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Especial Barricada
nunca mais O
Rio de Janeiro merece
futuro melhor do que ser território livre para a bandidagem
 Ronaldo
França Custódio
Coimbra/Ag. O Globo
 | UMA
CIDADE CERCADA Favela à vista do Aterro do Flamengo
e a força do tráfico em Vigário Geral | Domingos
Peixoto/Ag. O Globo
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Ah,
se o presente e o futuro do Rio de Janeiro fossem um décimo daquele cenário
grandioso sonhado no passado por seus administradores e moradores ilustres!
Capital do país durante 200 anos, a cidade nasceu predestinada, também
pela natureza, a um futuro glorioso. Instalada em uma paisagem deslumbrante, ainda
mereceu correções de rumos urbanos feitas por seus governantes.
O imperador dom Pedro II replantou a Floresta da Tijuca, uma das maiores áreas
verdes artificiais do mundo em zona urbana. Mais recentemente, o governador Carlos
Lacerda construiu, na década de 60, o Aterro do Flamengo, um colosso paisagístico.
Negrão de Lima, também governador, remodelou a orla de Copacabana,
cartão-postal do Brasil. Tudo isso até o início da década
de 70. As obras continuam de pé, mas o Rio dos sonhos virou uma cidade
de pesadelo.
Na semana passada, o diário The Independent, um dos jornais de maior
prestígio do Reino Unido, publicou extensa reportagem na qual descreve
o Rio como "a cidade da cocaína e da carnificina". O jornal fez um relato
da guerra do tráfico de drogas, com disputas entre facções
criminosas, e comparou a violência da cidade à de zonas conflagradas,
como a Chechênia e o Sudão. Obviamente, o jornalista inglês,
autor da reportagem, não se perguntou por que o futuro glorioso a que o
Rio parecia predestinado foi roubado. Os brasileiros, e os cariocas em especial,
não podem deixar de se fazer essa pergunta.
A resposta está em cenas como a da foto acima, feita há duas semanas.
Traficantes da favela de Vigário Geral, na Zona Norte da cidade, instalaram
uma barricada, composta de manilhas de esgoto e lixeiras, a título de impedir
a passagem de um grupo rival que acabara de ser expulso, numa guerra pelo controle
da venda de drogas na favela. Ninguém discute a logística da operação
de guerra dos traficantes. Mas seu absurdo terrível passa despercebido.
Em nenhuma cidade do mundo civilizado um grupo de malfeitores ergue barricadas,
seja qual for seu propósito, e tudo fica por isso mesmo. A barricada de
Vigário Geral é o símbolo da hora de como as favelas se tornaram
territórios de opressão de uma minoria armada sobre uma maioria
de pessoas pobres e honestas. Os bandidos trabalham sob a proteção
dos escudos humanos em que transformam os favelados.
O
problema aumenta a cada dia. As favelas cariocas não param de crescer.
Com elas cresce o poder territorial e de fogo do tráfico de drogas. A cidade
tem hoje 700 favelas que se derramam por suas encostas. Na década de 60,
moravam em favelas 335.000 pessoas. Isso correspondia a 10% dos cariocas. Atualmente,
o número chega a 1,1 milhão de habitantes. Nada menos do que 18,7%
da população da cidade. Por que isso acontece sem que nenhuma providência
seja tomada? A resposta deve ser procurada no fato de que, durante os últimos
33 anos, o Rio de Janeiro foi comandado por políticos populistas dependentes
do voto dos miseráveis subjugados pela elite do tráfico. Para esses
políticos, as favelas não são um problema. São uma
solução eleitoral.
No Rio cumpriu-se à risca a sentença que o ex-primeiro-ministro
espanhol Felipe González baixou sobre essa estirpe de políticos:
"Os populistas gostam tanto dos pobres que tudo o que fazem é multiplicá-los".
Na década passada, enquanto a taxa de crescimento populacional da cidade
foi de 0,74% ao ano, a população favelada cresceu três vezes
mais, ao ritmo de 2,2% ao ano. Diz Sérgio Besserman, economista e cientista
social, ex-presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE): "É uma ameaça ao estado de direito democrático o
fato de neste momento existir no Rio 1 milhão de pessoas sob o jugo de
bandos armados". Quando Carlos Lacerda iniciou, em 1961, um ambicioso plano de
remoção de favelas, era possível pensar em uma solução
de reassentamento. Hoje não é mais. "A dificuldade maior é
trabalhar com a escala em que o problema se apresenta", afirma Alfredo Sirkis,
secretário municipal de Urbanismo do Rio de Janeiro.
Em Nova York, problema semelhante à desordem carioca foi resolvido sem
remoções em massa. Solucionou-se com doses maciças de realismo
e munição contra bandidos. Nos bairros do Bronx e partes do Harlem,
durante décadas, as lideranças negras não deixaram a prefeitura
instalar postes de luz nem fazer melhorias urbanas. Iluminação era
uma melhoria urbana que favoreceria a maioria, mas ela foi boicotada porque atrapalhava
os negócios dos bandidos. Nos anos 90, a política de tolerância
zero do prefeito republicano Rudolph Giuliani promoveu um meticuloso trabalho
de limpeza, um quarteirão após o outro, até que a cidade
recobrou o poder sobre os bairros dominados pela bandidagem.
 | IMAGEM
INTERNACIONAL Na reportagem do
Independent, a pecha da cidade: drogas e dezenas de assassinatos por semana
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As tentativas de impor a ordem por meio de ações disciplinadoras
e policiais, no Rio, acabam fracassando. Na contabilidade das capitais mais violentas
do Brasil, o Rio aparece atrás de cidades como Vitória e Recife,
segundo dados da Unesco, que computa o número de homicídios por
100.000 habitantes. O Rio não é, por tal padrão, a cidade
mais insegura. Mas é, de longe, o lugar do país onde os bandidos
se sentem mais à vontade para fazer o que querem. "Um dos diferenciais
do Rio é a magnitude da corrupção policial", diz o sociólogo
Ignacio Cano, um dos autores do livro Quem Vigia os Vigias. Em seu trabalho,
Cano comparou dados das ouvidorias de cinco Estados brasileiros: Rio de Janeiro,
Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais e Pará. O Rio desponta
com a maior incidência de denúncias de corrupção policial.
Uma em cada três reclamações anônimas que chegam aos
telefones da ouvidoria relata atos de corrupção policial. Em São
Paulo, onde se registra a segunda maior média, isso ocorre em uma a cada
oito ligações. A inaceitável infiltração dos
bandidos na corporação policial manifestou-se de forma inequívoca
na semana passada. A polícia carioca fez uma operação de
busca ao bandido mais procurado do Estado, o traficante de drogas Irapuan David
Lopes, o "Gangan". O bandido foi morto. As próprias autoridades reconheceram
que a operação só pôde ser realizada cercada de sigilo
adicional. A razão: o traficante pagava por proteção policial.
A ação contra Gangan reproduziu em nível estadual as iniciativas
que estão ajudando a mudar para melhor a Polícia Federal. Sua marca
registrada é agir em silêncio contra bandidos e policiais corruptos,
surpreendendo a ambos. Se operações como aquela se multiplicarem,
talvez o Rio de Janeiro possa voltar a sonhar com o futuro grandioso que o populismo
lhe roubou. |