|
|
Arqueologia
O mundo sombrio
dos astecas
Exposição em Nova York
revela a riqueza e o mistério
de uma civilização perdida

Tania Menai, de Nova York
Fotos Michel Zabé, assistente
Enrique Macías
 |
MICTLANTECUHTLI,
o deus da morte: imagem encontrada nos alicerces da
Grande Pirâmide. Pedaços de carne dos sacrificados
eram colocados diante deste ídolo. Para sustentar os
ciclos do Sol e da Lua, os astecas acreditavam ser preciso alimentar
seus deuses com coração e sangue |
|
|
Depois de lotar museus em Londres, Berlim e Bonn, a exposição
O Império Asteca foi inaugurada no museu Solomon R.
Guggenheim, de Nova York, onde poderá ser visitada até
fevereiro de 2005. Será montada pela última vez no
Guggenheim de Bilbao, na Espanha, antes que as 440 peças
voltem para museus mexicanos e americanos, dos quais muitas delas
saíram pela primeira vez. O curador da mostra, o mexicano
Felipe Solís Olguín, diretor do Museu Nacional de
Antropologia do México, expôs os objetos cerâmicas,
imagens de pedra e barro, jóias de ouro, prata ornamentada
com turquesa, máscaras enfeitadas com mosaico, instrumentos
musicais, utensílios domésticos em ordem cronológica,
de modo que o visitante possa acompanhar a trajetória desse
povo desde os primórdios de seu império, no século
XIV, até a derrota diante dos conquistadores espanhóis,
em 1521. O que atrai tantos visitantes não é apenas
a beleza e o valor arqueológico dos objetos mas, sobretudo,
o fascínio e o mistério que envolvem as civilizações
perdidas da América.
 |
XIUHTECUHTLI,
o deus do fogo:
periodicamente, todas as fogueiras eram apagadas na capital
asteca e os sacerdotes reacendiam o fogo numa cerimônia
simbólica. A fogueira era acesa sobre o peito de um prisioneiro
nobre e alimentada com sua carne e ossos. Esse "fogo novo"
era depois distribuído entre a população
para uso na cozinha e na iluminação |
Nesse aspecto, os astecas são especiais.
No início do século XVI, eles eram o poder dominante
no México central. A hegemonia estendia-se por 500 pequenos
Estados, abrangendo mais de 5 milhões de pessoas numa área
do tamanho do Estado de São Paulo. Era império tributário.
Ou seja, os povos dominados podiam tocar a vida como sempre, desde
que pagassem tributos em comida, escravos, ouro, tecidos e dezenas
de outros itens necessários para sustentar Tenochtitlán,
a capital asteca, cuja população ultrapassava 100.000
pessoas. Os primeiros espanhóis que viram a cidade em seu
apogeu ficaram impressionados com a discrepância entre a elaborada
sociedade e a sensibilidade estética do mundo asteca e a
carnificina em larga escala de seus rituais. Se há uma atividade
em que os astecas são notórios é o sacrifício
humano. Uma estimativa feita pelos conquistadores é que em
média eles matavam 20.000 pessoas
por ano.
O GUERREIRO ÁGUIA
Os melhores combatentes astecas pertenciam às
sociedades guerreiras. Águia e Jaguar eram as mais importantes.
É possível que a imagem desse guerreiro com capacete
que imita a cabeça de uma águia simbolize um deus.
A guerra era o valor supremo da cultura asteca, e o objetivo
do combate era demonstrar bravura e capturar um inimigo para
ser sacrificado |
 |
Os sacrifícios não ocorriam no
interior dos templos, mas ao ar livre, diante de todos, e não
apenas na Grande Pirâmide (o Templo Mayor, como é agora
conhecido), no centro de Tenochtitlán, mas também
nas capelas de bairro e mesmo nas ruas. O método mais comum
consistia em abrir o peito da vítima com uma faca de pedra
e arrancar seu coração. A população
envolvia-se no preparo das vítimas, ajudava a conduzi-las
ao local do sacrifício e, depois, participava do processo
de desmembramento do corpo e distribuição dos pedaços.
A carne acabava na panela e era comida sem cerimônia pelas
famílias. Em ocasiões solenes, os guerreiros saíam
à rua com cabaças cheias de sangue e vestidos com
a pele esfolada dos prisioneiros. Paralelamente a esses horrores,
os astecas tinham uma agricultura sofisticada e produtiva, com sistemas
de irrigação e jardins flutuantes nas áreas
pantanosas. Herdeiros culturais de civilizações avançadas,
possuíam um calendário preciso e uma matemática
avançada.
 |
A VIDA E A MORTE
Essa imagem de barro datada de 1300 representa um guerreiro
passando pelas várias fases da morte, até sua
ressurreição. Não se sabe se isso ocorre
por ele ter sido morto em combate ou por ter sido sacrificado
|
A origem desse povo é incerta. O nome
asteca deriva de Aztlán (terra branca), um local mitológico
no norte de onde acreditam terem vindo. Chamavam a eles próprios
de tenochca ou mexica daí o nome do país, México.
O certo é que se estabeleceram em ilhas do Lago Texcoco e,
em 1325, fundaram Tenochtitlán, onde hoje é a Cidade
do México. O valor supremo da vida asteca era a guerra, e
o valor de cada um, medido pelo número de inimigos que capturou
em combate e depois sacrificou aos deuses. Seu império era
o resultado de uma aliança com cidades vizinhas, que falavam
a mesma língua. A sociedade era estratificada. A nobreza
administrava o império, recebia tributos, vestia-se com roupas
de algodão e podia ostentar riqueza. A maioria da população
fazia o trabalho braçal, só podia se vestir com fibras
menos nobres e era proibida de exibir prosperidade.
Os espanhóis chegaram à cidade
em 1519 e aprisionaram o imperador Montezuma II. Expulsos por uma
revolta popular, voltaram reforçados por uma exército
de 25.000 índios ansiosos por
se vingar dos astecas. Tenochtitlán caiu em 1521, depois
de quatro meses de cerco. Os espanhóis destruíram
o Templo Mayor e ergueram uma cidade européia sobre as ruínas
da cidade asteca. Os alicerces do Templo Mayor foram descobertos
em 1978 na Cidade do México e, uma década depois,
viraram museu. Algumas das peças mais surpreendentes da exposição
O Império Asteca foram encontradas em escavações
arqueológicas nas ruínas da pirâmide. Uma delas,
achada há apenas uma década, é a imagem de
1,82 metro, feita de barro, de Mictlantecuhtli, o deus da morte.
Datada de 1480, tem as costelas à mostra e furos na cabeça,
pelos quais, os arqueólogos acreditam, passavam fios de cabelo
retirados das vítimas de sacrifícios.
A obsessão asteca pela morte é
evidente em muitas peças expostas. Uma das mais expressivas,
quase uma reflexão filosófica sobre a precariedade
da existência humana, revela o rosto de um guerreiro passando
por três etapas de morte e ressurreição. Na
parte externa, ele tem os olhos fechados e na mais interna está
totalmente desperto. Estima-se que tenha sido moldada por volta
de 1300. As últimas galerias da exposição mostram
a época da conquista espanhola, liderada por Hernán
Cortés (1485-1547), quando pinturas e objetos astecas passaram
a retratar a influência européia, como imagens de Cristo
e crucifixos. Em menos de 100 anos depois da conquista, a civilização
indígena no México tinha sido varrida do mapa.
|