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Diogo
Mainardi Entre Bush e Kerry,
contra o PT
"Depois
de acompanhar os debates eleitorais americanos, continuo meio embananado.Ainda não
decidi por quem
torcer. Não é como nas eleições brasileiras. Aqui
a escolha é obrigatória: devemos torcer contra os petistas,
que querem tomar conta de tudo"
O melhor dos debates eleitorais americanos foi aquele aparelhinho semelhante a
um semáforo que ditava o tempo das respostas. Os candidatos dispunham de
apenas dois minutos para responder às perguntas, e de um e meio para replicar.
Quando faltavam trinta segundos para o tempo terminar, uma luz verde se acendia.
Quando faltavam quinze, uma luz amarela. Quando faltavam cinco, uma luz vermelha.
A partir de então, a luz vermelha começava a piscar e o candidato
era interrompido por uma campainha. Os americanos dominam o mundo porque sabem
que não há um único argumento que não possa ser exaurido
em, no máximo, dois minutos. Do derretimento da calota polar à metempsicose
em Platão. Todas as pessoas deveriam levar um semáforo igual àquele
pendurado no pescoço. A vida em sociedade seria imensamente facilitada.
Depois
de acompanhar atentamente todos os debates eleitorais americanos, continuo meio
embananado. Ainda não consegui decidir por quem torcer. Não é
como nas eleições brasileiras. Aqui a escolha é obrigatória:
devemos torcer contra os petistas, que querem tomar conta de tudo. Nos Estados
Unidos é mais complicado. Aborto e pesquisas com células-tronco
embrionárias? Pontos para John Kerry. Afeganistão e cortes de impostos?
Pontos para George Bush.
A questão fundamental da campanha é a guerra no Iraque. Eu só
torceria por um candidato que se comprometesse solenemente a mandar mais soldados
para lá. Bush não pode fazer isso. Significaria admitir o que ele
sempre se recusou a admitir: que, desde o começo, a ação
foi pessimamente planejada. Kerry é melhor. Pelo menos ele reconhece o
problema. Em todas as ocasiões, acusa Bush de ter ignorado os conselhos
de seus comandantes militares, que alertavam para a necessidade de duplicar ou
triplicar o número de soldados invasores. O caso mais citado é o
do general Eric Shinseki, que foi posto de lado pelos republicanos por ter declarado
que a ocupação do país requereria 100.000 ou 200.000 homens
a mais.
Só que não dá para confiar em Kerry. Ele é confuso
demais. Por um lado, denuncia a falta de tropas no Iraque. Por outro, não
está disposto a contrariar o eleitorado pacifista e defender o deslocamento
de mais soldados americanos para a frente de batalha. Bush ridicularizou a única
proposta de Kerry nesse sentido: a promessa de tentar convencer os aliados europeus
a reforçar seus contingentes. Franceses e alemães não ajudarão
os americanos a sair da enrascada em que se meteram. Se os Estados Unidos pretendem
garantir a transição política no Iraque, e impedir que o
país entre numa guerra civil, precisam se mexer sozinhos, confiando apenas
em suas próprias forças. O futuro dos iraquianos depende da disponibilidade
do próximo presidente americano de mandar mais combatentes para o sacrifício.
Como nem Bush nem Kerry parecem propensos a enfrentar o desgaste de uma decisão
tão impopular, fico sem saber por quem torcer.
É tudo o que eu posso dizer sobre
o assunto. A campainha do meu semáforo acaba de disparar. |