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Música Depois
de anos de canções pausterizadas, ressurge uma
Anos atrás, os cantores Arnaldo Antunes e Taciana Barros, o guitarrista Edgard Scandurra e o produtor Antonio Pinto se encontraram numa festa organizada pela escola de seus filhos. Ali, em meio a cantigas de roda e brincadeiras, tiveram a ideia de um trabalho conjunto voltado para o público infantil. Dessa colaboração, surgiu o CD Pequeno Cidadão, que acaba de chegar às lojas. Os rebentos do quarteto, com idades que vão dos 5 aos 21 anos, cantam nas faixas mais animadas do disco. Com canções de gêneros variados rock, forró, bossa nova , Pequeno Cidadão é uma mostra de que se voltou a produzir música de qualidade para crianças no Brasil. Depois dos anos 80, dominados pelo ilariê pasteurizado de Xuxa e assemelhadas, artistas como Zé Renato, Adriana Calcanhotto e grupos como Palavra Cantada reavivaram uma tradição que remonta até o compositor carioca Heitor Villa-Lobos (1887-1959), autor de A Prole do Bebê. A partir dos quatro meses de gestação, o futuro bebê já reage aos sons na barriga da mãe. Essa sensibilidade precoce alimenta certas noções tolas a mais notória delas é que as composições de Mozart deixam os bebês mais inteligentes, mito que ajudou a vender inúmeros discos no gênero Mozart para Bebês. Não há efeito comprovado da música sobre a inteligência. Mas a audição de boa música na infância predispõe o indivíduo a apreciar boa música na idade adulta. Mozart não é o único que se presta a essa função educativa Bach, Haydn, Beethoven também funcionam.
As crianças, é claro, identificam-se com letras que falam do seu universo imediato. No disco do Pequeno Cidadão, há canções sobre largar a chupeta e sobre o futebol na hora do recreio da escola. Mas elas estão aparelhadas para apreciar qualquer gênero de música. Não é preciso recorrer às adaptações de peças eruditas com aquela melosa caixinha de música: mesmo os bebês podem apreciar esse repertório na orquestração original (com exceção de obras que tenham variações rítmicas muito violentas como as de Mahler ou Stravinsky , que podem assustá-los). Há, porém, adaptações criativas. É o caso da série MPBaby, da gravadora independente MCD, que reúne instrumentistas de alta patente como os pianistas Benjamim Taubkin e André Mehmari interpretando clássicos da MPB e até dos Beatles. Seus doze CDs contabilizam 700 000 unidades vendidas. Outro projeto, dirigido às crianças mais velhas, foi criado pelo cantor e compositor Zé Renato. Estudioso da MPB, ele lançou um disco de sambas e outro de forró dedicados ao público infantil. As canções são interpretadas por gente como Chico Buarque, Roberta Sá e pelo próprio Zé Renato. "A criança, como o adulto, tem de ouvir todo tipo de música", diz.
Pequeno Cidadão tem bons trunfos. A produção de Antonio Pinto imprimiu ao disco uma sonoridade próxima à que os jovens ouvem hoje tanto que Larga a Lagartixa, a faixa mais dançante do CD, deverá ganhar um remix para as pistas noturnas. E Arnaldo Antunes sempre foi um letrista de sensibilidade afinada com o pequeno ouvinte. Já abordou temas como trabalho infantil (Criança Não Trabalha, gravada pelo Palavra Cantada), morte e medo (Saiba, destaque de Adriana Partimpim) sem cair na pieguice ou no lugar-comum. "Eu fico muito feliz quando descubro que uma música minha é usada em sala de aula. Mas a letra não pode ser pedagógica demais, ou espanta as crianças", diz Antunes. A melhor música para crianças, aliás, é aquela que não espanta os adultos.
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