Edição 1875 . 13 de outubro de 2004

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Turismo
Muito suor e pouca fé

As rotas de peregrinação atraem
um público secular e entram na mira
da indústria do turismo


José Eduardo Barella

 
AP
Festa do jubileu em Santiago de Compostela, em julho: shows de rock para atrair os turistas não religiosos



NESTA REPORTAGEM
Quadro: Caminhos da moda

Santiago de Compostela, no norte da Espanha, atrai há 1.000 anos uma das peregrinações mais tradicionais do catolicismo. Em 2004, os romeiros têm um atrativo adicional para percorrer uma das várias rotas do Caminho de Santiago. Trata-se de um jubileu, ano santo comemorado quando o dia do apóstolo Tiago (25 de julho) coincide com um domingo – e quem visita a Catedral de Santiago num jubileu é recompensado com a absolvição de todos os pecados. Além dos esperados fiéis católicos, milhares de turistas de outros credos estão invadindo a região da Galícia neste ano para trilhar o místico caminho. O que ocorre em Santiago de Compostela não é um fenômeno isolado ou restrito ao catolicismo. As peregrinações a locais sagrados continuam atraindo multidões como na Idade Média. A diferença se dá no perfil dos romeiros, mais diversificado. "A devoção a uma crença é apenas uma das razões que podem levar uma pessoa a participar de uma peregrinação religiosa, às vezes nem isso", disse a VEJA o americano Phil Cousineau, autor do livro A Arte da Peregrinação e um estudioso do assunto.

Uma explicação para essa tendência está no declínio das religiões tradicionais. O êxodo de fiéis não significa que o homem moderno perdeu a religiosidade, apenas que ele está buscando caminhos alternativos. Para muitos, participar de uma peregrinação religiosa representa uma jornada íntima de renovação espiritual. Outros são atraídos pelo ritual sagrado do evento. E há os peregrinos não religiosos, interessados apenas em fazer um programa diferente. Boa parte dos romeiros do Caminho de Santiago se encaixa neste último grupo – o que justifica o número de participantes ter aumentado em 1.000% nos últimos quinze anos, período no qual a Igreja Católica viu diminuir seu rebanho. A rota mais longa, de 870 quilômetros, por exemplo, tornou-se um desafio para adeptos da caminhada ou do trekking. Além disso, a região tem forte apelo turístico. Santiago de Compostela se firmou neste ano como um dos pontos mais badalados do verão europeu, atraindo um público jovem e normalmente avesso à tradição religiosa. As ruas estreitas da cidade medieval fervilharam com shows das bandas de rock Red Hot Chili Peppers e The Cure e de artistas como Lou Reed.

O escritor Paulo Coelho trilhou o caminho em 1986 e relatou a experiência em O Diário de um Mago, seu primeiro livro. Ele não se mostra surpreso com o aspecto secular que a romaria adquiriu. "A idéia da peregrinação se assemelha à necessidade do ser humano de viajar sempre, de buscar a aventura", disse o escritor a VEJA. "As rotas religiosas foram as únicas que resistiram ao tempo, por isso são as mais utilizadas." Outro exemplo está na Itália, país de tradição católica. Durante séculos, fiéis da região da Lombardia demonstraram sua devoção à Madonna del Ghisallo caminhando os 9 quilômetros que separam a cidade de Bellagio da capela dedicada à santa – situada no alto de uma montanha. Quando o papa Pio XII nomeou a santa protetora dos ciclistas, em 1949, uma nova leva de peregrinos passou a visitar o local. Hoje, pedalar o trecho mais íngreme do percurso, de 757 metros, transformou-se em desafio obrigatório para ciclistas de todas as religiões.

O crescente interesse pelo esoterismo ou pelas crenças orientais, como o budismo, também ajuda a explicar a mudança de perfil do romeiro moderno. Basta visitar os templos budistas da ilha de Shikoku, no Japão, ou percorrer a trilha dos incas em Machu Picchu, no Peru, para deparar com levas de estrangeiros em busca de uma experiência religiosa inovadora. A peregrinação pelos locais onde Sidarta Gautama, o Buda, pregou há 2.500 anos é uma das atrações mais procuradas por turistas ocidentais que viajam para a Índia e o Nepal. O pacote inclui visita a templos, monastérios e aulas de meditação. De olho nesse mercado, grupos hoteleiros japoneses estão investindo nos dois países.

 
 
 
 
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