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Medicina Coração
valente Washington
é o atual artilheiro do Campeonato Brasileiro. Mas sua maior proeza
é jogar com três stents no peito
 André
Rizek Rodolfo
Buhrer/AE
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no peito, o gesto de comemoração do jogador: 25 gols |
O
jogador Washington Stecanela Cerqueira, 29 anos, centroavante do Atlético
Paranaense, comemora seus gols batendo a mão no lado esquerdo do peito.
O gesto que ele repetiu 25 vezes até agora no Campeonato Brasileiro
não é gratuito. Em 1996, quando jogava no Caxias, no Rio
Grande do Sul, Washington descobriu que sofria de diabetes, um dos principais
fatores de risco para distúrbios cardíacos. Seis anos mais tarde,
um exame de rotina detectou a obstrução quase total de uma das artérias
do seu coração. Diante do diagnóstico, os médicos
lhe deram um veredicto arrasador: aos 27 anos, sua carreira como atleta estava
encerrada. E pior: ele poderia sofrer um infarto a qualquer momento.
Na época, Washington jogava na Turquia, contratado pelo Fenerbahce. Uma
angioplastia realizada em Istambul implantou-lhe um stent no coração
e salvou sua vida mas não seu contrato. O clube turco deu o caso
como perdido e simplesmente deixou de pagar-lhe o salário. Washington voltou
ao Brasil e, disposto a tudo para poder voltar a jogar, firmou um acordo com o
Atlético Paranaense: treinaria seis meses sem receber salário e,
durante esse período, se submeteria a uma bateria de testes a ser analisada
por uma junta de cardiologistas. O parecer dos especialistas definiria se ele
seria ou não contratado. Os primeiros resultados foram desoladores: seis
meses depois da angioplastia, não só a artéria que havia
recebido o stent estava de novo quase obstruída como um outro vaso cardíaco
agora apresentava o mesmo problema. "Washington teve uma crise de choro. E nós,
médicos, choramos com ele", diz o cardiologista do atleta, Constantino
Constantini. A única chance do jogador, concordavam os especialistas, estava
na implantação de novos stents, dessa vez recobertos com uma substância
chamada rapamicina. AP
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morte em campo do húngaro Miklos Feher, do Benfica: ocorrência não tão incomum |
O stent é uma estrutura metálica minúscula (os que Washington
recebeu têm 14 milímetros de comprimento por 4 de diâmetro).
Ele é implantado na artéria coronária obstruída por
intermédio de um cateter, introduzido pela virilha do paciente. Sua função
é dilatar a artéria, segurando a placa gordurosa contra suas paredes,
para que o sangue volte a circular sem empecilhos. Desenvolvida há dez
anos, a técnica de desobstrução arterial com stent logo mostrou
um problema: observou-se que em 20% dos pacientes, depois de seis meses, as artérias
que haviam recebido um stent voltavam a se obstruir, por causa de um processo
de cicatrização mais intenso, comparável ao da formação
de quelóides na pele. A grande revolução nesse tipo de procedimento
se deu menos de cinco anos atrás. A "molinha" do stent foi recoberta por
rapamicina. Desenvolvido inicialmente para ser um antibiótico, o composto
é liberado aos poucos no organismo e se mostrou bastante eficaz contra
a formação de novos entupimentos. Graças à rapamicina,
as taxas de reobstrução arterial foram reduzidas a menos de 5% dos
casos. Dois stents com essa substância foram colocados no coração
de Washington em julho de 2003. Depois de uma infinidade de testes, ele foi finalmente
liberado para jogar. Antes, teve de assinar um termo de compromisso em que afirmava
ter ciência dos riscos que corria, entre os quais o de ter morte súbita
em campo uma ocorrência não tão incomum. Em 2003, o
camaronês Marc-Vivien Foe caiu fulminado por um infarto durante a Copa das
Confederações. Neste ano, em Portugal, aconteceu o mesmo com o húngaro
Miklos Feher, do Benfica.
A volta de Washington aos gramados ocorreu em fevereiro último, contra
o Paraná e, ao menos para os dirigentes do Atlético Paranaense,
não foi exatamente um momento de descontração. Além
do cardiologista Constantini e de dois médicos do time, munidos de um desfibrilador,
o clube colocou em campo um especialista em procedimentos de entubação
e reanimação disfarçado de repórter. A idéia
era estar preparado para o pior, mas sem apavorar o jogador. Na estréia,
Washington fez o gol da vitória e não parou mais de marcar. Hoje,
é o artilheiro do campeonato nacional. Com 1,89 metro e 88 quilos, ele
é considerado um "centroavante trombador", para usar o jargão futebolístico.
Com média de 0,92 gol por partida, tem chance de bater o recorde de gols
marcados num Campeonato Brasileiro. A marca pertence ao centroavante Dimba, com
31 gols. Por obrigação contratual, Washington submete-se a exames
periódicos. Em dezembro, quando vence o seu contrato com o Atlético
Paranaense, deverá fazer um cateterismo que atestará se está
apto para continuar jogando no ano que vem. Ele aposta que estará. E, valente,
afirma: "Ainda vou jogar de novo na Europa". |