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Estados
Unidos
Nova
York parou de novo
Blecaute
deixa 50 milhões de americanos
às escuras e faz a metrópole reviver o
pesadelo de 11 de setembro

José Eduardo Barella
AP
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Fotos Reuters
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ers
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| Centenas
de pessoas dormem no chão da estação de trem (à esq.)
e filas à espera de ônibus (à dir.); na foto maior,
multidão cruza a Ponte do Brooklyn |
Nova
York ficou sem energia elétrica às 4 horas da tarde
de quinta-feira. O metrô parou, os semáforos deixaram
de funcionar e os celulares ficaram mudos. Em meio ao clima de incerteza
marcado pela desinformação, os nova-iorquinos começaram
a temer pelo pior que a maior metrópole americana
estivesse sob novo ataque terrorista. A tensão só
aumentou com as notícias de que o apagão atingia outras
grandes cidades, incluindo Toronto, no Canadá. O calor sufocante
de 32 graus e a aproximação do fim do horário
de expediente levaram uma multidão a invadir as ruas. Em
meia hora, Nova York estava mergulhada no caos. Só horas
depois as autoridades confirmaram que o blecaute havia sido causado
por uma sobrecarga no sistema de transmissão de energia elétrica
que abastece oito Estados americanos e parte da província
de Ontário, no Canadá. Em apenas três minutos,
o sistema de segurança tornou obrigatório o desligamento
de 21 usinas de geração de energia incluindo
nove reatores nucleares. A origem do problema não havia sido
identificada até a madrugada de sábado. A situação
só começou a voltar ao normal na tarde de sexta-feira,
mas algumas regiões ainda estavam ameaçadas de passar
o fim de semana às escuras. No total, 50 milhões de
pessoas foram atingidas.
O
apagão da semana passada foi o maior já registrado
nos Estados Unidos. Os prejuízos para a maior economia do
planeta, responsável por um terço do PIB mundial,
só não foram maiores porque a falta de eletricidade
não chegou a afetar o funcionamento das principais bolsas
de valores. Só em Detroit, que concentra o grosso da indústria
automobilística americana, a Ford e a DaimlerChrysler tiveram
de interromper a produção em 32 fábricas. Nada
se compara aos transtornos causados em Nova York. Assim que o sol
se pôs, a silhueta escura dos prédios mais altos e
os luminosos apagados da Times Square indicavam que a noite seria
longa. Milhares de pessoas que trabalham em Manhattan e moram em
cidades vizinhas ou em bairros distantes dormiram ao relento por
causa da falta de transporte. Foram 80.000
chamadas para o telefone de emergência da polícia,
o dobro da média diária. Os bombeiros tiveram de apagar
sessenta incêndios, a maioria por acidentes causados pelo
uso de velas, e atender a 800 chamados de pessoas presas em elevadores.
A
rapidez das autoridades, que desde os atentados terroristas de 2001
revisaram todos os procedimentos de emergência, contribuiu
para impedir um pânico maior. Cerca de 10.000
policiais ocuparam rapidamente as principais avenidas e locais estratégicos
para orientar os pedestres e o trânsito. A população
também reagiu bem, se comparado aos dois grandes blecautes
anteriores ocorridos na cidade mudança que talvez
se possa atribuir ao espírito cívico nascido com a
tragédia de 11 de setembro. No apagão de novembro
de 1965, que durou treze horas, houve pânico. Mas a conseqüência
maior foi um boom de nascimentos, nove meses depois. No blecaute
de julho de 1977, que atingiu uma área semelhante à
da semana passada, Nova York viveu 25 horas de balbúrdia.
Centenas de lojas foram incendiadas e mais de 4.000
pessoas acabaram presas. Desta vez, apenas uma pessoa morreu (de
ataque cardíaco) e o número de saques na cidade foi
irrisório.
Passado
o susto, os americanos tentavam entender como o país mais
industrializado do mundo poderia ficar à mercê de um
apagão dessa magnitude. Descobriram que na última
década a demanda de energia elétrica nos Estados Unidos
dobrou em relação à capacidade de transmissão
que o sistema oferece. A expansão do uso de equipamentos
com grande consumo de energia, como os de ar condicionado, ajudou
a piorar a situação. A desregulamentação
do setor, há alguns anos, trouxe mais problemas como
os lucros são limitados por lei, os investimentos na ampliação
das linhas de transmissão minguaram. Para modernizar o sistema
de transmissão americano seriam necessários 56 bilhões
de dólares mas apenas 35 bilhões foram alocados
pelo governo federal, que em 2001 anunciou um plano de energência
para construir 1.900 usinas em vinte
anos. Ou seja, não há solução a curto
prazo, e novos apagões podem ocorrer. "Somos uma superpotência
com um sistema de transmissão de energia de Terceiro Mundo",
resumiu o ex-secretário de Energia e atual governador do
Novo México, Bill Richardson.
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