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Consumo
Quase não se compra nada
Pesquisa
mostra quais são os hábitos de consumo que se modificam
nos momentos
em que a economia não está muito bem

Tiago Lethbridge
Foram
divulgados na semana passada novos números sobre o desempenho
da economia brasileira nos últimos meses. As notícias
impressionam: a taxa de cheques sem fundo em julho foi uma das maiores
já registradas. No comércio, as vendas do primeiro
semestre se situaram num patamar quase 6% mais baixo que no mesmo
período do ano passado. A venda de carros caiu 8%, também
na comparação com o ano passado que já
havia sido péssimo. O desemprego continuou aumentando e chegou
ao nível dos 13% nas seis regiões metropolitanas pesquisadas
pelo IBGE. Outro estudo realizado pelo instituto mostra que a renda
média mensal, na comparação de junho passado
com o mesmo mês do ano anterior, também teve queda
significativa, 13%. A pedido de VEJA, o Instituto Vox Populi entrevistou
504 pessoas por telefone para verificar que providências os
brasileiros tomam para conviver com a crise. Mais de 40% dos entrevistados
disseram ter enfrentado problemas financeiros nos últimos
seis meses. Desse grupo, um quarto deixou de ir a restaurantes,
metade parou de comprar produtos de higiene pessoal e limpeza. Um
dado que dimensiona a crise é este: entre os entrevistados
que declaram enfrentar dificuldades econômicas, 60% já
foram obrigados a deixar de comprar comida. Para a maioria, decisões
que envolvem a tomada de empréstimos, como a compra de uma
casa ou de um carro, ficaram para depois.
Não
há muitos estudos comparando hábitos de consumo em
diferentes países. Alguns observam que os brasileiros reagem
mais rápido diante de qualquer sinal de perigo e quando a
ameaça vai embora demoram mais para retomar as despesas.
A razão para isso é a experiência. Somos todos
gatos escaldados. Nos últimos vinte anos, os brasileiros
experimentaram sete planos econômicos, seis moedas diferentes
e várias medidas de choque, entre elas uma moratória,
maxidesvalorizações cambiais, congelamentos de preços
e confisco de poupança. Quase todas as intervenções
produziram um pequeno alívio que depois desabou noutra crise
ainda mais aguda. Para os economistas, os consumidores têm
razões para viver em estado de alerta. Aqui, as crises são
para valer e produzem estragos de verdade. Nos países mais
ricos, a expectativa de dias melhores é suficiente para levar
os consumidores às compras. Estudos mostram que os brasileiros
precisam sentir a melhora no bolso para começar a gastar.
Nos
Estados Unidos, a última vez que uma crise econômica
levou um grande número de pessoas a deixar de consumir comida
foi na seqüência da quebra da bolsa, em 1929. De lá
para cá, os consumidores atravessaram várias crises
sem mudar significativamente seus hábitos. Há três
anos, com o estouro da bolha nas bolsas americanas, muitos analistas
fizeram previsões pessimistas sobre a economia do país.
Bilhões de dólares se evaporaram, milhares de famílias
que tinham investimentos em ações se viram praticamente
sem poupança e houve demissões nas empresas. Os americanos
sentiram a crise, mas os efeitos foram muito menores que o esperado:
apesar das dificuldades, os níveis de consumo não
foram fortemente afetados. Fechado o ano, o governo constatou um
crescimento de quase 5% no consumo das famílias americanas,
uma marca excepcional. Segundo os analistas, esse comportamento
confiante foi decisivo para amenizar os efeitos da crise. As famílias
continuaram gastando e ajudaram a reanimar a economia. Em 1987,
os americanos passaram por uma crise semelhante quando a bolsa sofreu
mais um baque. Alguns setores, como o de automóveis, registraram
pequena queda. Muitos outros não sofreram impacto algum.
Segundo os estudos, o movimento nos restaurantes e a venda de alimentos
continuaram crescendo.
O
Japão é outro caso interessante para demonstrar como
as pessoas reagem de formas diferentes aos fenômenos econômicos.
A taxa de juros baixou a quase zero a fim de incentivar o consumo.
Apesar desse estímulo, a economia japonesa não cresce
há mais de uma década. As pessoas são tão
cautelosas que preferem guardar o dinheiro para a aposentadoria.
Não é só a psicologia que explica o comportamento
dos consumidores. A rede de proteção social no Brasil
é débil e as pessoas praticamente não têm
poupança. Nos Estados Unidos, na Europa, no Japão,
o Estado oferece ao cidadão um amparo social mais eficiente,
que garante o acesso aos serviços básicos. Além
disso, a renda dos brasileiros é muito baixa. Os americanos
gastam parte importante de seus rendimentos com produtos supérfluos.
O grosso da renda dos brasileiros vai para despesas como transporte,
moradia e alimentação. A maioria não tem gorduras
para cortar em momentos de crise. Em meio à tempestade também
começam a surgir alguns sinais favoráveis. O principal
é que a inflação parece estar sob controle.
Se permanecer assim, o governo poderá baixar os juros e a
economia voltará a funcionar. A percepção dos
consumidores vai ajudar a definir em que ritmo se dará a
retomada do crescimento econômico.
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