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Luiz
Felipe de Alencastro
Roseana, Joana d'Arc
e a política
"A
apreensão de dinheiro na empresa de Roseana
Sarney e de seu marido põe em pauta o projeto,
protelado há muito
tempo, de regulamentação
do financiamento das campanhas eleitorais"
Ilustração Ale Setti
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A crise da candidatura de Roseana Sarney estourou quando se comemorava
o Dia Internacional da Mulher. Atropelado pelos acontecimentos, o PFL
decidiu juntar tudo numa coisa só, organizando uma homenagem à
data internacional e a Roseana. Num arroubo próprio de campanha
eleitoral, o presidente do partido, Jorge Bornhausen, disse num discurso:
"Nossa candidata não será a Joana d'Arc de nossos adversários".
E mandou ver: "Roseana não vai ser queimada em praça pública
e vai reagir como guerreira".
Joana d'Arc
(1412-1431), filha de um camponês meio sem-terra, era presumidamente
virgem (os historiadores pensam que sim, mas alguns autores de má
língua e de grande gênio Shakespeare, Voltaire, Anatole
France instilaram dúvidas). Em todo caso, ela não
tinha noivo de nenhuma espécie. Sem pai influente, sem marido empresário,
ela saiu sozinha de espada na mão comandando muitos homens. Talvez
por isso, no mundo machista em que vivia, tenha sido traída, acusada
de feitiçaria e queimada, mocinha ainda, numa fogueira em Rouen.
Nessas circunstâncias, as semelhanças entre a santa guerreira
francesa e Roseana Sarney parecem fora de propósito.
Entretanto,
o discurso do presidente do PFL trouxe de volta ao cotidiano da política
brasileira o paralelo com os tempos medievais que já havia sido
esboçado pelo secretário do Tesouro dos Estados Unidos,
Paul O'Neill. No Fórum Econômico Mundial de Nova York, quando
respondia às críticas sobre os altos juros pagos pelo Brasil
nos empréstimos internacionais, O'Neill afirmou que isso se devia
à corrupção reinante no país. Para consertar
o efeito desastroso da declaração, O'Neill manifestou sua
confiança na capacidade dos trabalhadores brasileiros, dando como
prova o treinamento proporcionado no Brasil pela Alcoa empresa
sob sua direção durante vários anos a pessoas
que "viviam no século XIV".
A notícia
saiu em letras miúdas nos jornais, e ninguém deu relevo
à profunda sentença do ministro americano. Cabe então
a pergunta: quem, no Brasil, poucos anos atrás ou ainda hoje, marcado
pela desventura de não ter conseguido um emprego civilizador na
Alcoa, vive no século XIV? Os índios? Os descendentes dos
europeus, africanos e asiáticos que transferiram e perpetuaram
as trevas medievais em nosso país?
O interessante
nessa patacoada toda é a idéia do atraso brasileiro, sugerida
pela comparação com a Idade Média. Há, no
entanto, alguns fatos importantes que desmentem essa idéia.
Sem enveredar
em comparações duvidosas com o estado atual dos países
vizinhos, é preciso notar que a política brasileira, em
sua própria seqüência interna, alcança agora
um novo patamar. Pela primeira vez em nossa história ocorrem quatro
eleições presidenciais em que o chefe de Estado é
escolhido num quadro de plenas garantias democráticas.
Comparar
o período 1945-1964 com 1989-2002 não faz sentido: no primeiro
caso não havia ampla liberdade partidária o Partido
Comunista fora proscrito e o voto de cabresto nas zonas rurais,
que comprometia as eleições anteriores a 1945, ainda tinha
um peso significativo. Também não tem cabimento pôr
em paralelo o impeachment de Collor, em 1992, decidido nos trâmites
da Constituição, e o suicídio de Getúlio,
sucedido em 1954, em meio a manobras golpistas.
A crise
atual deve motivar um aprofundamento da democracia. Tem razão o
governador Tasso Jereissati quando afirma que a apreensão de dinheiro
na empresa de Roseana Sarney e de seu marido põe em pauta o projeto,
protelado há muito tempo, de regulamentação do financiamento
das campanhas eleitorais. O debate sobre a autonomia da imprensa, a independência
da Justiça, as alianças partidárias, a isenção
do presidente da República, a lisura da legislação
eleitoral deve ser levado a cabo. Chegou a hora de dar um basta no atraso
político brasileiro.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular da
Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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