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Edição 1 743 - 20 de março de 2002
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Luiz Felipe de Alencastro

Roseana, Joana d'Arc
e a política

"A apreensão de dinheiro na empresa de Roseana
Sarney e de seu marido põe em pauta o projeto,
protelado há
muito tempo, de regulamentação
do financiamento
das campanhas eleitorais"


Ilustração Ale Setti


A crise da candidatura de Roseana Sarney estourou quando se comemorava o Dia Internacional da Mulher. Atropelado pelos acontecimentos, o PFL decidiu juntar tudo numa coisa só, organizando uma homenagem à data internacional e a Roseana. Num arroubo próprio de campanha eleitoral, o presidente do partido, Jorge Bornhausen, disse num discurso: "Nossa candidata não será a Joana d'Arc de nossos adversários". E mandou ver: "Roseana não vai ser queimada em praça pública e vai reagir como guerreira".

Joana d'Arc (1412-1431), filha de um camponês meio sem-terra, era presumidamente virgem (os historiadores pensam que sim, mas alguns autores de má língua e de grande gênio – Shakespeare, Voltaire, Anatole France – instilaram dúvidas). Em todo caso, ela não tinha noivo de nenhuma espécie. Sem pai influente, sem marido empresário, ela saiu sozinha de espada na mão comandando muitos homens. Talvez por isso, no mundo machista em que vivia, tenha sido traída, acusada de feitiçaria e queimada, mocinha ainda, numa fogueira em Rouen. Nessas circunstâncias, as semelhanças entre a santa guerreira francesa e Roseana Sarney parecem fora de propósito.

Entretanto, o discurso do presidente do PFL trouxe de volta ao cotidiano da política brasileira o paralelo com os tempos medievais que já havia sido esboçado pelo secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Paul O'Neill. No Fórum Econômico Mundial de Nova York, quando respondia às críticas sobre os altos juros pagos pelo Brasil nos empréstimos internacionais, O'Neill afirmou que isso se devia à corrupção reinante no país. Para consertar o efeito desastroso da declaração, O'Neill manifestou sua confiança na capacidade dos trabalhadores brasileiros, dando como prova o treinamento proporcionado no Brasil pela Alcoa – empresa sob sua direção durante vários anos – a pessoas que "viviam no século XIV".

A notícia saiu em letras miúdas nos jornais, e ninguém deu relevo à profunda sentença do ministro americano. Cabe então a pergunta: quem, no Brasil, poucos anos atrás ou ainda hoje, marcado pela desventura de não ter conseguido um emprego civilizador na Alcoa, vive no século XIV? Os índios? Os descendentes dos europeus, africanos e asiáticos que transferiram e perpetuaram as trevas medievais em nosso país?

O interessante nessa patacoada toda é a idéia do atraso brasileiro, sugerida pela comparação com a Idade Média. Há, no entanto, alguns fatos importantes que desmentem essa idéia.

Sem enveredar em comparações duvidosas com o estado atual dos países vizinhos, é preciso notar que a política brasileira, em sua própria seqüência interna, alcança agora um novo patamar. Pela primeira vez em nossa história ocorrem quatro eleições presidenciais em que o chefe de Estado é escolhido num quadro de plenas garantias democráticas.

Comparar o período 1945-1964 com 1989-2002 não faz sentido: no primeiro caso não havia ampla liberdade partidária – o Partido Comunista fora proscrito – e o voto de cabresto nas zonas rurais, que comprometia as eleições anteriores a 1945, ainda tinha um peso significativo. Também não tem cabimento pôr em paralelo o impeachment de Collor, em 1992, decidido nos trâmites da Constituição, e o suicídio de Getúlio, sucedido em 1954, em meio a manobras golpistas.

A crise atual deve motivar um aprofundamento da democracia. Tem razão o governador Tasso Jereissati quando afirma que a apreensão de dinheiro na empresa de Roseana Sarney e de seu marido põe em pauta o projeto, protelado há muito tempo, de regulamentação do financiamento das campanhas eleitorais. O debate sobre a autonomia da imprensa, a independência da Justiça, as alianças partidárias, a isenção do presidente da República, a lisura da legislação eleitoral deve ser levado a cabo. Chegou a hora de dar um basta no atraso político brasileiro.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular da
Universidade de Paris – Sorbonne (
abomey@uol.com.br)

 

 
 
   
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