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O
czar do comércio
Americano afirma que não há contradição
entre os EUA pregarem o livre comércio
e adotarem medidas protecionistas
Eduardo
Salgado
AP/Photo/Eraldo Peres
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"Uma
das forças do Brasil é encarar os problemas. São
os brasileiros que dizem que
a corrupção é um problema"
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Robert
Zoellick é o principal assessor do presidente George W. Bush para
assuntos de comércio e o negociador-chefe de seu país em
todas as questões envolvendo os negócios internacionais.
Ou seja, é o homem com quem o Brasil deve discutir as barreiras
americanas às exportações brasileiras. Há
pouco mais de um ano no cargo de representante comercial dos Estados Unidos,
Zoellick já trabalhou no departamento do Tesouro no governo de
Ronald Reagan e no departamento de Estado na época de George Bush
pai. Também participou das conversações para a criação
do Nafta, a área de livre comércio na América do
Norte. Em qualquer ocasião, ele defende a tese de que a integração
econômica não apenas é a base da prosperidade, mas
também da democracia e da liberdade. Em visita ao Brasil na semana
passada, Zoellick precisou de toda a sua habilidade para justificar a
proteção dada pelo governo Bush aos fabricantes americanos
de aço, que desencadeou protestos no mundo inteiro. Aos 48 anos,
ele vive com a mulher na região de Washington e tem como passatempo
correr. Zoellick falou a VEJA em Brasília.
Veja O senhor disse na semana passada que no Brasil havia
muita corrupção. Não é estranha essa afirmação
no momento em que o governo americano enfrenta o escândalo da Enron?
Zoellick
Antes de mais nada, não existem alegações de que
o governo americano tenha realizado ações ilegais no caso
Enron. Quando representantes da empresa procuraram o governo para pedir
ajuda, não foram beneficiados. O problema da Enron foi na área
de padrões de contabilidade. Tomei muito cuidado quando fiz os
comentários sobre a corrupção no Brasil e citei um
trabalho da Fundação Getúlio Vargas, uma fonte brasileira.
Uma das grandes forças do país é encarar seus problemas.
São os próprios brasileiros que dizem que a corrupção
é um problema.
Veja O senhor já disse que "tarifas de importação
prejudicam as pessoas mais pobres". Como, então, defender as tarifas
impostas pelos Estados Unidos às importações de aço?
Zoellick
Foi uma decisão muito difícil para o presidente e para mim.
Há regras na Organização Mundial do Comércio
(OMC) que dizem o seguinte: nos casos em que um setor sofre danos substanciais
por causa de um grande aumento das importações, o país
pode impor salvaguardas temporariamente. Eu gostaria de repetir a palavra
"temporariamente". Essa medida permite que o setor afetado possa respirar
enquanto se levanta. O caso mais famoso nos Estados Unidos foi o da Harley-Davidson,
a fabricante de motocicletas. A empresa estava prestes a falir, mas, graças
à imposição de salvaguardas e tarifas temporárias,
conseguiu se reestruturar.
Veja A impressão que se tem é que quando suas
empresas são competitivas os americanos abrem seu comércio.
Quando não são, fecham. Trata-se de uma abertura somente
quando não dói?
Zoellick
Não acho uma análise justa. Nossa tarifa média é
menor que 3%. Sessenta e sete por cento dos produtos que compramos do
Brasil são isentos de tarifa. Temos um programa que facilita a
entrada de produtos de países em desenvolvimento, e o Brasil está
entre as três nações mais beneficiadas. Importamos
1,7 bilhão de dólares de produtos agrícolas do Brasil.
Exportamos algo abaixo de 300 milhões. À medida que as economias
se tornam mais integradas, um dos fatores que observamos é que
o comércio ocorre em mão dupla. Desde a criação
do Nafta, nossas transações explodiram tanto com o México
quanto com o Canadá. O problema é que muita gente ainda
examina o comércio a partir de um ponto de vista mercantilista.
Acham que importações são ruins e exportações
são boas. Isso é um erro. Os Estados Unidos têm setores
que ainda estão protegidos. O mesmo acontece com os outros países.
A longo prazo, a melhor coisa que o Brasil, os Estados Unidos e os demais
países da América têm a fazer é reduzir juntos
as tarifas. Essa é uma das razões pelas quais o presidente
Bush é um grande defensor da Área de Livre Comércio
das Américas (Alca).
Veja Um estudo da embaixada brasileira em Washington indica
que para os quinze produtos mais exportados pelo Brasil a tarifa média
cobrada nos Estados Unidos é 45,6%. No caso dos quinze produtos
mais exportados pelos Estados Unidos, a tarifa cobrada pelo Brasil é
14,3%.
Zoellick
Esse trabalho foi parcial. As vendas desses produtos nos Estados Unidos
totalizaram 4 bilhões de dólares. Já nossas exportações
para o Brasil somam 2,7 bilhões. Como isso pode ter acontecido?
Os autores desse trabalho pegaram dois produtos: açúcar
e fumo. Ambos têm tarifas altas para os exportadores que ultrapassam
a cota. No caso do açúcar, é 236%. No do fumo, 340%.
Se você tira esses dois itens, a média encontrada nesse estudo
cai de 45,6% para 7,6%. Não nego que o açúcar e o
fumo americanos são protegidos. Mas o Brasil também tem
áreas protegidas.
Veja Estima-se que o Brasil poderia exportar 5 bilhões
de dólares extras por ano para os Estados Unidos se não
fosse as barreiras na área agrícola.
Zoellick
Não conheço esses estudos. O que sei é que o Brasil
e os Estados Unidos são dois países bons na área
agrícola. Assim como no Brasil, muitos agricultores americanos
dependem do mercado externo. É por isso que estamos trabalhando
juntos na Organização Mundial do Comércio para tentar
reduzir as barreiras alfandegárias. Estamos fazendo pressão
contra a União Européia, o Japão e outros países
que empregam muito mais subsídios e impõem barreiras muito
maiores. Sei que a questão dos subsídios é frustrante
para os brasileiros. Nós ainda temos 70 milhões de dólares
em subsídios para a exportação. A União Européia
tem 5 bilhões ou 6 bilhões de dólares. Estamos dispostos
a negociar e reduzir esses subsídios, mas não podemos fazer
isso sozinhos. Precisamos ter certeza de que os europeus e os japoneses
vão fazer o mesmo. No comércio de produtos agrícolas,
o Brasil e os Estados Unidos defendem a eliminação completa
de subsídios. Note que o Brasil ainda tem tarifas altas para vários
produtos, como trigo, milho, aves, porcos e frutas. Embora os Estados
Unidos e o Brasil sejam competidores na área agrícola, podemos
ser parceiros. Nosso interesse comum é que o mundo reduza as barreiras
comerciais.
Veja Durante anos os empresários brasileiros ouviram
de funcionários americanos o seguinte: tornem-se eficientes e competitivos
que vocês terão maior acesso a mercados externos. Os empresários
do aço fizeram exatamente isso. O que ganharam dos Estados Unidos?
Cotas?
Zoellick
Nossas estimativas indicam que cerca de 87% das exportações
brasileiras não serão afetadas. A América toda foi
pouco afetada. Nossa mensagem é a seguinte: reconhecemos os esforços
feitos pelo Brasil e tentamos levá-los em consideração.
Eu ainda encorajaria o Brasil a continuar no caminho do livre comércio
porque nossa decisão excluiu os países com os quais temos
acordos de livre comércio. O governo brasileiro fez um progresso
enorme ao abrir sua economia. Mas ainda tem o que fazer. A tarifa média
no Brasil está por volta de 13%. Nos Estados Unidos, é menor
que 3%. No primeiro ano das salvaguardas para o aço, os Estados
Unidos vão cobrar uma tarifa de 31%. O Brasil tem uma tarifa de
35% para automóveis. Na área de computadores, cobra 30%
e impostos adicionais, que elevam o preço final em cerca de 100%.
Essa é uma das razões que fazem com que poucos brasileiros
tenham computador.
Veja Ao impor barreiras comerciais, que exemplo está
dando a Casa Branca aos governos que enfrentam resistência ao livre
comércio dentro da própria casa?
Zoellick
Há quatro mensagens. Primeira: país que tem acordo de livre
comércio com os Estados Unidos recebe tratamento especial. É
uma boa mensagem porque ajuda a fortalecer aqueles que querem firmar tais
acordos. Segunda: estamos sinalizando uma política de tratamento
especial para os países em desenvolvimento. Também é
boa a mensagem porque muitos líderes políticos do mundo
em desenvolvimento estão lutando pelo livre comércio. Terceira:
estamos enviando uma mensagem para os próprios americanos. Se um
determinado setor sofreu com importações em um pequeno período
de tempo, vamos usar as regras internacionais para que tenha condições
de respirar. Temos de fazer isso porque muita gente perdeu o emprego nos
Estados Unidos. A quarta mensagem: as salvaguardas para o aço têm
relação com outras decisões do presidente Bush. O
que as propostas do presidente estão tentando dizer ao resto do
mundo: vamos chegar a um acordo na questão da capacidade de produção
e de práticas desleais.
Veja O senhor não acha uma contradição
tomar uma medida protecionista para dizer ao mundo que o melhor caminho
é o livre comércio?
Zoellick
Não considero a questão do aço uma medida protecionista
porque é salvaguarda temporária. Se fosse um aumento permanente
das tarifas, seria protecionismo. Francamente, se o resto do mundo está
preocupado, pedimos aos países que se unam a nós nas negociações
globais e tentem examinar essas práticas. Por exemplo: no ano passado,
a China deu 6 bilhões de dólares em subsídios para
suas siderúrgicas. Se o mercado tem sido injusto e manipulado pelos
governos, temos de tomar medidas temporárias enquanto tentamos
resolver os problemas de longo prazo.
Veja Historicamente, medidas tomadas para proteger indústrias
ineficientes não são bem-sucedidas. O que leva o senhor
a pensar que será diferente desta vez?
Zoellick
Nosso objetivo não é proteger o setor siderúrgico.
É dar tempo para que respire enquanto se reestrutura. Acredito
que ao fim de três anos o setor siderúrgico vá estar
mais eficiente nos Estados Unidos. Não somos o único país
a usar salvaguardas. Há vinte medidas como essa hoje em dia. O
Brasil tem uma para o setor de brinquedos. Suspeito que esteja preocupado
com as importações da China.
Veja O Brasil fez concessões na área comercial
para ajudar a Argentina neste momento de crise. Os Estados Unidos estudam
algo nesse sentido?
Zoellick
Nossas tarifas para os produtos argentinos já são baixas.
A grande questão são as ações que o governo
da Argentina tomará em termos do orçamento e na área
financeira. Espero que essas ações permitam a execução
de um programa de ajuda do FMI e contribuam para reestruturar o sistema
bancário daquele país. O Brasil tinha uma relação
comercial mais complexa com a Argentina por causa do Mercosul. A desvalorização
do real teve um efeito muito negativo no comércio argentino porque
o peso estava amarrado ao dólar. Como vizinhos, há alguns
temas que o Brasil e a Argentina precisam resolver. Num âmbito mais
amplo, a questão é como os Estados Unidos podem trabalhar
com o Brasil para dar apoio aos argentinos.
Veja Qual é o lugar ocupado pela Argentina na lista
de prioridades do governo Bush?
Zoellick
Não encaro isso como uma lista. Estamos numa guerra contra o terrorismo,
e obviamente esse é um assunto de extrema importância. Mas
a Argentina é um país muito importante para os Estados Unidos.
Há evidências disso. Quando o presidente Bush assumiu o cargo,
a primeira reunião de cúpula de que participou foi com os
países da América.
Veja Quais são os desafios que o próximo presidente
do Brasil terá de enfrentar?
Zoellick
Visitei o Brasil também para ouvir a opinião do governo
e do setor privado sobre o futuro do país. Vim para aprender. Isso
mostra nosso interesse no Brasil e na região. Acho que os desafios
do próximo governo são seguir o caminho que o presidente
Fernando Henrique Cardoso abriu. Certamente, há mais trabalho a
fazer em termos de privatização, liberalização
comercial, desregulamentação. Acredito que a longo prazo
essas medidas vão transformar o Brasil em uma economia poderosa
no comércio mundial. Mas não é fácil partir
do ponto atual e chegar a essa condição.
Veja Quais são os riscos de uma nova onda protecionista
no mundo?
Zoellick
Isso dependerá de os países seguirem as regras ou não.
Tentamos respeitar as da OMC. Não estamos dizendo que estamos acima
das leis. Se tem gente que não concorda, vamos debater e, no fim,
deixar que a OMC decida. A resposta a essa pergunta vai depender muito
da seguinte questão: ou alguns países vão usar o
caso do aço como desculpa para o protecionismo ou vão seguir
as leis internacionais. No ano passado, os Estados Unidos tiveram um déficit
comercial de 427 bilhões de dólares. Compramos muito do
resto do mundo. À medida que nossa economia voltar a crescer, vamos
comprar mais ainda. O maior perigo seria se nós não tivéssemos
condições de lidar com alguns dos setores sensíveis.
Se não conseguíssemos manter nosso mercado tão aberto
quanto é.
Veja Antes de 11 de setembro, a América Latina era
uma das prioridades do governo Bush. Isso mudou?
Zoellick
A América Latina continua sendo prioridade. Um de meus objetivos
com a visita ao Brasil é discutir questões como crescimento,
liberalização comercial, a situação no Cone
Sul. O presidente Bush foi governador do Texas e tem interesse em assuntos
relacionados ao Nafta. Estamos em via de finalizar um acordo de livre
comércio com o Chile neste ano. Vamos começar outro com
os países da América Central e estamos trabalhando duro
para a criação da Alca. Temos um compromisso com o sucesso
dos países da América porque sabemos que vários deles
deram passos importantes nas áreas de reforma econômica.
Muitos têm democracias frágeis. Por isso, temos de resistir
à tentação de voltar para trás. Isso apenas
prejudicará milhões de pessoas que começaram a sair
do estado de pobreza.
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