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Gastronomia
História
na panela
Cansou
do arroz com feijão?
Compre
um livro de receitas
e prepare um prato medieval

Daniel
Hessel Teich
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| Almoço
do século XVII: preferência por temperos fortes |
Um
dos legados do Império Romano é o ritual do banquete.
A refeição, lauta e festiva, é citada nos textos
clássicos, e por desenhos em mosaicos da época se
sabe que os convidados comiam reclinados em divãs. Mas o
que comiam os antigos romanos? O mergulho nas cozinhas do passado
é agora um próspero ramo da arqueologia, chamado de
reconstrução culinária. As épocas mais
pesquisadas são Roma Antiga, Idade Média e Renascimento.
Na Amazon, a maior das livrarias on-line, estão à
venda catorze livros com receitas da Antiguidade, quase todos lançados
nos últimos três anos. Há dois meses, a arqueóloga
carioca Fernanda de Camargo-Moro lançou Veneza, o Encontro
do Oriente com o Ocidente (Editora Record, 36 reais), com receitas
da cidade italiana a partir do século XIII. Para escrever
a obra, ela pesquisou manuscritos e visitou coleções
de utensílios domésticos em museus. "É uma
forma de juntar dois assuntos que fascinam as pessoas, história
e gastronomia", diz.
O
maior desafio da reconstrução culinária não
são as receitas, mas produzir o sabor original. "Os livros
antigos de receitas consistem de anotações passadas
de um cozinheiro para outro e não mencionam quantidades nem
detalhes do preparo", disse a VEJA Andrew Dalby, lingüista
e historiador inglês, autor de sete livros sobre culinária
histórica. "A comida em Roma era temperada com molhos à
base de vinho, mel, sal e peixes", explica a historiadora e banqueteira
inglesa Grainger Sally. "Com os ingredientes e as técnicas
que conhecemos, hoje é possível chegar bem próximo
daquilo que os romanos comiam." Ela reconstruiu em sua casa um fogão
igual a um encontrado nas ruínas de Pompéia, cidade
romana destruída pelo Vulcão Vesúvio no ano
79.
O
tempero mais importante no tempo de César era o molho de
peixe, também chamado de garum ou liquamen,
obtido pela decomposição do pescado envolto em sal.
Esse molho era usado para temperar carnes, legumes e não
raro era misturado ao vinho, como descreveu o naturalista latino
Plínio, o Velho. Muitos temperos medievais, como o murri,
molho fermentado à base de trigo e cevada, vêm da cozinha
islâmica. Os condimentos mais usados em Veneza eram pimenta-do-reino,
cravo-da-índia e noz-moscada, produtos caros que a cidade
importava do Oriente. Nessa época, a aristocracia veneziana
se regalava com caviar, iguaria pouco conhecida no resto da Europa
Ocidental. No século XI, Veneza começou a usar um
garfo com dois dentes, o piron, utensílio que só
se estendeu para o restante da Europa 500 anos mais tarde. A única
ressalva na adaptação de receitas históricas
é que a combinação de sabores pode parecer
estranha ao paladar moderno. Recomenda-se aos gourmets que, antes
de oferecer um jantar à moda romana ou medieval, testem e
provem previamente as receitas, para evitar desastres e vexames.
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