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Edição 1 743 - 20 de março de 2002
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O Cony é coisa nossa

"Cony vendeu uma crônica para um
anúncio do BNDES. O mesmo BNDES que
o levou a escrever uma série de artigos contra o
governo quatro anos atrás"

Eu já peguei no pé de Carlos Heitor Cony. Infelizmente, sou obrigado a pegar de novo. Na época da privatização da Telebrás, ele escreveu uma série de artigos inflamados contra o governo, dizendo que "entregar tudo à iniciativa privada, por um preço de banana, é no mínimo suspeito". Mais tarde, quando vieram à tona os grampos telefônicos no BNDES, ele passou a esbravejar contra as negociatas "escandalosas", os leilões "catimbados", o "mar de lama". Chegou até a defender o afastamento de Fernando Henrique Cardoso do cargo, conclamando a população a manifestar sua revolta nas ruas, "pelos homens de bem e de vergonha na cara". Cony estava certo. O dever de um escritor é esse mesmo: desconfiar de tudo e, sempre que possível, amolar os poderosos. O problema é que agora, quatro anos depois, ele aceitou vender uma crônica – muito simpática e bem escrita, claro – para um anúncio do BNDES. Por mais surpreendente que possa parecer, o anúncio exalta o papel do BNDES na "escandalosa" e "catimbada" privatização da Telebrás. Não consegui apurar quanto Cony cobrou por seus serviços. Espero que, para compensar o vexame, não tenha sido um preço de banana.

A campanha publicitária do BNDES também conta com crônicas de Nélida Piñon, Gilberto Gil, João Ubaldo Ribeiro e Nelson Motta. Não tenho nada contra esses bicos para o governo. No Brasil, todos os escritores vivem de dinheiro público. Nossa literatura não conseguiria sobreviver autonomamente, sem a ajuda estatal. Veja o caso de Nélida Piñon. Além do texto para o BNDES, em louvor à geladeira ("alva e altaneira", "um totem urbano", "orgulho nacional"), ela é membro da Academia Brasileira de Letras, participa do Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro, dá palestras em universidades federais, viaja para a Feira do Livro de Guadalajara a convite da Biblioteca Nacional, publica contos através do Fundo de Cultura Econômica e fila bóia no almoço oferecido ao presidente da Romênia pelo governador Anthony Garotinho, que cita seus livros de cor.

Para se ter uma idéia mais exata da absoluta dependência da nossa literatura em relação ao poder público, recomendo O Preço da Leitura, de Marisa Lajolo e Regina Zilberman. Por meio da análise detalhada de leis, cartas, contratos, planilhas e recibos, as autoras demonstram que, ao longo da história, a atividade de escritor só existiu entre nós como gentil concessão governamental. Até hoje é assim. De fato, o Estado é responsável por mais da metade do faturamento do mercado editorial brasileiro, sem contar o dinheiro distribuído sob a forma de prêmios, subsídios fiscais, empregos no setor público e campanhas publicitárias do BNDES. Para Marisa Lajolo e Regina Zilberman, o mecenato estatal contribuiu para atrofiar a literatura brasileira, impedindo-a de se profissionalizar e causando graves deformações em nossos escritores, que se especializaram no conchavo, na troca de favores, na adulação, na falta de caráter. Só não sei se todo esse investimento público em literatura dá o retorno esperado. Acho que não. Nosso mundo das letras é mais ou menos como a Usimar, a fraudadora maranhense da Sudam: muito dinheiro público descendo pelo ralo.

 
 
   
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