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Livros
A América kafkiana
O primeiro romance de Kafka
sempre foi tido como otimista.
Mas pode não ser bem assim

Antonio Gonçalves Filho
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Traduzir
Franz Kafka (1883-1924) é um desafio para poucos mas
o Brasil está bem servido nesse quesito. Há anos o
crítico Modesto Carone verte meticulosamente para o português
a obra do escritor checo, que escrevia em alemão e é
um dos pilares da literatura do século XX. Debruçando-se
sobre um título que Carone ainda não traduziu, a professora
de literatura Susana Kampff Lages também resolveu enfrentar
a missão, e oferece agora aos leitores uma nova versão
do primeiro romance que Kafka tentou escrever, e que deixou inacabado:
O Desaparecido ou Amerika (Editora 34;
303 páginas; 43 reais). Condenado pelo autor antes da morte,
esse texto fragmentado foi salvo da fogueira por seu amigo Max Brod,
que o lançou em 1927. Vinte anos atrás, as interferências
de Brod sobre o texto foram revistas numa importante edição
crítica, que acabou por recuperar passagens excluídas
ou ignoradas. Em sua tradução, Susana Kampff Lages
não só usou essa edição recente como
ainda a cotejou com as "sujeiras" do manuscrito os rabiscos
e correções de Kafka. Oferece, desse modo, uma versão
remontada do livro em português.
A tradutora brasileira discorda em muitos pontos de Max Brod e sua
edição de O Desaparecido. A começar
pela idade do protagonista que teria 17 anos, e não
16. Há outros detalhes. Kafka escreve "schmerzhaft" (doloroso),
mas Max Brod editou o texto como "scherzhaft" (brincalhão).
Erro de revisão? Pouco provável. A tradutora prefere
o primeiro adjetivo e tem razão ao resgatar trechos suprimidos
por Brod, principalmente diálogos travados no apartamento
(ou bordel) da personagem Brunelda. Brod, além disso, trocou
a ordem dos fragmentos legados por Kafka de forma arbitrária,
conduzindo a história a um fecho inexistente. Seguindo a
observação do escritor argentino Jorge Luis Borges,
de que o traço mais característico da literatura de
Kafka seria a inconclusão, Susana optou por não fugir
dela e, assim, ressaltou o caráter protocubista de
O Desaparecido. Como Picasso, criador do cubismo na pintura,
Kafka parece ter concluído que a fragmentação
do mundo moderno não permite ver o homem de um único
ponto de vista.
O jovem europeu Karl Rossmann, em sua jornada descendente pelos
EUA, conhece o desemprego e a humilhação entre homens
pouco dispostos a tolerar diferenças. Rejeitado por seus
pais por ter engravidado uma empregada, ele é obrigado a
atravessar o oceano e começar outra vida na América.
Sofre mais que o Cândido de Voltaire. Sua primeira impressão
sobre a Estátua da Liberdade é sintomática:
ela seguraria uma espada no lugar da fulgurante tocha. Kafka jamais
pisou na América. Essa troca pode ser ou não um tropeço
involuntário, provocado por relatos de viagem que o conduziram
a erros e a uma geografia tortuosa (Kafka confunde Costa Leste com
Oeste). De qualquer forma, a espada é uma imagem de amarga
desconfiança da América como oásis da liberdade.
A prova vem logo nas páginas seguintes.
Dois meses após desembarcar, Karl conclui que entrou num
teatro sem saída de emergência, o do mundo americano.
Os primeiros conhecidos do garoto um francês pouco
honesto e um irlandês bêbado também são
desocupados europeus vagando pelo continente americano. Reencontram-se
depois que Jakob, o tio senador do herói, o expulsa de sua
casa burguesa, obrigando-o a trabalhar como ascensorista num hotel,
do qual será igualmente chutado até virar criado de
uma prostituta. Como em O Processo, Karl é julgado
e conhece a inutilidade da defesa diante de seus algozes. Degradado
e vítima de armadilhas ainda mais sórdidas, busca
uma saída numa verdadeira companhia teatral, desaparecendo
na paisagem americana. O livro de Kafka é uma parábola
sobre os massacrados pela competição no mundo moderno,
mas tem momentos de excelente humor. Na edição mais
conhecida da obra, o final inconcluso deixa entrever alguma esperança.
Nesta tradução, já não é bem
assim.
| O
braço com a espada |
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"Quando
Karl Rossmann, um jovem de dezessete anos que fora mandado
para a América por seus pobres pais, porque uma
empregada o seduzira e tivera um filho seu, entrou no
porto de Novayork a bordo do navio que já diminuía
sua marcha, avistou a estátua da deusa da liberdade,
que há muito vinha observando, como que banhada
por uma luz de sol que subitamente tivesse se tornado
mais intensa. O braço com a espada erguia-se
como se tivesse recém se elevado, e em torno
à sua figura sopravam os ares livres. "Tão
alta!", disse consigo, e, como nem pensasse em sair
dali, ia sendo lentamente empurrado até a borda
do navio pela multidão cada vez mais numerosa
dos carregadores que desfilavam diante dele. Um jovem
a quem conhecera superficialmente durante a viagem disse-lhe
ao passar:
Então, ainda não está com
vontade de desembarcar?
Estou pronto, sim! disse Karl, sorriu
para ele e ergueu a mala sobre o ombro por entusiasmo
e porque era um jovem robusto."
Trecho
de O Desaparecido ou Amerika
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