Edição 1876 . 20 de outubro de 2004

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Perfil
O caubói número 1

O brasileiro Adriano Moraes é bicampeão
de montaria de touros e ídolo nos rodeios
dos Estados Unidos


Gabriela Carelli


Adilson Silva/Foto Perigo
Moraes em Jaguariúna, uma das etapas da liga mundial: o segredo é "dançar" com o bicho

Quando ele sobe no lombo de um touro, a platéia fica eletrizada e explode em entusiasmo. Se o rodeio é no Brasil, ela grita: "Seguuura peão!". Nos últimos anos, porém, com cada vez mais freqüência, a saudação que se ouve é "Mou-rais! The Phenomenon!". É assim, chamando-o de "fenômeno", que os americanos se dirigem a Adriano Moraes, o vaqueiro que saiu de Matão, no interior do Estado de São Paulo, para se tornar um dos caubóis mais bem-sucedidos dos Estados Unidos e do mundo. Aos 34 anos, ele já foi duas vezes campeão da Professional Bull Riders (liga mundial de rodeios que concentra os 800 melhores montadores de touro). Além disso, detém o título de segundo caubói que mais acumulou prêmios em dinheiro em sua modalidade – 2 milhões de dólares e trinta carros. Para completar, figura no livro Guinness dos recordes como um dos três vaqueiros que conseguiram dominar dez touros numa mesma competição. No fim deste mês, Moraes talvez amplie consideravelmente sua glória. Até agora líder do campeonato mundial de montaria de touros de 2004, ele pode conseguir o título inédito de tricampeão do mundo se vencer o torneio de Las Vegas.


Divulgação
O ídolo fora da arena: as mulheres o chamam de "bonitão de Hollywood"


A montaria em touros é a mais perigosa das modalidades de um rodeio. O objetivo é permanecer oito segundos em cima de um animal que pesa mais de 1 tonelada, pula, sacode, rodopia, esperneia e tenta chifrar o intruso sem piedade. Poucos conseguem domar a fera. "Moraes tem uma técnica excepcional. Em vez de usar só a força, ele dança junto com o bicho", diz o americano Don Gay, ex-campeão mundial dessa especialidade. Por causa desse sucesso, nos rodeios, que costumam reunir em média 30.000 pessoas, o público costuma fazer filas para conseguir um autógrafo do peão e acorre a comprar as roupas e acessórios que levam sua marca e são postos à venda junto à porta de saída – ele ganha 15% sobre cada peça. Quase sempre de camisa preta, calça jeans, chapéu e botas de couro de elefante, que custam até 10.000 dólares o par, ele também costuma fazer sucesso com o público feminino. Entre as mulheres, por causa de sua pinta de galã, o moreno de traços finos e olhos esgazeados tem outro apelido: "Bonitão de Hollywood". Há quem viaje até Las Vegas só para ver a estátua de Adriano exposta no cassino Caesars Palace – um monumento de 4 metros de altura esculpido em bronze.

Moraes conquistou o mundo dos caubóis com talento e boa dose de perseverança. Ainda criança, trocou Matão por Quintana, também em São Paulo, onde seu pai foi trabalhar como administrador de fazenda. Lá, fazia de tudo: tirava leite de vaca, dirigia trator e colhia tomate. "Montava de farra, em bezerros", conta. Aos 16 anos, assistiu ao primeiro rodeio e decidiu arriscar. Participou de três deles sem grande sucesso. No quarto, conquistou o segundo lugar. "Oito segundos sobre o touro e faturei nove salários mínimos, nove vezes mais do que em um mês na fazenda", ele lembra. "Adorei a festa, as princesas ficaram atrás de mim... não tive dúvidas: decidi ser peão."

Sua primeira viagem à terra dos caubóis foi em 1992, por iniciativa própria. "Consegui patrocínio de um frigorífero para pagar as passagens. Queria ver de perto os peões americanos. Falavam que eles tinham até jatinho", conta. Em vez de glamour, ele encontrou uma outra realidade. "No Brasil, rodeio é festa, é bagunça. Nos Estados Unidos, é profissão. Fiquei três meses e trabalhei como nunca", recorda. Dois anos depois, Moraes recebeu um convite de um empresário americano. Não só conseguiu fama e dinheiro como abriu as portas para outros brasileiros que hoje fazem sucesso nos rodeios americanos. Entre eles está Ednei Caminhas, que já ganhou um campeonato mundial da liga Professional Bull Riders em 2002 e está entre os vinte primeiros colocados no torneio deste ano. Além de Caminhas, outros quatro brasileiros conseguiram entrar para a liga dos montadores profissionais.

Casado com Flávia e pai de quatro filhos, Moraes tem fama de ser cauteloso com o dinheiro que ganha. Depois do sucesso, comprou uma fazenda de 130 acres em Cachoeira Paulista, onde investe em gado. Mora numa casa em Keller, no Texas, onde tem um "quintalzinho de meio alqueire" com três cavalos. "Não há nada melhor que escovar meus bichos para passar o tempo ou sair para laçar na casa dos amigos nos dias de folga", diz. Ele também divide o tempo entre treinos, visitas à igreja (ele doa de 15% a 30% do que ganha a uma confissão católica) e tarefas domésticas. "Até lavo louça, mas não pago empregada doméstica de jeito nenhum. Elas aqui nos Estados Unidos saem muito caro", afirma o peão. Talvez ele mude de idéia se vencer em Las Vegas o campeonato de 2004, o que significará mais 1 milhão de dólares em sua conta bancária.

 

O reino de Adriano Moraes

O caubói brasileiro já ganhou 2 milhões de dólares e 30 carros como prêmio em rodeios nos Estados Unidos

Tem 16 produtos licenciados com seu nome (jaquetas, camisetas, bonecos etc.) e ganha 15% sobre a venda de cada um deles

Divulgação


De 15% a 30% de tudo o que ganha é doado à igreja carismática Canção Nova

Usa botas de couro de elefante da marca Lucchese, que custam até 10 000 dólares o par

 
 
 
 
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