Edição 1816 . 20 de agosto de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Medicina
Meio cérebro,
uma vida completa

Retirar um hemisfério cerebral
de crianças com graves problemas
neurológicos: isso pode dar certo


Karina Pastore

Eram 7 horas da manhã do último dia 24 quando o médico anunciou: "A senhora sabe que seu filho pode não voltar..." A dona-de-casa Madalena Soares despediu-se de Diogo, de apenas 2 meses, e esperou. Esperou as dez horas mais longas e angustiantes de sua vida. Num dos centros cirúrgicos do Hospital Brigadeiro, em São Paulo, o bebê foi submetido a um dos mais arriscados e agressivos procedimentos da medicina – a hemisferectomia, ou retirada de um dos hemisférios cerebrais. O pequeno Diogo saiu da mesa de operação sem a metade direita do cérebro. Vítima de hemimegaloencefalia, anomalia congênita em que um dos hemisférios cerebrais cresce exageradamente, o bebê sofria crises constantes e severas de epilepsia. "Ele já nasceu convulsionando", diz Madalena. As crises não passavam nem com a combinação de sete anticonvulsivantes e um potente calmante, administrado diretamente na veia. Doentes como Diogo tendem a morrer antes de completar 1 ano, por desnutrição, infecção urinária ou pulmonar. A única esperança era extirpar-lhe a metade doente do cérebro. Às 5 horas da tarde daquela quinta-feira, Diogo voltou para perto de sua mãe. As convulsões cessaram. Uma das maiores alegrias de Madalena foi poder amamentar a criança em paz, sem os sobressaltos das crises. Na quinta-feira passada, mãe e filho retornariam a Belo Horizonte, onde a família mora.

Comandada pelo neurocirurgião Arthur Cukiert, a operação de Diogo é a primeira hemisferectomia em um paciente com menos de 6 meses de vida realizada no Brasil. No mundo todo, registra-se apenas uma dezena de casos semelhantes. A hemisferectomia só é recomendada quando o doente é resistente à medicação antiepiléptica. "Quanto mais jovem for o paciente, maiores são as chances de ele se recuperar sem seqüelas", diz o médico Cukiert. O prognóstico de Diogo é dos melhores. A exemplo dos outros bebês submetidos à hemisferectomia, a probabilidade de Diogo crescer e se desenvolver como qualquer outra criança é enorme.

Num adulto, a operação seria devastadora. Se fosse o hemisfério esquerdo a ser extirpado, ele ficaria sem movimentos do lado direito do corpo e deixaria de falar e entender o que lhe seria dito verbalmente, entre outros comprometimentos. Se fosse o direito, perderia os movimentos do lado esquerdo, a noção espacial e a capacidade de interpretar as emoções, entre outras seqüelas. Num bebê, não. O cérebro de uma criança pequena tem grande plasticidade. Como seus dois hemisférios ainda não se especializaram totalmente, ele tem a capacidade de automodelar-se – o poder de transferir uma função originária de uma determinada região cerebral para outra. Por isso, as crianças saem-se muito melhor em uma hemisferectomia do que um adulto. Essa plasticidade, no entanto, dura pouco (veja quadro).

Ao nascer, o bebê já carrega todos os neurônios de sua vida, embora sua massa cinzenta pese apenas 400 gramas, contra 1,2 quilo da de um adulto. A diferença de peso explica-se pelo fato de que, no cérebro de um bebê, os cerca de 100 bilhões de neurônios ainda não se ligaram a milhares de outros numa rede de cerca de 100 trilhões de conexões. É graças a essa trama que o homem pensa, enxerga, ouve, aprende e emociona-se. Os únicos circuitos cerebrais que vieram prontos do nascimento são os responsáveis pelo controle de funções vitais, como a temperatura corporal, os batimentos cardíacos e a respiração. As outras conexões são feitas com o passar dos anos.

 

 

 
 
 
topo voltar