Edição 1816 . 20 de agosto de 2003

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Cinema
Humor é coisa séria

Pode um colecionador de arte,
filósofo e escritor ser comediante?
Se for Steve Martin, sim


Isabela Boscov

 
Divulgação
Martin, Latifah e Eugene Levy em A Casa Caiu: bem melhores que o filme


Trailer
Fotos do filme

Já se perdeu a conta de quantos filmes tratam de um personagem branco e ultraconvencional que ganha algum jogo de cintura graças à convivência com um personagem negro despachado e, em geral, desbocado. Não é diferente em A Casa Caiu (Bringing Down the House, Estados Unidos, 2003), desde sexta-feira em cartaz no país. Peter Sanderson (Steve Martin) é um advogado tributarista, dono de um Mercedes e de uma casa nos subúrbios que, para aliviar a solidão do divórcio, se corresponde pela internet com uma certa Charlene, que ele julga ser uma advogada jovem, loira e magra. No dia em que Charlene (Queen Latifah) bate à sua porta, ele descobre que ela é negra, estridente, um tanto generosa nas curvas e ex-presidiária. O que ela quer não é um namorado, e sim ajuda para provar sua inocência numa acusação de assalto. Como Peter tenta botá-la para fora, ela finca o pé: toma conta da casa e da vida dele.

O que há de incomum em A Casa Caiu é, primeiro, a franqueza com que ele mostra o menosprezo de que uma figura como Charlene é alvo num meio como o de Peter (não raro, aliás, o filme apela para um mau gosto estarrecedor nessas demonstrações, como na cena em que Charlene e uma socialite branca se espancam). O segundo ponto digno de nota é que um filme do gênero conte com um ator do gabarito de Steve Martin. Ele é um mestre em dois tipos quase sempre excludentes de comédia: o humor das inflexões e diálogos precisos e também o humor físico. Apesar de não estar aqui no seu auge, Martin tira proveito dessas habilidades em A Casa Caiu. Crava não só a personificação do sujeito insosso como pão de forma, como também arrasa numa cena em que Peter dança rap numa boate – um tributo ao seu primeiro sucesso, O Panaca, de 1979, sobre um rapaz branco que, criado por negros, se acredita negro também.

A Casa Caiu pode ser o indício de um quarto ato em uma trajetória sui generis. Filho de um ator frustrado que se tornou corretor de imóveis, Martin nasceu no Texas e cresceu na região californiana de Orange County, um reduto branco de classe média. Estudou filosofia, mas, depois de três anos, desiludiu-se e resolveu ser ator: a comédia, diz ele, é a única coisa que não precisa ser explicada ou justificada. Em plena contracultura, quando o humor tinha obrigatoriamente de ser contestador, ele se saiu com uma estratégia oposta. Subia ao palco – ou entrava no estúdio do programa Saturday Night Live, do qual foi um dos mais eméritos participantes – de terno branco, com orelhas de coelho e uma flecha atravessada na cabeça, tocava banjo e esculpia bichinhos com balões. Sua persona era a do sujeito tão ingênuo e obtuso que jamais seria capaz de entender suas próprias piadas. Hoje, credita-se a Martin a reinvenção da ironia num país do qual ela havia sido banida, os Estados Unidos. Quase que da noite para o dia, ele virou o comediante mais influente e popular de sua geração, capaz de lotar arenas.

Nesse momento, Martin decidiu abandonar os shows e passar ao cinema. Suas escolhas, porém, primam pela irregularidade. Elas incluem desde gemas como Cliente Morto Não Paga e Um Espírito Baixou em Mim até fiascos – cada vez mais freqüentes nos anos 90 – como O Sargento Trapalhão. Sentindo-se esgotado como comediante, Martin parou para se reorganizar. Escreveu peças como Picasso at the Lapin Agile, sobre um hipotético encontro entre o pintor Pablo Picasso e o físico Albert Einstein. Virou colaborador da revista The New Yorker e escreveu um elogiado romance, Shopgirl. Dedicou-se cada vez mais à sua coleção de arte, que conta com obras de Lucian Freud, David Hockney e Edward Hopper, entre outros. Divorciou-se de sua mulher, a atriz inglesa Victoria Tennant, e embarcou numa paixão com Anne Heche, que o trocou pela comediante Ellen DeGeneres. Acima de tudo, Martin consolidou sua imagem de pessoa séria, remota e surpreendentemente cerebral para seu meio – algo que ele vem tentando mudar. Há poucos anos, ele trocou sua casa modernista sem janelas – uma casa que dizia "vá embora", em sua própria definição – por um rancho, no qual vive com seu cachorro. Fez as pazes com o cinema com a ótima comédia Os Picaretas, sobre um diretor pé-de-chinelo. Por causa de seu talento e da estrela ascendente Queen Latifah, Martin ganhou agora, em A Casa Caiu, o maior sucesso de sua carreira, com 133 milhões de dólares nas bilheterias americanas. Ainda que ele esteja longe de ser seu filme mais digno, essa não deixa de ser uma boa notícia: significa que Martin está de volta à agenda dos produtores.

 
 
 
 
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