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Edição 2113

20 de maio de 2009
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Música
Para crianças de todas as idades

Depois de anos de canções pausterizadas, ressurge uma
música brasileira de qualidade voltada para o público infantil


Sérgio Martins

Lailson Santos

OS SEUS, OS MEUS, OS NOSSOS
Os músicos do grupo Pequeno Cidadão, acompanhados de seus filhos cantores: arranjos modernos para canções sobre lagartixas e chupetas



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Anos atrás, os cantores Arnaldo Antunes e Taciana Barros, o guitarrista Edgard Scandurra e o produtor Antonio Pinto se encontraram numa festa organizada pela escola de seus filhos. Ali, em meio a cantigas de roda e brincadeiras, tiveram a ideia de um trabalho conjunto voltado para o público infantil. Dessa colaboração, surgiu o CD Pequeno Cidadão, que acaba de chegar às lojas. Os rebentos do quarteto, com idades que vão dos 5 aos 21 anos, cantam nas faixas mais animadas do disco. Com canções de gêneros variados – rock, forró, bossa nova –, Pequeno Cidadão é uma mostra de que se voltou a produzir música de qualidade para crianças no Brasil. Depois dos anos 80, dominados pelo ilariê pasteurizado de Xuxa e assemelhadas, artistas como Zé Renato, Adriana Calcanhotto e grupos como Palavra Cantada reavivaram uma tradição que remonta até o compositor carioca Heitor Villa-Lobos (1887-1959), autor de A Prole do Bebê.

A partir dos quatro meses de gestação, o futuro bebê já reage aos sons na barriga da mãe. Essa sensibilidade precoce alimenta certas noções tolas – a mais notória delas é que as composições de Mozart deixam os bebês mais inteligentes, mito que ajudou a vender inúmeros discos no gênero Mozart para Bebês. Não há efeito comprovado da música sobre a inteligência. Mas a audição de boa música na infância predispõe o indivíduo a apreciar boa música na idade adulta. Mozart não é o único que se presta a essa função educativa – Bach, Haydn, Beethoven também funcionam.

Rafael Andrade/Folha Imagem

AULINHA DE MPB
O cantor e compositor Zé Renato: "A criança tem de ouvir todo tipo de música. Como o adulto"


Alguns dos melhores músicos do Brasil se dedicaram a compor para crianças. A série Disquinho, das décadas de 60 e 70, trazia contos da carochinha embalados pelas canções de Braguinha (1907-2006) e arranjos do maestro Radamés Gnatalli (1906-1988). Trilhas de programas infantis da década de 70, como Vila Sésamo e Sítio do Picapau Amarelo, incluíam artistas como Gilberto Gil, Paulo Sergio e Marcos Valle. Em 1980, apareceu o memorável A Arca de Noé, com poemas infantis de Vinicius de Moraes interpretados por artistas como Elis Regina, Milton Nascimento e Ney Matogrosso. Nos anos 80, porém, a música para crianças degenerou em música para "baixinhos", com grupos pré-fabricados (Balão Mágico e Trem da Alegria) e a gritaria desafinada das apresentadoras de programas infantis. Os discos de Xuxa ainda vendem uma média de 200 000 cópias por lançamento – mas outros músicos têm conseguido vendagens expressivas com trabalhos mais elaborados. O Palavra Cantada, formado em 1994 por Sandra Peres e Paulo Tatit, consagrou uma nova fórmula de produzir para crianças, com shows meio teatrais, que as convidam a brincar. Adriana Calcanhotto incorporou essa ideia aos seus shows (mas sem a "bicho-grilice" do Palavra Cantada) e ao CD de Adriana Partimpim, seu alter ego para crianças. Seu CD vendeu 187.000 cópias no Brasil e 87.000 em Portugal.

As crianças, é claro, identificam-se com letras que falam do seu universo imediato. No disco do Pequeno Cidadão, há canções sobre largar a chupeta e sobre o futebol na hora do recreio da escola. Mas elas estão aparelhadas para apreciar qualquer gênero de música. Não é preciso recorrer às adaptações de peças eruditas com aquela melosa caixinha de música: mesmo os bebês podem apreciar esse repertório na orquestração original (com exceção de obras que tenham variações rítmicas muito violentas – como as de Mahler ou Stravinsky –, que podem assustá-los). Há, porém, adaptações criativas. É o caso da série MPBaby, da gravadora independente MCD, que reúne instrumentistas de alta patente – como os pianistas Benjamim Taubkin e André Mehmari – interpretando clássicos da MPB e até dos Beatles. Seus doze CDs contabilizam 700 000 unidades vendidas. Outro projeto, dirigido às crianças mais velhas, foi criado pelo cantor e compositor Zé Renato. Estudioso da MPB, ele lançou um disco de sambas e outro de forró dedicados ao público infantil. As canções são interpretadas por gente como Chico Buarque, Roberta Sá e pelo próprio Zé Renato. "A criança, como o adulto, tem de ouvir todo tipo de música", diz.

Monica Imbuzeiro/Ag. O Globo

ALTER EGO INFANTIL
Adriana Calcanhotto – aliás, Adriana Partimpim: shows que convidam as crianças a brincar e mais de 180 000 discos vendidos

Pequeno Cidadão tem bons trunfos. A produção de Antonio Pinto imprimiu ao disco uma sonoridade próxima à que os jovens ouvem hoje – tanto que Larga a Lagartixa, a faixa mais dançante do CD, deverá ganhar um remix para as pistas noturnas. E Arnaldo Antunes sempre foi um letrista de sensibilidade afinada com o pequeno ouvinte. Já abordou temas como trabalho infantil (Criança Não Trabalha, gravada pelo Palavra Cantada), morte e medo (Saiba, destaque de Adriana Partimpim) sem cair na pieguice ou no lugar-comum. "Eu fico muito feliz quando descubro que uma música minha é usada em sala de aula. Mas a letra não pode ser pedagógica demais, ou espanta as crianças", diz Antunes. A melhor música para crianças, aliás, é aquela que não espanta os adultos.

 



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