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Edição 1 743 - 20 de março de 2002
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Os donos da maior
empresa
do mundo

Ilustres desconhecidos, os Walton
transformaram o Wal-Mart na
corporação mais rica do planeta

Amauri Segalla

AP/Spencer Tirev
Jim, John, Robson e Helen Walton: juntos, os herdeiros do Wal-Mart possuem 100 bilhões de dólares, o dobro de Bill Gates


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VEJA de 6/3/2002: o ranking dos maiores bilionários do mundo. Dos dez primeiros da lista, cinco são descendentes do fundador da Wall-Mart

A lista das maiores empresas do mundo divulgada anualmente pela revista americana Fortune apresentará uma novidade. Durante vinte anos, o ranking tem sido dominado por fábricas de automóveis e grupos petrolíferos. Na próxima edição, que sai em abril, o primeiro lugar será ocupado por uma rede de supermercados: o Wal-Mart. Com faturamento anual de 220 bilhões de dólares, o Wal-Mart superou gigantes como Exxon Mobil e General Motors, que se revezaram na liderança nos últimos cinco anos. O Wal-Mart ocupa um lugar de destaque na lista há muitos anos e, na última edição da Fortune, já estava em segundo lugar, atrás da Exxon, com um faturamento de 193 bilhões de dólares. Registrando um fabuloso crescimento de 14%, observe que o Wal-Mart faturou 27 bilhões de dólares a mais de um ano para o outro. Só essa diferença equivale ao faturamento somado das cinco maiores empresas brasileiras. Por ironia, o sucesso retumbante ocorreu num ano em que a economia americana registrou crescimento inexpressivo. Isso foi possível porque, para evitar gastos, os americanos concentraram suas despesas em lojas que vendem produtos mais baratos, como é o caso do Wal-Mart. E, como a rede realiza 60% das vendas de varejo nos Estados Unidos, deu-se o grande salto.

 

Rogério Voltan
Loja do Wal-Mart no Brasil: faturamento no país cresceu 20% em 2001

Com números colossais, o Wal-Mart é o maior exemplo de companhias que têm porte de nações. Seu faturamento é superior ao produto interno bruto de 169 dos 192 países do mundo. Cerca de 100 milhões de pessoas – pouco menos que um Japão inteiro – passam todos os dias por seus 4.414 pontos-de-venda, contabilizadas as lojas americanas e aquelas instaladas no exterior. Apesar de todo esse gigantismo, a família fundadora da organização, os Walton, consegue manter uma vida discreta, avessa a badalações. O fundador do grupo, Sam Walton, já falecido, tinha um lema a respeito de dinheiro e publicidade: o ideal é ganhar o máximo de dinheiro possível e não deixar que o mundo saiba disso. Funcionou durante algum tempo, enquanto os dados a respeito das companhias, e de seus donos, não eram acompanhados por investidores e fiscais. Os milionários ainda conseguem defender-se da exposição. O mesmo não se pode dizer dos bilionários, ainda mais quando a família tem não 1 bilhão ou 10 bilhões de dólares, mas 100 bilhões, como os Walton. Segundo a revista Forbes, entre as dez pessoas mais ricas do planeta, os herdeiros do Wal-Mart ocupam cinco posições. Juntos, a matriarca, Helen Walton, e seus filhos Jim, John, Robson e Alice possuem 100 bilhões de dólares, o dobro do patrimônio financeiro de Bill Gates. Em outra lista dos mais ricos do planeta, preparada pelo jornal inglês The Sunday Times, a família também aparece como a mais rica do mundo.


A saga da família começou em 1962, quando Sam Walton transformou um bazar de miudezas na mais bem-sucedida loja de descontos dos Estados Unidos. Seu segredo: vender muito a preço baixo. Para conseguir cobrar menos que os concorrentes, "Tio Sam", como era chamado pelos funcionários, tinha fixação por reduzir custos. Ele proibia despesas com material de escritório, e até seus principais executivos eram orientados a usar canetas recebidas de brinde. Essa preocupação em economizar o máximo possível também se estendia à vida pessoal. Apesar de ser um dos homens mais ricos do mundo, andava numa picape velha, com os pára-choques amassados. Até o fim da vida, cortava o cabelo em um barbeiro por 5 dólares e se recusava a pagar mais de 10 por uma gravata. Morto em 1992, Sam Walton deixou 25 bilhões de dólares em ações para a mulher e os quatro filhos.

Pouco antes de morrer, Sam Walton elegeu o filho mais velho, Robson, para suceder a ele no comando dos negócios da família. Apesar de dirigir a maior corporação do planeta, Robson Walton não desfruta no meio empresarial a mesma popularidade de Bill Gates, da Microsoft, ou de Jack Welch, que dedicou quatro décadas de sua vida à General Electric. Assim como seu pai, ele é tido como um caipira sortudo. Essa diferença de tratamento pode ser verificada em diversas situações. No fim do ano passado, a General Electric e o Wal-Mart fizeram anúncios importantes ao mercado. A novidade da GE era bombástica. Referia-se à aposentadoria do principal executivo da empresa, Jack Welch, e se tornou o assunto mais comentado no mundo dos negócios. Já o informe do supermercado, relativo ao espantoso aumento no faturamento anual, não chamou muita atenção.

 
AP/Richard Vogel
Divulgação
Propaganda da GE no Vietnã e o executivo Jack Welch, que em vinte anos transformou a empresa numa gigante mundial: hoje, as maiores companhias do planeta têm números tão colossais que podem ser comparados aos de nações

Robson Walton tem um estilo parecido com o do pai. Recentemente, baixou uma norma que obriga seus executivos a dividir o quarto de hotel em viagens de negócios. Como o pai, usa ternos baratos e raramente dá gorjetas. Para ele, mais que uma empresa, o Wal-Mart é uma religião. De fato, os funcionários aprendem desde cedo a reverenciar Sam Walton como um deus. Os diretores da companhia vivem criando gritos de guerra e estimulam os empregados a repeti-los algumas vezes por dia. Essa visão quase religiosa dos fundadores faz parte do treinamento dos funcionários nos dez países onde o Wal-Mart atua. No Brasil, os principais diretores da companhia receberam um exemplar do livro autobiográfico de Sam Walton. O grupo está no país há sete anos e vem crescendo a boas taxas. No último ano, seu faturamento aumentou 20%, chegando a 1,5 bilhão de reais. Isso ainda é pouco se comparado ao das duas maiores redes: Pão de Açúcar e Carrefour, que vendem, somadas, quase 20 bilhões de reais.

O varejo é um dos setores mais cruéis da economia, em que é preciso negociar um volume elevado de produtos para compensar a margem de lucro, que precisa ser baixa caso a empresa pretenda ser competitiva. Quem não consegue guiar-se por essa lei quebra. Recentemente, o Wal-Mart entrou numa guerra de preços com um concorrente importante nos Estados Unidos, a rede Kmart. A Kmart é um grupo expressivo, com mais de 2.000 lojas e faturamento de 37 bilhões de dólares. Conhecida por oferecer uma gama de produtos mais sofisticados (e mais caros, obviamente), a Kmart acreditava que podia concorrer com sua maior rival tentando atrair o consumidor pela qualidade. Como os clientes queriam preço baixo, a estratégia não funcionou, e a Kmart reduziu o preço de 40.000 artigos. Com uma rede de distribuição mais eficiente, o Wal-Mart contra-atacou e ofereceu descontos ainda maiores. Foi o golpe de misericórdia que acabou levando a concorrente a pedir concordata.

 



 
 
   
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