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Turismo Muito
suor e pouca fé As rotas de peregrinação
atraem um público secular e entram na mira da indústria do
turismo  José
Eduardo Barella AP
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do jubileu em Santiago de Compostela, em julho: shows de rock para atrair os turistas
não religiosos |
Santiago
de Compostela, no norte da Espanha, atrai há 1.000
anos uma das peregrinações mais tradicionais do catolicismo. Em
2004, os romeiros têm um atrativo adicional para percorrer uma das várias
rotas do Caminho de Santiago. Trata-se de um jubileu, ano santo comemorado quando
o dia do apóstolo Tiago (25 de julho) coincide com um domingo e
quem visita a Catedral de Santiago num jubileu é recompensado com a absolvição
de todos os pecados. Além dos esperados fiéis católicos,
milhares de turistas de outros credos estão invadindo a região da
Galícia neste ano para trilhar o místico caminho. O que ocorre em
Santiago de Compostela não é um fenômeno isolado ou restrito
ao catolicismo. As peregrinações a locais sagrados continuam atraindo
multidões como na Idade Média. A diferença se dá no
perfil dos romeiros, mais diversificado. "A devoção a uma crença
é apenas uma das razões que podem levar uma pessoa a participar
de uma peregrinação religiosa, às vezes nem isso", disse
a VEJA o americano Phil Cousineau, autor do livro A Arte da Peregrinação
e um estudioso do assunto. Uma
explicação para essa tendência está no declínio
das religiões tradicionais. O êxodo de fiéis não significa
que o homem moderno perdeu a religiosidade, apenas que ele está buscando
caminhos alternativos. Para muitos, participar de uma peregrinação
religiosa representa uma jornada íntima de renovação espiritual.
Outros são atraídos pelo ritual sagrado do evento. E há os
peregrinos não religiosos, interessados apenas em fazer um programa diferente.
Boa parte dos romeiros do Caminho de Santiago se encaixa neste último grupo
o que justifica o número de participantes ter aumentado em 1.000%
nos últimos quinze anos, período no qual a Igreja Católica
viu diminuir seu rebanho. A rota mais longa, de 870 quilômetros, por exemplo,
tornou-se um desafio para adeptos da caminhada ou do trekking. Além disso,
a região tem forte apelo turístico. Santiago de Compostela se firmou
neste ano como um dos pontos mais badalados do verão europeu, atraindo
um público jovem e normalmente avesso à tradição religiosa.
As ruas estreitas da cidade medieval fervilharam com shows das bandas de rock
Red Hot Chili Peppers e The Cure e de artistas como Lou Reed.
O escritor Paulo Coelho trilhou o caminho em 1986 e relatou a experiência
em O Diário de um Mago, seu primeiro livro. Ele não se mostra
surpreso com o aspecto secular que a romaria adquiriu. "A idéia da peregrinação
se assemelha à necessidade do ser humano de viajar sempre, de buscar a
aventura", disse o escritor a VEJA. "As rotas religiosas foram as únicas
que resistiram ao tempo, por isso são as mais utilizadas." Outro exemplo
está na Itália, país de tradição católica.
Durante séculos, fiéis da região da Lombardia demonstraram
sua devoção à Madonna del Ghisallo caminhando os 9 quilômetros
que separam a cidade de Bellagio da capela dedicada à santa situada
no alto de uma montanha. Quando o papa Pio XII nomeou a santa protetora dos ciclistas,
em 1949, uma nova leva de peregrinos passou a visitar o local. Hoje, pedalar o
trecho mais íngreme do percurso, de 757 metros, transformou-se em desafio
obrigatório para ciclistas de todas as religiões.
O crescente interesse pelo esoterismo ou pelas crenças orientais, como
o budismo, também ajuda a explicar a mudança de perfil do romeiro
moderno. Basta visitar os templos budistas da ilha de Shikoku, no Japão,
ou percorrer a trilha dos incas em Machu Picchu, no Peru, para deparar com levas
de estrangeiros em busca de uma experiência religiosa inovadora. A peregrinação
pelos locais onde Sidarta Gautama, o Buda, pregou há 2.500
anos é uma das atrações mais procuradas por turistas ocidentais
que viajam para a Índia e o Nepal. O pacote inclui visita a templos, monastérios
e aulas de meditação. De olho nesse mercado, grupos hoteleiros japoneses
estão investindo nos dois países. |