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André
Petry
Eles estão chocados
"Que providências eles vão
exigir caso
alguém lhes conte que quase um terço dos
330 000 presos brasileiros não foi julgado
até hoje mas segue atrás das grades?"
A batida policial na Daslu e a
prisão de sua dona, Eliana Tranchesi, tiveram um efeito semelhante
ao dos milagres no Congresso Nacional do mensalão. Sob o
choque da operação policial, um grupo de políticos,
tal como cândidas donzelas, repentinamente descobriu um quadro
de horror um Brasil onde há violência policial
e até prisões arbitrárias!
Arnaldo Faria de Sá, do
PTB paulista, subiu à tribuna para denunciar que estamos
vivendo sob um "estado policial" e para acusar a Polícia
Federal de estar "tentando criar uma luta de classes" jogando os
pobres contra os ricos.
Zulaiê Cobra, do PSDB de
São Paulo, disse que tal arbitrariedade não pode acontecer
"num governo democrático, do povo, chefiado por um homem
que já foi pobre". O prefeito de São Paulo, o tucano
José Serra, não compreendeu a prisão da dona
da Daslu, "uma vez que ninguém ia fugir". O prefeito, ora
pois, sabia que ninguém ia fugir.
Luiz Carlos Hauly, do PSDB do
Paraná, disse que a operação era "cortina de
fumaça" para proteger o presidente Lula das denúncias
que o atingem. O deputado Onyx Lorenzoni, do PFL gaúcho,
concordou. Disse que a batida policial não passou de uma
"manobra diversionista".
Alberto Goldman, tucano de São
Paulo, fez questão de dizer que não conhece a dona
da Daslu e que nunca esteve na loja, nem no endereço antigo
nem no atual, mas, mesmo por fora, sabe que o trabalho da polícia
foi "uma ação política predeterminada".
Antônio Carlos Magalhães,
do PFL baiano, amigo íntimo de Eliana Tranchesi, ficou desolado.
Não entendeu como a polícia pôde ser tão
cruel com "uma empresa que produz e que dá mais de 1 600
empregos".
Jorge Bornhausen, do PFL de Santa
Catarina, ficou tão perplexo, mas tão perplexo, que
previu até o risco da deflagração de uma crise
econômica, pois, com uma polícia truculenta e abusada,
quem vai querer investir no país?
É, eles estão chocados...
O que será que esses políticos
farão no dia em que descobrirem que, no mesmo país
onde eles moram, acontecem coisas piores? O que farão se
ficarem sabendo que, de 1985 até 2002, houve pelo menos 6.330
prisões arbitrárias de trabalhadores rurais, apenas
de trabalhadores rurais? Que providências vão exigir
caso alguém lhes conte que quase um terço dos 330.000
presos brasileiros não foi julgado até hoje mas segue
atrás das grades?
A Federação das
Indústrias de São Paulo, a poderosa Fiesp, também
ficou indignada com o tratamento policial dado à Daslu. Tão
indignada que até planeja fazer um ato público para
"defender o Estado Democrático de Direito". Com toda a razão,
a Fiesp acha inadmissível que "alguém possa ser preso"
sem que sua culpa esteja evidenciada.
Já pensou se contarem
à Fiesp que já houve "alguém" preso e até
assassinado nessas circunstâncias? Em agosto de 2003, o comerciante
chinês Chan Kim Chang foi preso quando tentava embarcar para
os Estados Unidos com 30.500 dólares sem declaração
prévia e foi espancado até a morte.
É bom que nem a Fiesp
nem os políticos tomem conhecimento dessas coisas terríveis.
Eles ficariam escandalizados.
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