Edição 1876 . 20 de outubro de 2004

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Japão
O céu dos suicidas

No Japão, tirar a própria vida é um
gesto até certo ponto aceito pela
sociedade e estimulado pela tradição


Ariel Kostman

Na semana passada, os corpos de sete jovens japoneses – quatro homens e três mulheres na faixa dos 20 anos – foram encontrados numa caminhonete numa estrada próxima a Tóquio. Os vidros do veículo estavam selados com fita e, no chão, quatro fogareiros a carvão indicavam a causa da morte: asfixia por monóxido de carbono. Logo depois, os policiais acharam o corpo de outras duas mulheres num carro em outra província vizinha da capital. As duas haviam se suicidado usando o mesmo método. No carro, um bilhete: "Não se trata de assassinato. Nós planejamos isso". Embora chocantes, os casos não surpreenderam a polícia. Apenas neste ano, vinte japoneses entre 16 e 30 anos se suicidaram em circunstâncias semelhantes. Todos os casos estão ligados a um hábito macabro que vem se disseminando naquele país: o pacto de morte coletivo combinado pela internet. Em dezenas de salas virtuais de bate-papo, candidatos ao suicídio trocam idéias sobre os melhores locais e as maneiras mais rápidas e menos dolorosas de tirar a própria vida. Muitos passam da conversa à ação. Na maioria dos casos, as pessoas que se matam em grupo mantêm contato apenas pelo computador e só se conhecem na hora em que se encontram para morrer.

Reuters
Local de um suicídio em Tóquio: combinado pela internet


O pacto de morte coletivo via internet é a manifestação mais recente de um fenômeno que aflige a sociedade japonesa e impressiona o mundo: a escalada do número de suicídios no país. Nesta década, o número de suicidas tem crescido à razão de 10% ao ano. Em 2003, 34.000 pessoas se mataram no Japão. É o maior índice em relação à população (25 em cada 100.000 habitantes) entre os países desenvolvidos, mais que o dobro daquele verificado nos Estados Unidos e seis vezes o brasileiro. Entre japoneses na faixa de 20 a 30 anos, o suicídio já é a principal causa de mortalidade. Na origem dessa corrida para a morte combinam-se fatores culturais e reflexos de treze anos consecutivos de estagnação econômica enfrentada pelo Japão. Para começar, o suicídio é uma tradição antiga no país. O ritual do hara-quiri era comum na classe guerreira do período medieval. O samurai o utilizava quando não conseguia cumprir uma missão designada por seu mestre. A forma mais popular de arte dramática do Japão, o teatro kabuki, refere-se em muitas peças ao suicídio dos samurais e também ao pacto de morte realizado entre amantes. No fim da II Guerra, diante da derrota, militares japoneses se suicidaram para lavar a honra da nação.

Esses rituais pertencem à história, mas a prática do suicídio continua a ser encarada com certa tolerância pela sociedade japonesa, ao contrário do que ocorre nas sociedades ocidentais. No budismo e no xintoísmo, religiões predominantes no Japão, tirar a própria vida não é pecado. Muitos vêem o gesto como uma forma aceitável, e até valorizada, de resolver uma situação. Se a pessoa tem uma dívida que não consegue pagar, considera-se que se matar é uma saída honrosa. O fato de a cultura japonesa valorizar o grupo, e não o indivíduo, também contribui para o alto número de suicídios no país. "Os idosos que precisam de um tratamento médico muito caro, ou que não podem pagar por um asilo, muitas vezes se matam para não onerar a família, e ninguém se espanta com isso", comenta a psicóloga Kyoko Nakagawa, japonesa radicada no Brasil. Também é comum que pessoas em dificuldade financeira façam um seguro de vida e depois se matem, garantindo assim o futuro da família. Há atualmente uma queda-de-braço entre as companhias de seguro que operam no Japão e a Justiça. As primeiras não querem mais pagar prêmios às famílias de suicidas, mas a Suprema Corte japonesa decidiu que devem pagar, sim.

Outro fator que ajuda a explicar a alta incidência de suicídios no Japão é a rigidez da sociedade, que imputa enorme importância a valores como honra e vergonha. Como a sociedade é muito fechada, há muitos casos de crianças e adolescentes vítimas de maus-tratos dos colegas na escola que não conseguem expor seus problemas para os pais ou professores e acabam se matando. "Muitos jovens estão também céticos com relação ao futuro, depois de anos de crise econômica", avalia o psiquiatra japonês Rika Kayama, que tem estudado o fenômeno dos suicídios coletivos combinados pela internet.

AP
Na floresta existente na encosta do Monte Fuji, um dos locais preferidos pelos suicidas, foram colocados cartazes com mensagens de incentivo à vida

Nos últimos anos, as autoridades japonesas vêm tomando medidas para desestimular os suicídios. Muitos prédios em Tóquio foram reformados para impedir o acesso fácil a amuradas que servem de trampolim. No metrô de Tóquio, instalaram-se barreiras para evitar que pessoas pulem nos trilhos, uma forma tão comum de suicídio que o governo cobra das famílias das vítimas os estragos feitos nos trens e nas linhas. Também no metrô foram colocados enormes espelhos que cobrem inteiramente as paredes das plataformas, com a intenção de dissuadir os que planejam a própria morte. Espera-se que, ao olhar o próprio rosto, os suicidas pensem duas vezes e desistam de seu intento. Nada disso, porém, tem freado as estatísticas que fazem do Japão o céu dos suicidas.

 

• Entre os países ricos, o Japão tem a mais alta taxa de suicídios em relação à população (25 por 100 000 habitantes). É o dobro da dos Estados Unidos e seis vezes mais que a do Brasil

45% dos japoneses se suicidam motivados por problemas de saúde e 25% por dificuldades econômicas  

• Um manual com instruções para as diversas formas de suicídio já vendeu 1,5 milhão de cópias no Japão desde os anos 90

 
 
 
 
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