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Roberto
Pompeu de Toledo
Fortuna
e azares do coronel eletrônico
E
se o que vemos
hoje, em
episódios
como
o de Roseana
Sarney,
significar
o desmanche
do coronelismo?
A
esta altura, a figura do coronel eletrônico já está
solidamente implantada no panorama político nacional. Poucos ignoram
o que "coronel eletrônico" significa: o político que, sendo
dono de emissora de TV em seu reduto eleitoral, a usa para a promoção
própria e a desgraça do adversário. Trata-se de uma
evolução da velha figura do coronel não-eletrônico
aquele que ia no tapa mesmo. O velho coronel é tema de um
livro clássico da literatura política brasileira, Coronelismo,
Enxada e Voto, de Victor Nunes Leal. Se fosse escrito hoje, segundo
observou a cientista política Lúcia Hipólito no último
programa Observatório da Imprensa, levado ao ar pela rede
de televisões educativas, esse livro se chamaria Coronelismo,
Concessão e Voto concessão em alusão às
concessões de canais de TV.
Levantamento realizado pela jornalista Elvira Lobato, em reportagem publicada
pela Folha de S.Paulo em agosto do ano passado, indicava que 59,
do total de 250 emissoras de TV comerciais existentes àquela altura
no país, estavam em mãos de políticos. Ou seja: um
quarto do total. Isso sem contar os milhares de retransmissoras, destinadas
apenas a repetir o sinal das geradoras de imagem. O coronelismo eletrônico
tem representantes de alta expressão. Dois ex-presidentes da República
figuram em suas fileiras: José Sarney (dono da TV Mirante, do Maranhão)
e Fernando Collor (TV Gazeta, de Alagoas). Quando se leva em conta que,
do regime militar para cá, tivemos um total de quatro presidentes,
daí resulta que 50% dos ocupantes do cargo, no período,
foram constituídos de políticos que se nutrem eleitoralmente
de impérios televisivos.
Da Presidência para baixo, a festa continua. Governadores como Albano
Franco (Sergipe), Garibaldi Alves (Rio Grande do Norte), Tasso Jereissati
(Ceará) e a filha de Sarney, Roseana (Maranhão), também
se inscrevem entre os donos de TVs. Ex-senadores, como Antonio Carlos
Magalhães e seu arquiinimigo Jader Barbalho, idem. Tome-se um mapa
das concessões de TV, e tem-se um flagrante do atraso brasileiro.
Onde a igualdade de condições de acesso aos meios de comunicação,
onde o livre fluxo de informações? Mas isso tudo é
amplamente sabido, e insistir nessa direção é chover
no molhado. O que se quer aqui é chamar a atenção
para um efeito menos notado do fenômeno o momento em que
o feitiço vira contra o feiticeiro e o suporte eletrônico,
tomado de efeito bumerangue, funciona contra os próprios interesses
do coronel-proprietário.
É
o que acontece, neste momento, no Maranhão. Por que meio a população
local está tomando conhecimento do escândalo que envolve
a governadora Roseana? Resposta: pela TV dos Sarney. É o que aconteceu
igualmente, no ano passado, na Bahia. Por que meio a população
local tomou conhecimento do episódio da violação
do painel eletrônico do Senado? Resposta: pela TV de Antonio Carlos
Magalhães. O leitor já sabe, mas não custa lembrar
que as emissoras espalhadas pelo país integram, como afiliadas,
as grandes redes nacionais. Isso significa que só uma pequena parte
da programação é de geração própria.
O grosso é transmissão em cadeia com a Globo, o SBT, a Bandeirantes
ou a Record, redes das quais recebem as novelas, os shows, os programas
de auditório e, claro, os telejornais de alcance nacional.
No caso da emissora dos Sarney, assim como no da emissora dos Magalhães,
na Bahia, trata-se de afiliadas da Globo. Recebem, portanto, o Jornal
Nacional. Eis então que a TV dos Sarney, nestes últimos
dias, se viu contemplada com um pacote que ia dos terrenos baldios no
lugar onde deveriam estar as fábricas financiadas pela Sudam à
famosa foto da dinheirama encontrada na empresa da governadora e seu marido.
São os ossos do ofício de coronel eletrônico. Restam-lhe,
e isso não é pouco, os noticiários locais. Neles,
ainda se pode expandir à vontade. Quanto aos gerados pela emissora-mãe,
só lhe cabe pôr no ar. Já houve, no passado, quem
escapasse disso com a desculpa de que faltou luz, mas expedientes semelhantes,
hoje em dia, podem resultar em punições decorrentes dos
contratos de afiliação. E isso não é tudo,
em matéria de potenciais aborrecimentos para o coronel. Ele também
tem a obrigação de produzir para as transmissões
em rede, com os próprios repórteres e cinegrafistas de sua
emissora, as reportagens locais, quando de interesse nacional. Às
vezes, calha de a reportagem em questão versar sobre assunto que
ele pagaria para não ver no ar.
A posição ambivalente do coronel eletrônico, todo-poderoso
de um lado, vulnerável de outro, caracteriza aquilo que, em bom
marxês, seria chamado de contradição insanável.
Tal contradição conduz a uma dúvida. Será
que o coronelismo eletrônico estendeu a novas alturas o velho mandonismo?
Ou, ao contrário, contém em si o germe de sua própria
destruição? Dito de outra forma, os coronéis, em
sua versão eletrônica, teriam atingido novo auge? Ou, ao
contrário, episódios como o que assola o clã Sarney
apontariam para o desmanche do coronelismo, vítima de seu próprio
veneno?
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