Edição 1816 . 20 de agosto de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Consumo
Quase não se compra nada

Pesquisa mostra quais são os hábitos de consumo que se modificam nos momentos
em que a economia não está muito bem


Tiago Lethbridge


NESTA EDIÇÃO
Como os atingidos pela crise se protegem
NA INTERNET
Notícias diárias sobre economia

Foram divulgados na semana passada novos números sobre o desempenho da economia brasileira nos últimos meses. As notícias impressionam: a taxa de cheques sem fundo em julho foi uma das maiores já registradas. No comércio, as vendas do primeiro semestre se situaram num patamar quase 6% mais baixo que no mesmo período do ano passado. A venda de carros caiu 8%, também na comparação com o ano passado – que já havia sido péssimo. O desemprego continuou aumentando e chegou ao nível dos 13% nas seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE. Outro estudo realizado pelo instituto mostra que a renda média mensal, na comparação de junho passado com o mesmo mês do ano anterior, também teve queda significativa, 13%. A pedido de VEJA, o Instituto Vox Populi entrevistou 504 pessoas por telefone para verificar que providências os brasileiros tomam para conviver com a crise. Mais de 40% dos entrevistados disseram ter enfrentado problemas financeiros nos últimos seis meses. Desse grupo, um quarto deixou de ir a restaurantes, metade parou de comprar produtos de higiene pessoal e limpeza. Um dado que dimensiona a crise é este: entre os entrevistados que declaram enfrentar dificuldades econômicas, 60% já foram obrigados a deixar de comprar comida. Para a maioria, decisões que envolvem a tomada de empréstimos, como a compra de uma casa ou de um carro, ficaram para depois.

Não há muitos estudos comparando hábitos de consumo em diferentes países. Alguns observam que os brasileiros reagem mais rápido diante de qualquer sinal de perigo e quando a ameaça vai embora demoram mais para retomar as despesas. A razão para isso é a experiência. Somos todos gatos escaldados. Nos últimos vinte anos, os brasileiros experimentaram sete planos econômicos, seis moedas diferentes e várias medidas de choque, entre elas uma moratória, maxidesvalorizações cambiais, congelamentos de preços e confisco de poupança. Quase todas as intervenções produziram um pequeno alívio que depois desabou noutra crise ainda mais aguda. Para os economistas, os consumidores têm razões para viver em estado de alerta. Aqui, as crises são para valer e produzem estragos de verdade. Nos países mais ricos, a expectativa de dias melhores é suficiente para levar os consumidores às compras. Estudos mostram que os brasileiros precisam sentir a melhora no bolso para começar a gastar.

Nos Estados Unidos, a última vez que uma crise econômica levou um grande número de pessoas a deixar de consumir comida foi na seqüência da quebra da bolsa, em 1929. De lá para cá, os consumidores atravessaram várias crises sem mudar significativamente seus hábitos. Há três anos, com o estouro da bolha nas bolsas americanas, muitos analistas fizeram previsões pessimistas sobre a economia do país. Bilhões de dólares se evaporaram, milhares de famílias que tinham investimentos em ações se viram praticamente sem poupança e houve demissões nas empresas. Os americanos sentiram a crise, mas os efeitos foram muito menores que o esperado: apesar das dificuldades, os níveis de consumo não foram fortemente afetados. Fechado o ano, o governo constatou um crescimento de quase 5% no consumo das famílias americanas, uma marca excepcional. Segundo os analistas, esse comportamento confiante foi decisivo para amenizar os efeitos da crise. As famílias continuaram gastando e ajudaram a reanimar a economia. Em 1987, os americanos passaram por uma crise semelhante quando a bolsa sofreu mais um baque. Alguns setores, como o de automóveis, registraram pequena queda. Muitos outros não sofreram impacto algum. Segundo os estudos, o movimento nos restaurantes e a venda de alimentos continuaram crescendo.

O Japão é outro caso interessante para demonstrar como as pessoas reagem de formas diferentes aos fenômenos econômicos. A taxa de juros baixou a quase zero a fim de incentivar o consumo. Apesar desse estímulo, a economia japonesa não cresce há mais de uma década. As pessoas são tão cautelosas que preferem guardar o dinheiro para a aposentadoria. Não é só a psicologia que explica o comportamento dos consumidores. A rede de proteção social no Brasil é débil e as pessoas praticamente não têm poupança. Nos Estados Unidos, na Europa, no Japão, o Estado oferece ao cidadão um amparo social mais eficiente, que garante o acesso aos serviços básicos. Além disso, a renda dos brasileiros é muito baixa. Os americanos gastam parte importante de seus rendimentos com produtos supérfluos. O grosso da renda dos brasileiros vai para despesas como transporte, moradia e alimentação. A maioria não tem gorduras para cortar em momentos de crise. Em meio à tempestade também começam a surgir alguns sinais favoráveis. O principal é que a inflação parece estar sob controle. Se permanecer assim, o governo poderá baixar os juros e a economia voltará a funcionar. A percepção dos consumidores vai ajudar a definir em que ritmo se dará a retomada do crescimento econômico.

 
 
 
 
topo voltar