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Sexo
O cientista que só
pensava naquilo
Alfred Kinsey desbravou o estudo
da sexualidade. Agora sua louca vida
íntima é que é alvo de pesquisa

Isabela Boscov
Quando o zoólogo Alfred C. Kinsey começou
a fazer do sexo uma ciência, em 1938, esse era um assunto
que podia, literalmente, dar cadeia: na maioria dos Estados americanos,
o sexo pré-marital ou extraconjugal, a homossexualidade e
o sexo oral (mesmo no casamento) eram crimes previstos em lei e
puníveis com prisão. Daí o furor com que o
Relatório Kinsey (como ficou conhecido o livro Comportamento
Sexual no Macho Humano) foi recebido, em 1948. A tese do cientista,
amparada em milhares de entrevistas com homens e mulheres de todas
as idades e camadas sociais, era a de que em matéria de sexo
não existe aberração ou desvio. Existe apenas
uma infinidade de práticas e preferências, que lei
nenhuma é capaz de banir dos quartos conjugais, dos bancos
traseiros dos automóveis ou de qualquer canto menos iluminado
que se preste à intimidade. Essa curiosidade inesgotável
sobre o sexo, defendia Kinsey, é simplesmente própria
do "animal humano" e está além da alçada da
moral. Toda a pesquisa que se seguiu à de Kinsey só
fez confirmar sua visão. Sobre o próprio autor, porém,
não há consenso: de gênio pioneiro da sexualidade
a um manipulador que usou a ciência para arregimentar parceiros
sexuais e concretizar seus fetiches, as opiniões sobre ele
abarcam hoje todas as cores do espectro. E, quase meio século
após sua morte, Kinsey está de novo na ordem do dia:
foi objeto de duas biografias recentes ambas cheias de revelações
, é o protagonista de um filme a ser lançado
em breve (Kinsey, com Liam Neeson no papel-título)
e também o tema de The Inner Circle, um curioso híbrido
de fato e ficção que chegou às livrarias americanas
no mês passado. Assinado por T. Coraghessan Boyle, um dos
grandes nomes da nova literatura americana, The Inner Circle
se vale de um narrador fictício o jovem e influenciável
John Milk, assistente direto do professor para pintar um
retrato polêmico de Kinsey: um cientista obcecado pela pureza
metodológica de seu trabalho, mas também um virtuose
da persuasão e um excêntrico, tanto nos assuntos do
dia-a-dia como nos noturnos.
AP
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| Shere Hite, cujo Relatório Hite foi
febre nos anos 70: trilhando o caminho aberto por Kinsey |
Todos os relatos concordam que Kinsey era uma figura carismática.
Sempre metido em camisas estalando de tão frescas, arrematadas
com gravatas-borboleta, parecia saído do banho fosse qual
fosse o clima ou a hora. Assim que entrava num recinto, monopolizava
as atenções. Não só por causa da cabeleira
eriçada, dos olhos azuis e do porte impecável (não
obstante os ombros estreitos, herança do raquitismo na infância):
Kinsey era um orador habilidoso e persuasivo, a quem ninguém
conseguia dizer não. Tinha ainda faro de predador para mentiras
ou hipocrisias, e adorava infligir sua independência sobre
seus muitos adversários. Uma de suas diversões prediletas
era se pôr seminu, de suporte atlético cor da pele,
para cuidar de seu magnífico jardim nas manhãs de
domingo bem no horário em que os cidadãos respeitáveis
da cidadezinha em que ficava seu campus da Universidade Indiana
se dirigiam à igreja. Kinsey detestava cigarros, álcool,
jogos e tudo o mais que pudesse ser interpretado como frivolidade
ou ataque à saúde, e era um sovina contumaz, que guardava
trapos para tecer tapetes. Ao almoço, alimentava-se exclusivamente
de água e de uma mistura de frutas secas, nozes e pedaços
de chocolate, que ele próprio elaborava e impingia a quem
dividisse a refeição com ele.
Os hábitos mais controvertidos de Kinsey,
porém, eram os particulares. Casado com Clara "Mac" McMillen
e pai de três filhos, aconselhava seus colaboradores a manter
a aparência de probidade, a fim de não colocar sua
pesquisa sob riscos desnecessários. Mas era francamente bissexual
e adepto da mais absoluta liberdade. Tomava seus assistentes como
amantes a exemplo do John Milk que narra The Inner Circle
, não se importava que sua mulher se relacionasse com
eles e encorajava-os a experimentar de tudo e mais um pouco. Seu
inegável traço voyeurístico se manifestava
não só nas entrevistas que conduzia com anônimos
para sua pesquisa reuniu 18.000
delas, compondo aquele que até hoje é o maior acervo
do gênero , mas acima de tudo na insistência com
que obrigava os integrantes de seu círculo íntimo
a contribuir com seu histórico sexual. Poucos anos depois
de iniciar as entrevistas (na verdade, questionários com
350 perguntas sobre os mínimos detalhes da experiência
sexual dos indivíduos), concluiu que elas eram insuficientes
como forma de verificação e passou a promover, digamos,
sessões práticas de estudo.
Se no campus de Indiana corriam rumores sobre
as peculiaridades do "Doutor Sexo", o zelo com que Kinsey protegeu
seu trabalho, aliado ao conservadorismo da época, evitou
que esses relatos chegassem ao público que dava a
ele tratamento de celebridade nacional. Só em anos mais recentes
essas preferências e suas possíveis origens vieram
à tona. Kinsey fora criado por um pai puritano, e crescera
torturado por seus sentimentos de culpa e vergonha por causa
da masturbação, da curiosidade nunca satisfeita e
das inclinações sadomasoquistas e homossexuais (estas,
segundo sua tese, existem em quase todos os indivíduos, numa
escala de 0 a 6). Foi virgem até se casar com Clara, e demorou
meses para consumar o casamento. Um sofrimento inútil, dizia
Kinsey daí ele ter se imposto a missão de tratar
a sexualidade como um campo da ciência, divorciando-a dos
ideais românticos e, principalmente, da moral.
O quanto as proclividades pessoais de Kinsey
comprometeram sua pesquisa é o que seus biógrafos
discutem hoje mas o placar vem dando vitória ao cientista.
Uma revisão de seus dados, na década de 70, mostrou
que nada do que ele publicou em seu primeiro relatório e
no ainda mais polêmico Comportamento Sexual na Fêmea
Humana, de 1953, precisa ser revogado. Como conquista social,
sua obra é ainda mais relevante: Kinsey ajudou a derrubar
os mitos sobre o prazer da mulher (que levariam seu tiro de misericórdia
com outro relatório famoso feito nos mesmos moldes, o da
feminista Shere Hite, nos anos 70), defendeu a contracepção,
provou que a masturbação é uma descoberta normal
do ser humano e não provoca cegueira nem pêlos nas
mãos, e contribuiu para tirar da homossexualidade a pecha
de doença. Ventilou, enfim, assuntos sobre os quais se guardava
silêncio ou que se reservavam, na melhor das hipóteses,
ao divã do psicanalista (Kinsey, aliás, detestava
Freud, que considerava um mistificador). Pego em cheio pela onda
moralista do macarthismo, Kinsey teve suas verbas cortadas e morreu
logo em seguida, em 1956, aos 62 anos, sem testemunhar a revolução
sexual da década seguinte, que ele indubitavelmente ajudou
a impulsionar. É fato que o professor de gravata-borboleta
era uma personalidade das mais coloridas, e que seu comportamento
no campus seria inaceitável pelos padrões acadêmicos
de hoje. Mas uma coisa não se pode negar: foi ele quem tirou
de vez o sexo do armário.
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