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discursos radiofônicos durante a II Guerra, Thomas
Muito já se comentou sobre a aparente contradição entre o maravilhoso legado da cultura alemã e a torpeza do nazismo. Como pôde a terra de Kant, Goethe, Beethoven e tantos outros luminares da filosofia, da literatura e da música originar a negação mais cabal do humanismo e da razão? Enquanto Hitler devastava a Europa, o escritor Thomas Mann (1875-1955), de seu exílio nos Estados Unidos, tentava desesperadamente dissociar as altas realizações do "espírito alemão" dos monstruosos crimes cometidos pelo nacional-socialismo. A Alemanha nazista, dizia ele, "não pode mais ser nem alemã". Essa defesa da essência germânica foi expressa no terceiro dos 58 discursos que o autor de A Montanha Mágica transmitiu, pela rádio BBC de Londres, a seus compatriotas discursos reunidos em Ouvintes Alemães! (tradução de Antonio Carlos dos Santos e Renato Zwick; Jorge Zahar; 224 páginas; 39,90 reais). À parte o estilo elegante e a argumentação cristalina do maior escritor alemão do século XX, a beleza dessas exortações encontra-se no seu esforço entre desiludido e heroico de falar ao que restaria de racionalidade sob a sombra da suástica.
A progressão dos pontos de vista do próprio Mann é ainda mais interessante. Em suas primeiras transmissões, ele apela para o suposto desejo de paz de seus compatriotas e diz que os próprios alemães deveriam ser contados entre os "povos oprimidos" da Europa. A Alemanha era uma espécie de vítima ingênua da canalha nazista que ocupara seu governo. Mais para o fim da guerra, quando a derrota do nazismo se delineava no horizonte, os discursos chamam os alemães a assumir a responsabilidade pelos crimes que cometeram, a única chance, argumentava o Nobel de Literatura de 1929, de encontrarem seu lugar na "nova ordem" democrática que se instalaria após a queda de Hitler e seus asseclas. Ainda na Alemanha, o próprio Mann vivera um período de nacionalismo exaltado, muito próximo das ilusões de grandeza que alimentariam a ascensão do nazismo. Durante a I Guerra Mundial, chegou a romper com o irmão mais velho, o também escritor Heinrich, porque este se posicionava contra o belicismo germânico. No entreguerras, porém, Thomas Mann foi gradualmente abandonando seu patriotismo autoritário para abraçar os princípios democráticos da claudicante República de Weimar. Em 1929, alarmado com o crescimento dos nazistas, Mann criticava o triunfo das "forças das trevas" e da irracionalidade na política de seu país. Teve a sorte de estar na Suíça quando Hitler subiu ao poder, em 1933. Não voltaria mais a residir na Alemanha. No último discurso de Ouvintes Alemães!, em novembro de 1945, cerca de seis meses depois da capitulação dos nazistas, Mann explica por que não desejava se restabelecer na terra natal. Não achava possível reencontrar o país que deixara em 1933. Tinha o sentimento profundo de que a antiga pátria, dilacerada em diversas zonas de ocupação, não existia mais como unidade. Restava apenas a culpa por seus crimes terríveis: "Tudo o que se chama alemão está incluído na ampla e terrível culpa nacional". Embora pedisse desculpas aos ouvintes por não ser nacionalista, Mann ainda conservava seu orgulho pela herança cultural alemã. Afirmava que manteria, no exílio, a sua "germanidade cosmopolita".
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