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Medicina
Meio cérebro,
uma vida completa
Retirar
um hemisfério cerebral
de crianças com graves problemas
neurológicos: isso pode dar certo

Karina
Pastore
Eram 7 horas da manhã do último dia 24 quando o médico
anunciou: "A senhora sabe que seu filho pode não voltar..."
A dona-de-casa Madalena Soares despediu-se de Diogo, de apenas 2
meses, e esperou. Esperou as dez horas mais longas e angustiantes
de sua vida. Num dos centros cirúrgicos do Hospital Brigadeiro,
em São Paulo, o bebê foi submetido a um dos mais arriscados
e agressivos procedimentos da medicina a hemisferectomia,
ou retirada de um dos hemisférios cerebrais. O pequeno Diogo
saiu da mesa de operação sem a metade direita do cérebro.
Vítima de hemimegaloencefalia, anomalia congênita em
que um dos hemisférios cerebrais cresce exageradamente, o
bebê sofria crises constantes e severas de epilepsia. "Ele
já nasceu convulsionando", diz Madalena. As crises não
passavam nem com a combinação de sete anticonvulsivantes
e um potente calmante, administrado diretamente na veia. Doentes
como Diogo tendem a morrer antes de completar 1 ano, por desnutrição,
infecção urinária ou pulmonar. A única
esperança era extirpar-lhe a metade doente do cérebro.
Às 5 horas da tarde daquela quinta-feira, Diogo voltou para
perto de sua mãe. As convulsões cessaram. Uma das
maiores alegrias de Madalena foi poder amamentar a criança
em paz, sem os sobressaltos das crises. Na quinta-feira passada,
mãe e filho retornariam a Belo Horizonte, onde a família
mora.
Comandada pelo neurocirurgião Arthur Cukiert, a operação
de Diogo é a primeira hemisferectomia em um paciente com
menos de 6 meses de vida realizada no Brasil. No mundo todo, registra-se
apenas uma dezena de casos semelhantes. A hemisferectomia só
é recomendada quando o doente é resistente à
medicação antiepiléptica. "Quanto mais jovem
for o paciente, maiores são as chances de ele se recuperar
sem seqüelas", diz o médico Cukiert. O prognóstico
de Diogo é dos melhores. A exemplo dos outros bebês
submetidos à hemisferectomia, a probabilidade de Diogo crescer
e se desenvolver como qualquer outra criança é enorme.
Num adulto, a operação seria devastadora. Se fosse
o hemisfério esquerdo a ser extirpado, ele ficaria sem movimentos
do lado direito do corpo e deixaria de falar e entender o que lhe
seria dito verbalmente, entre outros comprometimentos. Se fosse
o direito, perderia os movimentos do lado esquerdo, a noção
espacial e a capacidade de interpretar as emoções,
entre outras seqüelas. Num bebê, não. O cérebro
de uma criança pequena tem grande plasticidade. Como seus
dois hemisférios ainda não se especializaram totalmente,
ele tem a capacidade de automodelar-se o poder de transferir
uma função originária de uma determinada região
cerebral para outra. Por isso, as crianças saem-se muito
melhor em uma hemisferectomia do que um adulto. Essa plasticidade,
no entanto, dura pouco (veja quadro).
Ao nascer, o bebê já carrega todos os neurônios
de sua vida, embora sua massa cinzenta pese apenas 400 gramas, contra
1,2 quilo da de um adulto. A diferença de peso explica-se
pelo fato de que, no cérebro de um bebê, os cerca de
100 bilhões de neurônios ainda não se ligaram
a milhares de outros numa rede de cerca de 100 trilhões de
conexões. É graças a essa trama que o homem
pensa, enxerga, ouve, aprende e emociona-se. Os únicos circuitos
cerebrais que vieram prontos do nascimento são os responsáveis
pelo controle de funções vitais, como a temperatura
corporal, os batimentos cardíacos e a respiração.
As outras conexões são feitas com o passar dos anos.
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