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Justiça
Sururu
no tribunal
Um
ministro do STJ é acusado de assediar
sexualmente a filha de outro ministro do STJ

Malu Gaspar
Fundado
há catorze anos, o Superior Tribunal de Justiça vive
uma adolescência tumultuada. No ano passado, três de
seus ministros foram acusados de receber dinheiro de uma entidade
patrocinada por grileiros de terras. Quatro meses atrás,
um ministro, Vicente Leal, foi afastado pelos colegas sob a suspeita,
até hoje não comprovada, de que vendia sentenças
favoráveis a narcotraficantes. Na quinta-feira passada, o
STJ promoveu novo episódio constrangedor para uma casa da
Justiça. O ministro Paulo Medina, 61 anos, há dois
no tribunal, casado, quatro filhos, foi formalmente acusado de assediar
sexualmente uma funcionária. A suposta vítima é
Glória Pádua Ribeiro Portella, 28 anos, casada, dois
filhos, que vem a ser filha do membro mais antigo do STJ, o ministro
Pádua Ribeiro. Na semana passada, Glorinha, como é
conhecida, entrou com uma queixa-crime contra Paulo Medina. Em cinco
páginas, a queixa-crime faz um histórico cronológico
das supostas investidas do ministro, narrando detalhes, diálogos,
pedidos e olhares.
Segundo
a queixa-crime, em fevereiro passado, o ministro começa a
dirigir à funcionária "olhares pouco usuais, palavras
de duplo sentido e insinuações". No mês seguinte,
tenta segurar as mãos de Glorinha e lhe pede um abraço.
Segundo a descrição da queixa-crime, Glorinha, "perplexa,
assustada, chocada", repele o cortejo. "Ministro, não temos
aqui tempo nem motivo para apertos de mão e abraços",
teria dito ela. Entre o fim de março e o início de
abril, o ministro recebe a funcionária em seu gabinete e,
"com um olhar enlouquecido, anômalo, totalmente diferente
do que ostentava normalmente", pede-lhe um beijo. "Por acaso o senhor
está me confundindo com as vagabundas das Minas Gerais?",
disse Glorinha, segundo a queixa-crime. Diante disso, Medina teria
pedido desculpa, mas, em maio, as investidas voltaram.
Dias
antes, na presença de Glorinha, Medina recebera um telefonema
sobre um problema familiar. Abalado, ele chorou ao desligar o telefone
e Glorinha, a pretexto de confortá-lo, deu-lhe "dois ou três
tapinhas" no ombro. A queixa-crime relata que o ministro, dias depois
de receber o consolo, disse à funcionária que ficara
"excitado" com os tapinhas no ombro. Em 24 de junho, perturbada
com a corte do ministro, Glorinha foi ao médico, recebeu
licença de um mês e, no mesmo dia, de volta ao gabinete
de Medina no qual trabalhava, sofreu nova investida. Dessa vez,
Medina lhe teria pedido um abraço. Segundo narra a queixa-crime,
a funcionária respondeu: "O senhor tenha vergonha e coloque-se
no seu lugar". A partir desse dia, Glorinha, que é funcionária
concursada do STJ, não compareceu mais ao trabalho.
Seus
pais, o ministro Pádua Ribeiro e sua mulher, Ívis
Glória, funcionária aposentada do STJ, levaram o problema
à cúpula do tribunal, mas o acusado negou o assédio.
Iniciou-se, então, uma operação para evitar
que o assunto viesse a público. Afinal, Pádua Ribeiro,
decano do STJ, mantinha laços de amizade com Medina, tendo
inclusive batalhado por sua nomeação. Medina, por
sua vez, empregara a filha de Pádua Ribeiro e sempre avaliou
seu desempenho como "acima do esperado". Depois que versões
do episódio correram pelos corredores do tribunal, Medina
exonerou Glorinha. Procurado por VEJA, o ministro acusado não
quis dar entrevista.
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