Edição 1816 . 20 de agosto de 2003

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Estados Unidos
Nova York parou de novo

Blecaute deixa 50 milhões de americanos
às escuras e faz a metrópole reviver o
pesadelo de 11 de setembro


José Eduardo Barella


AP
Fotos Reuters
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Centenas de pessoas dormem no chão da estação de trem (à esq.) e filas à espera de ônibus (à dir.); na foto maior, multidão cruza a Ponte do Brooklyn

Nova York ficou sem energia elétrica às 4 horas da tarde de quinta-feira. O metrô parou, os semáforos deixaram de funcionar e os celulares ficaram mudos. Em meio ao clima de incerteza marcado pela desinformação, os nova-iorquinos começaram a temer pelo pior – que a maior metrópole americana estivesse sob novo ataque terrorista. A tensão só aumentou com as notícias de que o apagão atingia outras grandes cidades, incluindo Toronto, no Canadá. O calor sufocante de 32 graus e a aproximação do fim do horário de expediente levaram uma multidão a invadir as ruas. Em meia hora, Nova York estava mergulhada no caos. Só horas depois as autoridades confirmaram que o blecaute havia sido causado por uma sobrecarga no sistema de transmissão de energia elétrica que abastece oito Estados americanos e parte da província de Ontário, no Canadá. Em apenas três minutos, o sistema de segurança tornou obrigatório o desligamento de 21 usinas de geração de energia – incluindo nove reatores nucleares. A origem do problema não havia sido identificada até a madrugada de sábado. A situação só começou a voltar ao normal na tarde de sexta-feira, mas algumas regiões ainda estavam ameaçadas de passar o fim de semana às escuras. No total, 50 milhões de pessoas foram atingidas.

O apagão da semana passada foi o maior já registrado nos Estados Unidos. Os prejuízos para a maior economia do planeta, responsável por um terço do PIB mundial, só não foram maiores porque a falta de eletricidade não chegou a afetar o funcionamento das principais bolsas de valores. Só em Detroit, que concentra o grosso da indústria automobilística americana, a Ford e a DaimlerChrysler tiveram de interromper a produção em 32 fábricas. Nada se compara aos transtornos causados em Nova York. Assim que o sol se pôs, a silhueta escura dos prédios mais altos e os luminosos apagados da Times Square indicavam que a noite seria longa. Milhares de pessoas que trabalham em Manhattan e moram em cidades vizinhas ou em bairros distantes dormiram ao relento por causa da falta de transporte. Foram 80.000 chamadas para o telefone de emergência da polícia, o dobro da média diária. Os bombeiros tiveram de apagar sessenta incêndios, a maioria por acidentes causados pelo uso de velas, e atender a 800 chamados de pessoas presas em elevadores.

A rapidez das autoridades, que desde os atentados terroristas de 2001 revisaram todos os procedimentos de emergência, contribuiu para impedir um pânico maior. Cerca de 10.000 policiais ocuparam rapidamente as principais avenidas e locais estratégicos para orientar os pedestres e o trânsito. A população também reagiu bem, se comparado aos dois grandes blecautes anteriores ocorridos na cidade – mudança que talvez se possa atribuir ao espírito cívico nascido com a tragédia de 11 de setembro. No apagão de novembro de 1965, que durou treze horas, houve pânico. Mas a conseqüência maior foi um boom de nascimentos, nove meses depois. No blecaute de julho de 1977, que atingiu uma área semelhante à da semana passada, Nova York viveu 25 horas de balbúrdia. Centenas de lojas foram incendiadas e mais de 4.000 pessoas acabaram presas. Desta vez, apenas uma pessoa morreu (de ataque cardíaco) e o número de saques na cidade foi irrisório.

Passado o susto, os americanos tentavam entender como o país mais industrializado do mundo poderia ficar à mercê de um apagão dessa magnitude. Descobriram que na última década a demanda de energia elétrica nos Estados Unidos dobrou em relação à capacidade de transmissão que o sistema oferece. A expansão do uso de equipamentos com grande consumo de energia, como os de ar condicionado, ajudou a piorar a situação. A desregulamentação do setor, há alguns anos, trouxe mais problemas – como os lucros são limitados por lei, os investimentos na ampliação das linhas de transmissão minguaram. Para modernizar o sistema de transmissão americano seriam necessários 56 bilhões de dólares – mas apenas 35 bilhões foram alocados pelo governo federal, que em 2001 anunciou um plano de energência para construir 1.900 usinas em vinte anos. Ou seja, não há solução a curto prazo, e novos apagões podem ocorrer. "Somos uma superpotência com um sistema de transmissão de energia de Terceiro Mundo", resumiu o ex-secretário de Energia e atual governador do Novo México, Bill Richardson.

 
 
 
 
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