira é o dinheiro proveniente do petróleo e a disposição de gastá-lo em aventuras. A segunda é um conjunto de idéias mais ou menos alucinadas, das quais parece ter aberto mão, pelo menos oficialmente. No tempo em que era o inimigo internacional número 1, ele financiou todo tipo de terrorismo, do palestino, que é compreensível para um dirigente árabe, até o separatismo europeu do IRA irlandês e do ETA basco. Seu discurso com ênfase no pan-arabismo, que já chegou a impressionar a vizinhança, tem agora pouca ressonância. Seus antigos admiradores estão mais propensos a ouvir Osama bin Laden. Por que Kadafi se cansou de viver à margem da lei?

Quando Kadafi tomou o poder, em 1969, o passado colonialista ainda estava vivo na memória do norte da África e parecia possível viver do petróleo e do apoio da União Soviética. A queda do preço do petróleo nos anos 80, o fim da União Soviética e as sanções econômicas tiraram a pose do gabola Kadafi. Mas a melhor explicação é a de que a maioria dos líbios está farta do isolamento e da exclusão do mundo globalizado. Atropelado pelas mudanças ocorridas no cenário internacional, ele perdeu credibilidade pelo apoio indiscriminado a todo tipo de terrorismo, mesmo entre os regimes mais ensandecidos. Restou-lhe a decisão de capitular. Sem cargo oficial, ele é chamado apenas de "o líder". Kadafi, aos 62 anos, não se ocupa do cotidiano do governo, mas detém o poder de veto e controla o serviço secreto. A nova geração de tecnocratas, formada em universidades européias, o trata com a deferência devida a um pai da pátria – é possível que, às escondidas, suspire pela hora em que ele desaparecerá do horizonte, permitindo que a Líbia se torne um país como qualquer outro.

A prioridade de Kadafi agora é preparar a sucessão. Entre os sete filhos, o preferido é Al-Saadi Kadafi, de 31 anos, misto de jogador de futebol e cartola. Excêntrico como o pai, Al-Saadi é conhecido por impor a própria convocação à seleção líbia e pelas arruaças que promove nas boates européias. Nos últimos dois anos, Al Saadi se empenhou em comprar ações de times europeus (tem participação no Juventus e é dono do Triestina, da Itália) e em se firmar como a face empreendedora do regime. O desejo de Kadafi é ampliar com investimentos externos a produção de petróleo, que rende 20 bilhões de dólares por ano. Não são apenas os bons negócios que estão em jogo na Líbia. Até a linha dura da Casa Branca sabe que a reabilitação de Kadafi representa o maior troféu da guerra contra o terror – talvez o único triunfo da estratégia do presidente George W. Bush de não poupar ditadores envolvidos com o terrorismo.

 
 
 
 
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