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Cinema
Humor
é coisa séria
Pode um colecionador de arte,
filósofo e escritor ser comediante?
Se for Steve Martin, sim

Isabela
Boscov
Divulgação
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| Martin,
Latifah e Eugene Levy em A Casa Caiu: bem melhores que
o filme |
Já
se perdeu a conta de quantos filmes tratam de um personagem branco
e ultraconvencional que ganha algum jogo de cintura graças
à convivência com um personagem negro despachado e,
em geral, desbocado. Não é diferente em A Casa
Caiu (Bringing Down the House, Estados Unidos, 2003),
desde sexta-feira em cartaz no país. Peter Sanderson (Steve
Martin) é um advogado tributarista, dono de um Mercedes e
de uma casa nos subúrbios que, para aliviar a solidão
do divórcio, se corresponde pela internet com uma certa Charlene,
que ele julga ser uma advogada jovem, loira e magra. No dia em que
Charlene (Queen Latifah) bate à sua porta, ele descobre que
ela é negra, estridente, um tanto generosa nas curvas e ex-presidiária.
O que ela quer não é um namorado, e sim ajuda para
provar sua inocência numa acusação de assalto.
Como Peter tenta botá-la para fora, ela finca o pé:
toma conta da casa e da vida dele.
O que há de incomum em A Casa Caiu é, primeiro,
a franqueza com que ele mostra o menosprezo de que uma figura como
Charlene é alvo num meio como o de Peter (não raro,
aliás, o filme apela para um mau gosto estarrecedor nessas
demonstrações, como na cena em que Charlene e uma
socialite branca se espancam). O segundo ponto digno de nota é
que um filme do gênero conte com um ator do gabarito de Steve
Martin. Ele é um mestre em dois tipos quase sempre excludentes
de comédia: o humor das inflexões e diálogos
precisos e também o humor físico. Apesar de não
estar aqui no seu auge, Martin tira proveito dessas habilidades
em A Casa Caiu. Crava não só a personificação
do sujeito insosso como pão de forma, como também
arrasa numa cena em que Peter dança rap numa boate
um tributo ao seu primeiro sucesso, O Panaca, de 1979, sobre
um rapaz branco que, criado por negros, se acredita negro também.
A
Casa Caiu pode ser o indício de um quarto ato em uma
trajetória sui generis. Filho de um ator frustrado que se
tornou corretor de imóveis, Martin nasceu no Texas e cresceu
na região californiana de Orange County, um reduto branco
de classe média. Estudou filosofia, mas, depois de três
anos, desiludiu-se e resolveu ser ator: a comédia, diz ele,
é a única coisa que não precisa ser explicada
ou justificada. Em plena contracultura, quando o humor tinha obrigatoriamente
de ser contestador, ele se saiu com uma estratégia oposta.
Subia ao palco ou entrava no estúdio do programa Saturday
Night Live, do qual foi um dos mais eméritos participantes
de terno branco, com orelhas de coelho e uma flecha atravessada
na cabeça, tocava banjo e esculpia bichinhos com balões.
Sua persona era a do sujeito tão ingênuo e obtuso que
jamais seria capaz de entender suas próprias piadas. Hoje,
credita-se a Martin a reinvenção da ironia num país
do qual ela havia sido banida, os Estados Unidos. Quase que da noite
para o dia, ele virou o comediante mais influente e popular de sua
geração, capaz de lotar arenas.
Nesse momento, Martin decidiu abandonar os shows e passar ao cinema.
Suas escolhas, porém, primam pela irregularidade. Elas incluem
desde gemas como Cliente Morto Não Paga e Um Espírito
Baixou em Mim até fiascos cada vez mais freqüentes
nos anos 90 como O Sargento Trapalhão. Sentindo-se
esgotado como comediante, Martin parou para se reorganizar. Escreveu
peças como Picasso at the Lapin Agile, sobre um hipotético
encontro entre o pintor Pablo Picasso e o físico Albert Einstein.
Virou colaborador da revista The New Yorker e escreveu um
elogiado romance, Shopgirl. Dedicou-se cada vez mais à
sua coleção de arte, que conta com obras de Lucian
Freud, David Hockney e Edward Hopper, entre outros. Divorciou-se
de sua mulher, a atriz inglesa Victoria Tennant, e embarcou numa
paixão com Anne Heche, que o trocou pela comediante Ellen
DeGeneres. Acima de tudo, Martin consolidou sua imagem de pessoa
séria, remota e surpreendentemente cerebral para seu meio
algo que ele vem tentando mudar. Há poucos anos, ele
trocou sua casa modernista sem janelas uma casa que dizia
"vá embora", em sua própria definição
por um rancho, no qual vive com seu cachorro. Fez as pazes
com o cinema com a ótima comédia Os Picaretas,
sobre um diretor pé-de-chinelo. Por causa de seu talento
e da estrela ascendente Queen Latifah, Martin ganhou agora, em A
Casa Caiu, o maior sucesso de sua carreira, com 133 milhões
de dólares nas bilheterias americanas. Ainda que ele esteja
longe de ser seu filme mais digno, essa não deixa de ser
uma boa notícia: significa que Martin está de volta
à agenda dos produtores.
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