Edição 1816 . 20 de agosto de 2003

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Justiça
Sururu no tribunal

Um ministro do STJ é acusado de assediar
sexualmente a filha de outro ministro do STJ


Malu Gaspar

Fundado há catorze anos, o Superior Tribunal de Justiça vive uma adolescência tumultuada. No ano passado, três de seus ministros foram acusados de receber dinheiro de uma entidade patrocinada por grileiros de terras. Quatro meses atrás, um ministro, Vicente Leal, foi afastado pelos colegas sob a suspeita, até hoje não comprovada, de que vendia sentenças favoráveis a narcotraficantes. Na quinta-feira passada, o STJ promoveu novo episódio constrangedor para uma casa da Justiça. O ministro Paulo Medina, 61 anos, há dois no tribunal, casado, quatro filhos, foi formalmente acusado de assediar sexualmente uma funcionária. A suposta vítima é Glória Pádua Ribeiro Portella, 28 anos, casada, dois filhos, que vem a ser filha do membro mais antigo do STJ, o ministro Pádua Ribeiro. Na semana passada, Glorinha, como é conhecida, entrou com uma queixa-crime contra Paulo Medina. Em cinco páginas, a queixa-crime faz um histórico cronológico das supostas investidas do ministro, narrando detalhes, diálogos, pedidos e olhares.

Segundo a queixa-crime, em fevereiro passado, o ministro começa a dirigir à funcionária "olhares pouco usuais, palavras de duplo sentido e insinuações". No mês seguinte, tenta segurar as mãos de Glorinha e lhe pede um abraço. Segundo a descrição da queixa-crime, Glorinha, "perplexa, assustada, chocada", repele o cortejo. "Ministro, não temos aqui tempo nem motivo para apertos de mão e abraços", teria dito ela. Entre o fim de março e o início de abril, o ministro recebe a funcionária em seu gabinete e, "com um olhar enlouquecido, anômalo, totalmente diferente do que ostentava normalmente", pede-lhe um beijo. "Por acaso o senhor está me confundindo com as vagabundas das Minas Gerais?", disse Glorinha, segundo a queixa-crime. Diante disso, Medina teria pedido desculpa, mas, em maio, as investidas voltaram.

Dias antes, na presença de Glorinha, Medina recebera um telefonema sobre um problema familiar. Abalado, ele chorou ao desligar o telefone e Glorinha, a pretexto de confortá-lo, deu-lhe "dois ou três tapinhas" no ombro. A queixa-crime relata que o ministro, dias depois de receber o consolo, disse à funcionária que ficara "excitado" com os tapinhas no ombro. Em 24 de junho, perturbada com a corte do ministro, Glorinha foi ao médico, recebeu licença de um mês e, no mesmo dia, de volta ao gabinete de Medina no qual trabalhava, sofreu nova investida. Dessa vez, Medina lhe teria pedido um abraço. Segundo narra a queixa-crime, a funcionária respondeu: "O senhor tenha vergonha e coloque-se no seu lugar". A partir desse dia, Glorinha, que é funcionária concursada do STJ, não compareceu mais ao trabalho.

Seus pais, o ministro Pádua Ribeiro e sua mulher, Ívis Glória, funcionária aposentada do STJ, levaram o problema à cúpula do tribunal, mas o acusado negou o assédio. Iniciou-se, então, uma operação para evitar que o assunto viesse a público. Afinal, Pádua Ribeiro, decano do STJ, mantinha laços de amizade com Medina, tendo inclusive batalhado por sua nomeação. Medina, por sua vez, empregara a filha de Pádua Ribeiro e sempre avaliou seu desempenho como "acima do esperado". Depois que versões do episódio correram pelos corredores do tribunal, Medina exonerou Glorinha. Procurado por VEJA, o ministro acusado não quis dar entrevista.

 
 
 
 
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