Edição 1816 . 20 de agosto de 2003

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Ambiente
Hora de salvar a onça

A preservação do maior felino da América
é a bandeira do momento dos ambientalistas


Daniel Hessel Teich

 
Fotos Adriano Gambarini
ini
Onça-parda e onça-pintada acuada em uma árvore: nomes parecidos para espécies bem diferentes


NESTA EDIÇÃO
O predador americano
Galeria de imagens
DA INTERNET
World Conservation Society
International Union of Conservation of Nature (IUCN)
Pró-carnívoros

A onça-pintada tem na América o papel que o leão desempenha na África: é o principal predador do continente. Apesar dessa importância, até bem pouco tempo atrás a ciência conhecia pouquíssimo sobre esse grande carnívoro americano. Nenhum pesquisador sabia ao certo quais eram seus hábitos e raros se interessavam pelo assunto. Essa situação mudou completamente. A onça-pintada (ou jaguar, nome de origem tupi pelo qual é mais conhecida no exterior) brilha agora entre as principais estrelas dos ambientalistas, ao lado da baleia, do elefante e do chimpanzé. Uma enxurrada de pesquisas – algumas delas financiadas por razões inesperadas, como o 1 milhão de dólares doado pela fábrica inglesa de automóveis Jaguar para programas de preservação da espécie da qual tirou seu nome – ampliou enormemente o conhecimento sobre o comportamento da onça e mostrou a urgência de providências para evitar que o magnífico animal seja extinto da natureza. Estudo recente conduzido por biólogos da Sociedade de Conservação de Vida Selvagem, administradora do zoológico de Nova York, constatou que o felino desapareceu em metade da área que ocupava há 100 anos. Estima-se que a população de onças esteja reduzida a 15.000 animais – mas não há como saber com certeza, pois a maioria vive nas matas de difícil acesso da América Central e da Amazônia ou na imensidão do Pantanal.

A ameaça decorre de circunstâncias adversas. A primeira é que, apesar das leis protecionistas, a onça continua a ser caçada para a retirada da pele. Caçadores também são contratados por fazendeiros para abater os predadores, com o objetivo de evitar que ataquem os rebanhos. Por fim, o avanço da agricultura e a construção de usinas hidrelétricas e estradas, que reduzem o habitat dos felinos. A onça-pintada vive e caça em território bem demarcado, cuja área varia de acordo com o tipo de vegetação e a disponibilidade de alimentos, podendo ir de 20 a 150 quilômetros quadrados. "É muito difícil criar programas de preservação para um animal que perambula por áreas tão grandes", diz o biólogo americano Eric Sanderson, da Sociedade de Conservação da Vida Selvagem. O primeiro passo para desenvolver uma estratégia de sobrevivência para uma espécie é conhecer bem o comportamento do animal. Muito do que se sabe é resultado da observação de onças em cativeiro, o que é insuficiente para entender o que necessitam para sobreviver na natureza.

Só se tem uma idéia geral de como são os rituais de acasalamento. Os machos percebem que a fêmea está no cio pelo cheiro e pelo tipo de ruído que ela emite. Muitos machos disputam a fêmea. O vencedor copula várias vezes com ela. Eventualmente os perdedores também copulam. Esse processo dura cerca de cinco dias. Nunca se filmou ou fotografou uma fêmea com um filhote pequeno em liberdade. Eles ficam entocados até os 3 meses de idade e não se sabe como é o relacionamento entre a mãe e as crias nesse período. As observações de cativeiro não são fiéis ao que acontece na natureza, porque nessa situação o macho costuma ficar perto da fêmea e isso a estressa. É comum ela matar os filhotes. A onça-pintada é um dos quatro grandes felinos, ao lado do leão, do tigre e do leopardo – e o único deles natural das Américas. "Uma característica comum a esse grupo é uma particularidade no osso hióide, na garganta, que lhes permite rugir. Outros felinos, como o guepardo e a onça-parda, emitem sons mais parecidos com o miado do gato doméstico", diz o biólogo gaúcho Eduardo Eizirik, que estuda os genes de onça no Instituto Nacional de Câncer, nos Estados Unidos.

No passado, as onças eram encontradas por todo o continente, exceto nas regiões frias da América do Norte. Hoje, sobrevivem em 36 bolsões específicos localizados em dezesseis países. No Brasil, há duas subespécies. A onça do Pantanal é a maior que existe, com cerca de 140 quilos em média. A da Amazônia não ultrapassa 100 quilos. O animal é muito ágil para nadar e subir em árvores, mas, muito encorpado e com pernas relativamente curtas, é péssimo corredor. Prefere a emboscada e o bote no último minuto a correr atrás da presa, como fazem os leões. A mandíbula é uma das mais poderosas entre os carnívoros. Os pesquisadores brasileiros utilizam métodos tradicionais de caça para capturar onças (elas costumam ser acuadas com relativa facilidade por caçadores acompanhados de cães rastreadores). A diferença é que em lugar de balas eles usam dardos com tranqüilizantes. Capturado, o animal recebe um colar com um dispositivo de rádio, que permite que depois ele seja monitorado em liberdade. Os especialistas aproveitam para tirar amostras de sangue e, no caso dos machos, de sêmen. O sangue é usado para testes de DNA que ajudam a medir a variabilidade dos genes da espécie e avaliar os riscos de consangüinidade dos animais que habitam uma mesma área. O sêmen é congelado e armazenado para ser usado no futuro em programas de inseminação artificial.

Uma das formas de preservar os predadores é mudar a mentalidade dos moradores de regiões onde os animais vivem, que normalmente os encaram como uma praga que ataca animais domésticos e é perigosa para os homens. "Para os fazendeiros que perdem seus bois, a onça não tem nada de bonito", avalia a veterinária Rose Morato, do Centro Nacional de Pesquisa para Conservação de Predadores Naturais (Cenap), uma divisão do Ibama. Não há necessidade de matar os predadores. As onças podem ser afastadas com medidas simples, como a instalação de cercas elétricas, e deve-se proteger bezerros e vacas paridas, as presas preferidas do felino. Uma medida bem-sucedida é a indenização paga ao fazendeiro que tem reses mortas por onças. Desde o ano passado, a ONG Conservation International, com sede em Washington e proprietária da Fazenda Rio Negro no Pantanal, paga 250 reais por cabeça morta em mais de dez fazendas da região. Até agora, já foram indenizados os donos de 33 animais. Por fim, um esclarecimento sobre o famoso bafo de onça. Nem sempre ela tem mau hálito. Mas é comum que abata animais grandes e se alimente da carcaça por vários dias. Nessa circunstância, a carne apodrecida provoca o surgimento de um autêntico bafo de onça.

 
 
 
 
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