Edição 1876 . 20 de outubro de 2004

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Arqueologia
O mundo sombrio
dos astecas

Exposição em Nova York
revela a riqueza e o mistério
de uma civilização perdida


Tania Menai, de Nova York


Fotos Michel Zabé, assistente Enrique Macías
MICTLANTECUHTLI,
o deus da morte: imagem encontrada nos alicerces da Grande Pirâmide. Pedaços de carne dos sacrificados eram colocados diante deste ídolo. Para sustentar os ciclos do Sol e da Lua, os astecas acreditavam ser preciso alimentar seus deuses com coração e sangue
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Depois de lotar museus em Londres, Berlim e Bonn, a exposição O Império Asteca foi inaugurada no museu Solomon R. Guggenheim, de Nova York, onde poderá ser visitada até fevereiro de 2005. Será montada pela última vez no Guggenheim de Bilbao, na Espanha, antes que as 440 peças voltem para museus mexicanos e americanos, dos quais muitas delas saíram pela primeira vez. O curador da mostra, o mexicano Felipe Solís Olguín, diretor do Museu Nacional de Antropologia do México, expôs os objetos – cerâmicas, imagens de pedra e barro, jóias de ouro, prata ornamentada com turquesa, máscaras enfeitadas com mosaico, instrumentos musicais, utensílios domésticos – em ordem cronológica, de modo que o visitante possa acompanhar a trajetória desse povo desde os primórdios de seu império, no século XIV, até a derrota diante dos conquistadores espanhóis, em 1521. O que atrai tantos visitantes não é apenas a beleza e o valor arqueológico dos objetos – mas, sobretudo, o fascínio e o mistério que envolvem as civilizações perdidas da América.


XIUHTECUHTLI, o deus do fogo:
periodicamente, todas as fogueiras eram apagadas na capital asteca e os sacerdotes reacendiam o fogo numa cerimônia simbólica. A fogueira era acesa sobre o peito de um prisioneiro nobre e alimentada com sua carne e ossos. Esse "fogo novo" era depois distribuído entre a população para uso na cozinha e na iluminação

Nesse aspecto, os astecas são especiais. No início do século XVI, eles eram o poder dominante no México central. A hegemonia estendia-se por 500 pequenos Estados, abrangendo mais de 5 milhões de pessoas numa área do tamanho do Estado de São Paulo. Era império tributário. Ou seja, os povos dominados podiam tocar a vida como sempre, desde que pagassem tributos em comida, escravos, ouro, tecidos e dezenas de outros itens necessários para sustentar Tenochtitlán, a capital asteca, cuja população ultrapassava 100.000 pessoas. Os primeiros espanhóis que viram a cidade em seu apogeu ficaram impressionados com a discrepância entre a elaborada sociedade e a sensibilidade estética do mundo asteca e a carnificina em larga escala de seus rituais. Se há uma atividade em que os astecas são notórios é o sacrifício humano. Uma estimativa feita pelos conquistadores é que em média eles matavam 20.000 pessoas por ano.

O GUERREIRO ÁGUIA
Os melhores combatentes astecas pertenciam às sociedades guerreiras. Águia e Jaguar eram as mais importantes. É possível que a imagem desse guerreiro com capacete que imita a cabeça de uma águia simbolize um deus. A guerra era o valor supremo da cultura asteca, e o objetivo do combate era demonstrar bravura e capturar um inimigo para ser sacrificado

Os sacrifícios não ocorriam no interior dos templos, mas ao ar livre, diante de todos, e não apenas na Grande Pirâmide (o Templo Mayor, como é agora conhecido), no centro de Tenochtitlán, mas também nas capelas de bairro e mesmo nas ruas. O método mais comum consistia em abrir o peito da vítima com uma faca de pedra e arrancar seu coração. A população envolvia-se no preparo das vítimas, ajudava a conduzi-las ao local do sacrifício e, depois, participava do processo de desmembramento do corpo e distribuição dos pedaços. A carne acabava na panela e era comida sem cerimônia pelas famílias. Em ocasiões solenes, os guerreiros saíam à rua com cabaças cheias de sangue e vestidos com a pele esfolada dos prisioneiros. Paralelamente a esses horrores, os astecas tinham uma agricultura sofisticada e produtiva, com sistemas de irrigação e jardins flutuantes nas áreas pantanosas. Herdeiros culturais de civilizações avançadas, possuíam um calendário preciso e uma matemática avançada.

A VIDA E A MORTE
Essa imagem de barro datada de 1300 representa um guerreiro passando pelas várias fases da morte, até sua ressurreição. Não se sabe se isso ocorre por ele ter sido morto em combate ou por ter sido sacrificado

A origem desse povo é incerta. O nome asteca deriva de Aztlán (terra branca), um local mitológico no norte de onde acreditam terem vindo. Chamavam a eles próprios de tenochca ou mexica – daí o nome do país, México. O certo é que se estabeleceram em ilhas do Lago Texcoco e, em 1325, fundaram Tenochtitlán, onde hoje é a Cidade do México. O valor supremo da vida asteca era a guerra, e o valor de cada um, medido pelo número de inimigos que capturou em combate e depois sacrificou aos deuses. Seu império era o resultado de uma aliança com cidades vizinhas, que falavam a mesma língua. A sociedade era estratificada. A nobreza administrava o império, recebia tributos, vestia-se com roupas de algodão e podia ostentar riqueza. A maioria da população fazia o trabalho braçal, só podia se vestir com fibras menos nobres e era proibida de exibir prosperidade.

Os espanhóis chegaram à cidade em 1519 e aprisionaram o imperador Montezuma II. Expulsos por uma revolta popular, voltaram reforçados por uma exército de 25.000 índios ansiosos por se vingar dos astecas. Tenochtitlán caiu em 1521, depois de quatro meses de cerco. Os espanhóis destruíram o Templo Mayor e ergueram uma cidade européia sobre as ruínas da cidade asteca. Os alicerces do Templo Mayor foram descobertos em 1978 na Cidade do México e, uma década depois, viraram museu. Algumas das peças mais surpreendentes da exposição O Império Asteca foram encontradas em escavações arqueológicas nas ruínas da pirâmide. Uma delas, achada há apenas uma década, é a imagem de 1,82 metro, feita de barro, de Mictlantecuhtli, o deus da morte. Datada de 1480, tem as costelas à mostra e furos na cabeça, pelos quais, os arqueólogos acreditam, passavam fios de cabelo retirados das vítimas de sacrifícios.

A obsessão asteca pela morte é evidente em muitas peças expostas. Uma das mais expressivas, quase uma reflexão filosófica sobre a precariedade da existência humana, revela o rosto de um guerreiro passando por três etapas de morte e ressurreição. Na parte externa, ele tem os olhos fechados e na mais interna está totalmente desperto. Estima-se que tenha sido moldada por volta de 1300. As últimas galerias da exposição mostram a época da conquista espanhola, liderada por Hernán Cortés (1485-1547), quando pinturas e objetos astecas passaram a retratar a influência européia, como imagens de Cristo e crucifixos. Em menos de 100 anos depois da conquista, a civilização indígena no México tinha sido varrida do mapa.

 
 
 
 
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