Edição 1816 . 20 de agosto de 2003

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Cultura
Tolice instantânea

A idéia acabou de surgir, e
não deu outra: os brasileiros
já aderiram às "flash mobs"


AP
A primeira "aglomeração instantânea" em São Paulo: sapatadas no asfalto

A internet tem uma capacidade infinita para dar origem a bobagens, e o brasileiro ainda não se livrou daquele instinto irrefreável de copiar tudo o que pareça "atitude" (na acepção Madonna da palavra). Assim, não podia dar outra: depois de virar moda nos Estados Unidos e na Europa, a organização de "flash mobs", ou aglomerações instantâneas, já começa no Brasil. A coisa funciona assim: um grupo se reúne num espaço público, realiza conjuntamente alguma ação rápida como bater palmas ou executar um passinho de dança e, em questão de minutos, se dispersa. As flash mobs são organizadas por meio de uma corrente de e-mails – o que garante o seu pedigree pós-moderninho. A estréia brasileira ocorreu em São Paulo, na quarta-feira passada. Cerca de 100 pessoas se reuniram numa esquina da Paulista e, ao primeiro sinal verde depois das 12h40, começaram a atravessar a avenida. Pararam subitamente, arrancaram um sapato, bateram com ele no chão e depois seguiram em frente. No meio do troço, alguns participantes exibiram cartazes com dizeres favoráveis à troca de músicas pela internet ("Contra burguês, baixe MP3"). Para os puristas, contudo, isso foi uma desvirtuação de propósitos: a legítima aglomeração instantânea, dizem eles, não tem pretensões políticas de natureza alguma, sendo antes de mais nada celebrações do nonsense.


Reuters
Flash mob em Nova York: a burrice tem um passado glorioso e um futuro promissor

A idéia das aglomerações instantâneas começou a se difundir a partir de Nova York nos últimos dois ou três meses. Para quem acha que é uma novidade extraordinária (e ela já conta até com teóricos), é preciso lembrar que se trata de uma diluição de um fenômeno dos anos 60 e 70: os happenings. Num happening, as pessoas reuniam-se, no mais das vezes sem nenhuma preparação, para fazer uma performance com sentido político-cultural (ou contracultural, vá lá). O fato de uma aglomeração instantânea ser tão mais autêntica quanto mais desprovida de significado mostra que não só o Brasil, mas o mundo, segue o caminho previsto pelo ex-ministro Roberto Campos. A saber: o da burrice. Que tem um passado glorioso e um futuro promissor.

 

 
 
 
 
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