Edição 1816 . 20 de agosto de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Cinema
O muso de Guel

Lisbela só funciona por
causa de Selton Mello


Isabela Boscov

 
Divulgação
Selton, como o vigarista Leléu: seduzindo a mocinha e o público

É difícil pensar em outro ator jovem, de qualquer latitude, que tenha tanto talento quanto Selton Mello. Mello tem um timing cômico impecável, sensibilidade e discrição para os momentos dramáticos, simpatia irresistível e, caso raro na sua geração, grande domínio do uso de sua voz. Ele segura qualquer onda – como se pôde conferir em O Auto da Compadecida, em que dividia por igual os méritos com Matheus Nachtergaele, e em Caramuru – A Invenção do Brasil. É o caso de pensar o que seria de Lisbela e o Prisioneiro (Brasil, 2003), o terceiro filme que o ator faz com o diretor Guel Arraes, sem ele. Ou, indo mais além, o que seria do cinema de Arraes em geral sem um intérprete tão apto a traduzir e enriquecer o seu estilo. No filme que estréia nesta sexta-feira no país, Lisbela (Débora Falabella) é uma jovem sonhadora que todos os dias vai ao cinema em companhia do noivo metido e ignorante ver velhos seriados de romance e aventura. Lisbela conhece todas as regras desse gênero de ficção – o que gosta é de ver como serão aplicadas em cada novo episódio. À medida que ela vai explicando essas convenções para o noivo, vê-se que elas servem de guia também para entender os caminhos que vai tomar a sua paixão por Leléu (Mello), um vigarista bom-caráter que vive de expedientes pelas cidadezinhas do Nordeste. Por causa de Lisbela, o conquistador serial Leléu pela primeira vez vai deixar de amar todas as mulheres a um só tempo para amar uma mulher só, o tempo todo. Mas seu passado está em seu encalço, na forma do matador Frederico Evandro (Marco Nanini), que quer vingar a traição de sua mulher (Virginia Cavendish).

Cada novo lance dessa história – adaptada da peça homônima de Osman Lins – é anunciado por uma cena dos velhos seriados (filmados por Arraes) a que Lisbela assiste. A proposta é entreter e ao mesmo tempo homenagear o cinema e as emoções, baratas ou não, que ele é capaz de provocar. Mas o resultado fica pelo meio do caminho. Nem os falsos seriados são tão interessantes assim, nem ajudam como deveriam a prefaciar as situações que os personagens vão viver. Não raro, aliás, atrapalham. Como os outros dois filmes do diretor, Lisbela já teve uma adaptação televisiva (e foi também uma montagem teatral de sucesso). Também como neles, o que dá a liga aqui são o humor de Arraes e o seu bom olho e ouvido para os coloridos regionalistas. Mas não há dúvida de que o saldo parece mais forçado, e menos divertido, do que no ótimo Compadecida.

 
 
 
 
topo voltar