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Japão
O céu dos suicidas No Japão, tirar
a própria vida é um gesto até certo ponto aceito pela sociedade e estimulado
pela tradição  Ariel
Kostman
Na semana
passada, os corpos de sete jovens japoneses quatro homens e três
mulheres na faixa dos 20 anos foram encontrados numa caminhonete numa estrada
próxima a Tóquio. Os vidros do veículo estavam selados com
fita e, no chão, quatro fogareiros a carvão indicavam a causa da
morte: asfixia por monóxido de carbono. Logo depois, os policiais acharam
o corpo de outras duas mulheres num carro em outra província vizinha da
capital. As duas haviam se suicidado usando o mesmo método. No carro, um
bilhete: "Não se trata de assassinato. Nós planejamos isso". Embora
chocantes, os casos não surpreenderam a polícia. Apenas neste ano,
vinte japoneses entre 16 e 30 anos se suicidaram em circunstâncias semelhantes.
Todos os casos estão ligados a um hábito macabro que vem se disseminando
naquele país: o pacto de morte coletivo combinado pela internet. Em dezenas
de salas virtuais de bate-papo, candidatos ao suicídio trocam idéias
sobre os melhores locais e as maneiras mais rápidas e menos dolorosas de
tirar a própria vida. Muitos passam da conversa à ação.
Na maioria dos casos, as pessoas que se matam em grupo mantêm contato apenas
pelo computador e só se conhecem na hora em que se encontram para morrer.
Reuters
 | | Local
de um suicídio em Tóquio: combinado pela internet |
O
pacto de morte coletivo via internet é a manifestação mais
recente de um fenômeno que aflige a sociedade japonesa e impressiona o mundo:
a escalada do número de suicídios no país. Nesta década,
o número de suicidas tem crescido à razão de 10% ao ano.
Em 2003, 34.000 pessoas se mataram no Japão. É o maior índice
em relação à população (25 em cada 100.000
habitantes) entre os países desenvolvidos, mais que o dobro daquele verificado
nos Estados Unidos e seis vezes o brasileiro. Entre japoneses na faixa de 20 a
30 anos, o suicídio já é a principal causa de mortalidade.
Na origem dessa corrida para a morte combinam-se fatores culturais e reflexos
de treze anos consecutivos de estagnação econômica enfrentada
pelo Japão. Para começar, o suicídio é uma tradição
antiga no país. O ritual do hara-quiri era comum na classe guerreira do
período medieval. O samurai o utilizava quando não conseguia cumprir
uma missão designada por seu mestre. A forma mais popular de arte dramática
do Japão, o teatro kabuki, refere-se em muitas peças ao suicídio
dos samurais e também ao pacto de morte realizado entre amantes. No fim
da II Guerra, diante da derrota, militares japoneses se suicidaram para lavar
a honra da nação.
Esses rituais pertencem à história, mas a prática do suicídio
continua a ser encarada com certa tolerância pela sociedade japonesa, ao
contrário do que ocorre nas sociedades ocidentais. No budismo e no xintoísmo,
religiões predominantes no Japão, tirar a própria vida não
é pecado. Muitos vêem o gesto como uma forma aceitável, e
até valorizada, de resolver uma situação. Se a pessoa tem
uma dívida que não consegue pagar, considera-se que se matar é
uma saída honrosa. O fato de a cultura japonesa valorizar o grupo, e não
o indivíduo, também contribui para o alto número de suicídios
no país. "Os idosos que precisam de um tratamento médico muito caro,
ou que não podem pagar por um asilo, muitas vezes se matam para não
onerar a família, e ninguém se espanta com isso", comenta a psicóloga
Kyoko Nakagawa, japonesa radicada no Brasil. Também é comum que
pessoas em dificuldade financeira façam um seguro de vida e depois se matem,
garantindo assim o futuro da família. Há atualmente uma queda-de-braço
entre as companhias de seguro que operam no Japão e a Justiça. As
primeiras não querem mais pagar prêmios às famílias
de suicidas, mas a Suprema Corte japonesa decidiu que devem pagar, sim.
Outro fator que ajuda a explicar a alta incidência de suicídios no
Japão é a rigidez da sociedade, que imputa enorme importância
a valores como honra e vergonha. Como a sociedade é muito fechada, há
muitos casos de crianças e adolescentes vítimas de maus-tratos dos
colegas na escola que não conseguem expor seus problemas para os pais ou
professores e acabam se matando. "Muitos jovens estão também céticos
com relação ao futuro, depois de anos de crise econômica",
avalia o psiquiatra japonês Rika Kayama, que tem estudado o fenômeno
dos suicídios coletivos combinados pela internet.
AP
 | | Na
floresta existente na encosta do Monte Fuji, um dos locais preferidos pelos suicidas,
foram colocados cartazes com mensagens de incentivo à vida |
Nos
últimos anos, as autoridades japonesas vêm tomando medidas para desestimular
os suicídios. Muitos prédios em Tóquio foram reformados para
impedir o acesso fácil a amuradas que servem de trampolim. No metrô
de Tóquio, instalaram-se barreiras para evitar que pessoas pulem nos trilhos,
uma forma tão comum de suicídio que o governo cobra das famílias
das vítimas os estragos feitos nos trens e nas linhas. Também no
metrô foram colocados enormes espelhos que cobrem inteiramente as paredes
das plataformas, com a intenção de dissuadir os que planejam a própria
morte. Espera-se que, ao olhar o próprio rosto, os suicidas pensem duas
vezes e desistam de seu intento. Nada disso, porém, tem freado as estatísticas
que fazem do Japão o céu dos suicidas.
• Entre os
países ricos, o Japão tem a mais alta taxa de suicídios em
relação à população (25
por 100 000 habitantes). É o dobro da
dos Estados Unidos e seis vezes mais que a do Brasil
• 45% dos japoneses se suicidam
motivados por problemas de saúde e 25% por dificuldades econômicas
• Um manual com instruções para as diversas formas de suicídio
já vendeu 1,5 milhão de cópias no Japão desde
os anos 90 | |
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