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Brasil
O fim do começo

Eurípedes
Alcântara, Eduardo Oinegue,
André
Petry e Thaís Oyama
Ana Araújo
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| Luiz
Inácio Lula da Silva durante entrevista a VEJA |
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Todo governo precisa de uma fase de acomodação ao
poder, etapa em que a Esplanada dos Ministérios desenvolve
os projetos da campanha e tenta tirar um deles do papel. A adaptação
em geral se encerra quando um projeto importante se torna realidade
e fica claro que o governo ganhou um curso. A vitória do
Palácio do Planalto na votação da reforma da
Previdência Social cumpre esse papel. Trata-se de um grande
projeto aprovado na Câmara dos Deputados. A reforma previdenciária
marca o fim desse começo, dessa fase de assentamento do governo
Lula. Nas palavras do presidente, que adora uma comparação
futebolística, é como se o ministério tivesse
encerrado o aquecimento e entrasse em campo.
Ninguém
está capacitado a fazer previsões otimistas ou pessimistas
a respeito do desempenho do time de Lula, mas há indicações
de que ele tomou cuidados essenciais para enfrentar o jogo. Prova
disso é a entrevista exclusiva que o presidente concedeu
a VEJA na semana passada, a primeira desde que tomou posse. Numa
conversa que durou cerca de duas horas, Lula explicou por que os
projetos sociais só serão acelerados agora ("No
começo, a fase era outra. Tínhamos a obsessão
de não permitir que a inflação voltasse"),
reconheceu a importância do capital privado nacional e estrangeiro
para reativar a economia ("Nosso papel é garantir a segurança
de todos os investidores") e reforçou o papel de âncora
da estabilidade cumprido pelo ministro da Fazenda ("Quem especular
apostando contra Palocci vai perder"). Lula reagiu às
incursões na política partidária feitas por
seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso ("Ele deu uma pisada
na bola"), e ao papel desempenhado pela senadora Heloísa
Helena, petista radical e líder da oposição
dentro do Partido dos Trabalhadores ("Tem determinado tipo de
gente que é melhor ficar contra você do que a favor").
No
fim de maio, quando deu sua primeira entrevista coletiva, Lula reuniu
duas dúzias de jornalistas em torno da enorme mesa
redonda
de seu gabinete, exibiu um tremendo entusiasmo de estar sentado
na cadeira presidencial e mostrou extrema confiança em sua
capacidade de virar o jogo, qualquer jogo. Na manhã da quarta-feira
passada, quando recebeu VEJA em seu gabinete, no 3º andar do
Palácio do Planalto, Lula exibia outro estado de espírito,
desta vez marcado pela serenidade. A autoconfiança permanece,
está estampada em declarações como "corremos
o belo risco de, no próximo ano, ter o maior programa social
do mundo", mas agora aparece matizada pelas dificuldades naturais
de governar. "Não tenho a ilusão de que vamos resolver
tudo." Seu entusiasmo segue em alta, muito em alta, mas também
soa mais sereno e ponderado. "Briguei muito para estar onde estou.
Se tem alguém que não pode reclamar de ser presidente
sou eu. Eu sei que estou jogando minha história neste mandato",
afirma.
Ricardo Stuckert/PR
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NA
CABINE
O presidente Lula fala com admiração da tecnologia embarcada
nos aviões que o transportam nas viagens internacionais
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Aos
57 anos, com colesterol mais baixo e 8 quilos a menos, Lula anda
de excelente humor e delicia-se até com aquilo com
que outros famosos costumam se incomodar. "Sabe o que é a
coisa pior do que dar autógrafo e tirar fotografia? É
o dia em que ninguém quiser autógrafo nem quiser tirar
fotografia com você", diverte-se. Encantado com os aviões
mais modernos que o Sucatão, apelido do Boeing 707 à
disposição da Presidência da República
há mais de trinta anos, Lula diz que quer trocar a frota
("Vamos ser cobrados por não trocar quando tiver velório
de ministro") e conta que gostaria de ter uma dessas maravilhas
aéreas que só faltam voar sozinhas. "Só precisa
de um piloto e um cachorro. O piloto para dar comida ao cachorro.
E o cachorro para acordar o piloto", brinca. Circulando pelo gabinete,
mostra os amplos janelões de vidros blindados, recém-colocados.
Conta que mandou arrumá-los porque, nos vidros antigos, havia
uma película que começou a enrugar-se com o calor
do sol. "As cortinas tinham de ficar fechadas. Não podia
ficar daquele jeito. O pessoal ia entrar aqui e dizer: 'Esse não
cuida nem das janelas e ainda quer cuidar do Brasil'." E ri. O peso
e o colesterol foram reduzidos graças à dieta das
proteínas, criada pelo médico americano Robert Atkins,
que substitui a ingestão de carboidratos pelo consumo de
gorduras. "Eu como picanha, carne de cabrito, queijo amarelo. Bebida,
só no fim de semana. Às vezes, dá uma vontade
de comer uma fatia de pão com manteiga, mas...", diz o presidente.
Entre Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva
há uma semelhança de espírito e uma diferença
de estilo. Celebrizado pela carranca e pelo cenho franzido de outrora,
Lula mostra uma leveza de humor, revela-se quase tão descontraído
quanto Fernando Henrique, que não deixava escapar uma tirada
espirituosa nem nas horas mais dramáticas de seu governo.
Mas, ao contrário do antecessor, que gostava de dedicar-se
a grandes temas e evitava detalhes administrativos, Lula entrega-se
com prazer às minúcias do cotidiano. Durante a conversa
com VEJA, levantou-se duas vezes da poltrona para pegar papéis
sobre sua mesa de trabalho e mostrar números e metas. A certa
altura, em tom jocoso, reclamou que Gilberto Carvalho, seu fiel
escudeiro de muitos anos, retirara uma papelada de sua mesa. Mandou
acionar dois ministros Luiz Gushiken, da Secretaria da Comunicação,
e José Graziano, responsável pelo Fome Zero
para que lhe trouxessem documentos que sabia estarem em poder dos
auxiliares.
O presidente dá a sensação de conjugar com
tranqüilidade o peso de seus compromissos com a imensa tarefa
de realizá-los. Tanto que, quase como um mantra, vive repisando
apelos à paciência. Sobre a lentidão da máquina
governamental, confessa que gostaria de maior agilidade, mas acha
que um pouco de demora não é prejudicial e
fala do tempo: "A pressa é inimiga da perfeição".
Sobre o manejo da política econômica e o ritmo com
que a taxa de juros vem sendo reduzida, Lula lembra que a história
do Brasil é marcada por choques que provocam euforia imediata,
depois deixam um rastro de duradoura decepção
e fala do tempo: "Se tiver de esperar um dia a mais, um mês
a mais, para tomar uma decisão mais consistente, vamos aguardar".
Sobre as cobranças por mudanças mais profundas que
estão tardando a aparecer: "Eu sei que as coisas não
acontecem no tempo que você quer". Sobre a ampla negociação
realizada em torno da reforma da Previdência Social: "O presidente
da República tem de ter paciência". E dá-lhe
tempo ao tempo.
Com paciência, Lula diz que só concluiu a montagem
de seu governo há dois meses. Afirma que não pensa
em promover uma reforma ministerial, se diz satisfeito com sua equipe
e faz juras de amor eterno ao ministro da Fazenda, Antonio
Palocci. Evita informar quem mais lhe surpreendeu, tanto para o
bem quanto para o mal, mas rasga elogios ao ministro Ciro Gomes,
da Integração Nacional. Indagado sobre possíveis
decepções, o presidente garante que, até agora,
não pensou em demitir nenhum ministro, mas, na mesma hora,
lembra-se de Graziano, cujo Fome Zero começou com um cortejo
de trapalhadas e agora o governo garante que vai decolar. "Se eu
fosse levar a sério o que diziam, ele teria caído
com três meses de ministério."
Quem tinha a expectativa de que Lula comandaria um governo de esquerda
nostálgica pode perder a esperança ou o receio,
conforme o caso. A esse propósito, ele lembra um comentário
que ouviu do economista Celso Furtado, em 1979, época em
que ainda travava suas batalhas sindicais no ABC paulista. Diz o
presidente, reproduzindo Celso Furtado: "Lula, não se preocupe
com o que os ultra-esquerdistas falam. Porque no fundo, eles são
um alerta do caminho que você não deve seguir. Mas,
ao mesmo tempo, eles não permitem que você vá
muito para a direita". Em seguida, o presidente conclui: "Isso permeou
minha vida até agora". A
entrevista a seguir é ilustrada com fotos
feitas pelo fotógrafo oficial da Presidência, Ricardo
Stuckert. Pelo cargo, ele é o único profissional de
imagem que permanece ao lado de Lula quando os demais fotógrafos
estão longe. Pelo talento, consegue aproveitar tais momentos
para produzir um material fotográfico para hoje e para a
história.
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