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Ambiente
Hora
de salvar a onça
A
preservação do maior felino da América
é a bandeira do momento dos ambientalistas

Daniel Hessel Teich
Fotos Adriano Gambarini
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ini
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| Onça-parda
e onça-pintada acuada em uma árvore: nomes parecidos para espécies
bem diferentes |
A onça-pintada
tem na América o papel que o leão desempenha na África:
é o principal predador do continente. Apesar dessa importância,
até bem pouco tempo atrás a ciência conhecia
pouquíssimo sobre esse grande carnívoro americano.
Nenhum pesquisador sabia ao certo quais eram seus hábitos
e raros se interessavam pelo assunto. Essa situação
mudou completamente. A onça-pintada (ou jaguar, nome de origem
tupi pelo qual é mais conhecida no exterior) brilha agora
entre as principais estrelas dos ambientalistas, ao lado da baleia,
do elefante e do chimpanzé. Uma enxurrada de pesquisas
algumas delas financiadas por razões inesperadas, como o
1 milhão de dólares doado pela fábrica inglesa
de automóveis Jaguar para programas de preservação
da espécie da qual tirou seu nome ampliou enormemente
o conhecimento sobre o comportamento da onça e mostrou a
urgência de providências para evitar que o magnífico
animal seja extinto da natureza. Estudo recente conduzido por biólogos
da Sociedade de Conservação de Vida Selvagem, administradora
do zoológico de Nova York, constatou que o felino desapareceu
em metade da área que ocupava há 100 anos. Estima-se
que a população de onças esteja reduzida a
15.000 animais mas não
há como saber com certeza, pois a maioria vive nas matas
de difícil acesso da América Central e da Amazônia
ou na imensidão do Pantanal.
A
ameaça decorre de circunstâncias adversas. A primeira
é que, apesar das leis protecionistas, a onça continua
a ser caçada para a retirada da pele. Caçadores também
são contratados por fazendeiros para abater os predadores,
com o objetivo de evitar que ataquem os rebanhos. Por fim, o avanço
da agricultura e a construção de usinas hidrelétricas
e estradas, que reduzem o habitat dos felinos. A onça-pintada
vive e caça em território bem demarcado, cuja área
varia de acordo com o tipo de vegetação e a disponibilidade
de alimentos, podendo ir de 20 a 150 quilômetros quadrados.
"É muito difícil criar programas de preservação
para um animal que perambula por áreas tão grandes",
diz o biólogo americano Eric Sanderson, da Sociedade de Conservação
da Vida Selvagem. O primeiro passo para desenvolver uma estratégia
de sobrevivência para uma espécie é conhecer
bem o comportamento do animal. Muito do que se sabe é resultado
da observação de onças em cativeiro, o que
é insuficiente para entender o que necessitam para sobreviver
na natureza.
Só
se tem uma idéia geral de como são os rituais de acasalamento.
Os machos percebem que a fêmea está no cio pelo cheiro
e pelo tipo de ruído que ela emite. Muitos machos disputam
a fêmea. O vencedor copula várias vezes com ela. Eventualmente
os perdedores também copulam. Esse processo dura cerca de
cinco dias. Nunca se filmou ou fotografou uma fêmea com um
filhote pequeno em liberdade. Eles ficam entocados até os
3 meses de idade e não se sabe como é o relacionamento
entre a mãe e as crias nesse período. As observações
de cativeiro não são fiéis ao que acontece
na natureza, porque nessa situação o macho costuma
ficar perto da fêmea e isso a estressa. É comum ela
matar os filhotes. A onça-pintada é um dos quatro
grandes felinos, ao lado do leão, do tigre e do leopardo
e o único deles natural das Américas. "Uma
característica comum a esse grupo é uma particularidade
no osso hióide, na garganta, que lhes permite rugir. Outros
felinos, como o guepardo e a onça-parda, emitem sons mais
parecidos com o miado do gato doméstico", diz o biólogo
gaúcho Eduardo Eizirik, que estuda os genes de onça
no Instituto Nacional de Câncer, nos Estados Unidos.
No
passado, as onças eram encontradas por todo o continente,
exceto nas regiões frias da América do Norte. Hoje,
sobrevivem em 36 bolsões específicos localizados em
dezesseis países. No Brasil, há duas subespécies.
A onça do Pantanal é a maior que existe, com cerca
de 140 quilos em média. A da Amazônia não ultrapassa
100 quilos. O animal é muito ágil para nadar e subir
em árvores, mas, muito encorpado e com pernas relativamente
curtas, é péssimo corredor. Prefere a emboscada e
o bote no último minuto a correr atrás da presa, como
fazem os leões. A mandíbula é uma das mais
poderosas entre os carnívoros. Os pesquisadores brasileiros
utilizam métodos tradicionais de caça para capturar
onças (elas costumam ser acuadas com relativa facilidade
por caçadores acompanhados de cães rastreadores).
A diferença é que em lugar de balas eles usam dardos
com tranqüilizantes. Capturado, o animal recebe um colar com
um dispositivo de rádio, que permite que depois ele seja
monitorado em liberdade. Os especialistas aproveitam para tirar
amostras de sangue e, no caso dos machos, de sêmen. O sangue
é usado para testes de DNA que ajudam a medir a variabilidade
dos genes da espécie e avaliar os riscos de consangüinidade
dos animais que habitam uma mesma área. O sêmen é
congelado e armazenado para ser usado no futuro em programas de
inseminação artificial.
Uma
das formas de preservar os predadores é mudar a mentalidade
dos moradores de regiões onde os animais vivem, que normalmente
os encaram como uma praga que ataca animais domésticos e
é perigosa para os homens. "Para os fazendeiros que perdem
seus bois, a onça não tem nada de bonito", avalia
a veterinária Rose Morato, do Centro Nacional de Pesquisa
para Conservação de Predadores Naturais (Cenap), uma
divisão do Ibama. Não há necessidade de matar
os predadores. As onças podem ser afastadas com medidas simples,
como a instalação de cercas elétricas, e deve-se
proteger bezerros e vacas paridas, as presas preferidas do felino.
Uma medida bem-sucedida é a indenização paga
ao fazendeiro que tem reses mortas por onças. Desde o ano
passado, a ONG Conservation International, com sede em Washington
e proprietária da Fazenda Rio Negro no Pantanal, paga 250
reais por cabeça morta em mais de dez fazendas da região.
Até agora, já foram indenizados os donos de 33 animais.
Por fim, um esclarecimento sobre o famoso bafo de onça. Nem
sempre ela tem mau hálito. Mas é comum que abata animais
grandes e se alimente da carcaça por vários dias.
Nessa circunstância, a carne apodrecida provoca o surgimento
de um autêntico bafo de onça.
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