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Edição 1 743 - 20 de março de 2002
Entrevista: Robert Zoellick

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O czar do comércio

Americano afirma que não há contradição
entre os EUA pregarem o livre comércio
e adotarem medidas protecionistas

Eduardo Salgado

 
AP/Photo/Eraldo Peres
"Uma das forças do Brasil é encarar os problemas. São os brasileiros que dizem que a corrupção é um problema"

Robert Zoellick é o principal assessor do presidente George W. Bush para assuntos de comércio e o negociador-chefe de seu país em todas as questões envolvendo os negócios internacionais. Ou seja, é o homem com quem o Brasil deve discutir as barreiras americanas às exportações brasileiras. Há pouco mais de um ano no cargo de representante comercial dos Estados Unidos, Zoellick já trabalhou no departamento do Tesouro no governo de Ronald Reagan e no departamento de Estado na época de George Bush pai. Também participou das conversações para a criação do Nafta, a área de livre comércio na América do Norte. Em qualquer ocasião, ele defende a tese de que a integração econômica não apenas é a base da prosperidade, mas também da democracia e da liberdade. Em visita ao Brasil na semana passada, Zoellick precisou de toda a sua habilidade para justificar a proteção dada pelo governo Bush aos fabricantes americanos de aço, que desencadeou protestos no mundo inteiro. Aos 48 anos, ele vive com a mulher na região de Washington e tem como passatempo correr. Zoellick falou a VEJA em Brasília.

Veja – O senhor disse na semana passada que no Brasil havia muita corrupção. Não é estranha essa afirmação no momento em que o governo americano enfrenta o escândalo da Enron?
Zoellick – Antes de mais nada, não existem alegações de que o governo americano tenha realizado ações ilegais no caso Enron. Quando representantes da empresa procuraram o governo para pedir ajuda, não foram beneficiados. O problema da Enron foi na área de padrões de contabilidade. Tomei muito cuidado quando fiz os comentários sobre a corrupção no Brasil e citei um trabalho da Fundação Getúlio Vargas, uma fonte brasileira. Uma das grandes forças do país é encarar seus problemas. São os próprios brasileiros que dizem que a corrupção é um problema.  

Veja – O senhor já disse que "tarifas de importação prejudicam as pessoas mais pobres". Como, então, defender as tarifas impostas pelos Estados Unidos às importações de aço?
Zoellick – Foi uma decisão muito difícil para o presidente e para mim. Há regras na Organização Mundial do Comércio (OMC) que dizem o seguinte: nos casos em que um setor sofre danos substanciais por causa de um grande aumento das importações, o país pode impor salvaguardas temporariamente. Eu gostaria de repetir a palavra "temporariamente". Essa medida permite que o setor afetado possa respirar enquanto se levanta. O caso mais famoso nos Estados Unidos foi o da Harley-Davidson, a fabricante de motocicletas. A empresa estava prestes a falir, mas, graças à imposição de salvaguardas e tarifas temporárias, conseguiu se reestruturar.

Veja – A impressão que se tem é que quando suas empresas são competitivas os americanos abrem seu comércio. Quando não são, fecham. Trata-se de uma abertura somente quando não dói?
Zoellick – Não acho uma análise justa. Nossa tarifa média é menor que 3%. Sessenta e sete por cento dos produtos que compramos do Brasil são isentos de tarifa. Temos um programa que facilita a entrada de produtos de países em desenvolvimento, e o Brasil está entre as três nações mais beneficiadas. Importamos 1,7 bilhão de dólares de produtos agrícolas do Brasil. Exportamos algo abaixo de 300 milhões. À medida que as economias se tornam mais integradas, um dos fatores que observamos é que o comércio ocorre em mão dupla. Desde a criação do Nafta, nossas transações explodiram tanto com o México quanto com o Canadá. O problema é que muita gente ainda examina o comércio a partir de um ponto de vista mercantilista. Acham que importações são ruins e exportações são boas. Isso é um erro. Os Estados Unidos têm setores que ainda estão protegidos. O mesmo acontece com os outros países. A longo prazo, a melhor coisa que o Brasil, os Estados Unidos e os demais países da América têm a fazer é reduzir juntos as tarifas. Essa é uma das razões pelas quais o presidente Bush é um grande defensor da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).

Veja – Um estudo da embaixada brasileira em Washington indica que para os quinze produtos mais exportados pelo Brasil a tarifa média cobrada nos Estados Unidos é 45,6%. No caso dos quinze produtos mais exportados pelos Estados Unidos, a tarifa cobrada pelo Brasil é 14,3%.
Zoellick – Esse trabalho foi parcial. As vendas desses produtos nos Estados Unidos totalizaram 4 bilhões de dólares. Já nossas exportações para o Brasil somam 2,7 bilhões. Como isso pode ter acontecido? Os autores desse trabalho pegaram dois produtos: açúcar e fumo. Ambos têm tarifas altas para os exportadores que ultrapassam a cota. No caso do açúcar, é 236%. No do fumo, 340%. Se você tira esses dois itens, a média encontrada nesse estudo cai de 45,6% para 7,6%. Não nego que o açúcar e o fumo americanos são protegidos. Mas o Brasil também tem áreas protegidas.

Veja – Estima-se que o Brasil poderia exportar 5 bilhões de dólares extras por ano para os Estados Unidos se não fosse as barreiras na área agrícola.
Zoellick – Não conheço esses estudos. O que sei é que o Brasil e os Estados Unidos são dois países bons na área agrícola. Assim como no Brasil, muitos agricultores americanos dependem do mercado externo. É por isso que estamos trabalhando juntos na Organização Mundial do Comércio para tentar reduzir as barreiras alfandegárias. Estamos fazendo pressão contra a União Européia, o Japão e outros países que empregam muito mais subsídios e impõem barreiras muito maiores. Sei que a questão dos subsídios é frustrante para os brasileiros. Nós ainda temos 70 milhões de dólares em subsídios para a exportação. A União Européia tem 5 bilhões ou 6 bilhões de dólares. Estamos dispostos a negociar e reduzir esses subsídios, mas não podemos fazer isso sozinhos. Precisamos ter certeza de que os europeus e os japoneses vão fazer o mesmo. No comércio de produtos agrícolas, o Brasil e os Estados Unidos defendem a eliminação completa de subsídios. Note que o Brasil ainda tem tarifas altas para vários produtos, como trigo, milho, aves, porcos e frutas. Embora os Estados Unidos e o Brasil sejam competidores na área agrícola, podemos ser parceiros. Nosso interesse comum é que o mundo reduza as barreiras comerciais.

Veja – Durante anos os empresários brasileiros ouviram de funcionários americanos o seguinte: tornem-se eficientes e competitivos que vocês terão maior acesso a mercados externos. Os empresários do aço fizeram exatamente isso. O que ganharam dos Estados Unidos? Cotas?
Zoellick – Nossas estimativas indicam que cerca de 87% das exportações brasileiras não serão afetadas. A América toda foi pouco afetada. Nossa mensagem é a seguinte: reconhecemos os esforços feitos pelo Brasil e tentamos levá-los em consideração. Eu ainda encorajaria o Brasil a continuar no caminho do livre comércio porque nossa decisão excluiu os países com os quais temos acordos de livre comércio. O governo brasileiro fez um progresso enorme ao abrir sua economia. Mas ainda tem o que fazer. A tarifa média no Brasil está por volta de 13%. Nos Estados Unidos, é menor que 3%. No primeiro ano das salvaguardas para o aço, os Estados Unidos vão cobrar uma tarifa de 31%. O Brasil tem uma tarifa de 35% para automóveis. Na área de computadores, cobra 30% e impostos adicionais, que elevam o preço final em cerca de 100%. Essa é uma das razões que fazem com que poucos brasileiros tenham computador.

Veja – Ao impor barreiras comerciais, que exemplo está dando a Casa Branca aos governos que enfrentam resistência ao livre comércio dentro da própria casa?
Zoellick – Há quatro mensagens. Primeira: país que tem acordo de livre comércio com os Estados Unidos recebe tratamento especial. É uma boa mensagem porque ajuda a fortalecer aqueles que querem firmar tais acordos. Segunda: estamos sinalizando uma política de tratamento especial para os países em desenvolvimento. Também é boa a mensagem porque muitos líderes políticos do mundo em desenvolvimento estão lutando pelo livre comércio. Terceira: estamos enviando uma mensagem para os próprios americanos. Se um determinado setor sofreu com importações em um pequeno período de tempo, vamos usar as regras internacionais para que tenha condições de respirar. Temos de fazer isso porque muita gente perdeu o emprego nos Estados Unidos. A quarta mensagem: as salvaguardas para o aço têm relação com outras decisões do presidente Bush. O que as propostas do presidente estão tentando dizer ao resto do mundo: vamos chegar a um acordo na questão da capacidade de produção e de práticas desleais.

Veja – O senhor não acha uma contradição tomar uma medida protecionista para dizer ao mundo que o melhor caminho é o livre comércio?
Zoellick – Não considero a questão do aço uma medida protecionista porque é salvaguarda temporária. Se fosse um aumento permanente das tarifas, seria protecionismo. Francamente, se o resto do mundo está preocupado, pedimos aos países que se unam a nós nas negociações globais e tentem examinar essas práticas. Por exemplo: no ano passado, a China deu 6 bilhões de dólares em subsídios para suas siderúrgicas. Se o mercado tem sido injusto e manipulado pelos governos, temos de tomar medidas temporárias enquanto tentamos resolver os problemas de longo prazo.

Veja – Historicamente, medidas tomadas para proteger indústrias ineficientes não são bem-sucedidas. O que leva o senhor a pensar que será diferente desta vez?
Zoellick – Nosso objetivo não é proteger o setor siderúrgico. É dar tempo para que respire enquanto se reestrutura. Acredito que ao fim de três anos o setor siderúrgico vá estar mais eficiente nos Estados Unidos. Não somos o único país a usar salvaguardas. Há vinte medidas como essa hoje em dia. O Brasil tem uma para o setor de brinquedos. Suspeito que esteja preocupado com as importações da China.

Veja – O Brasil fez concessões na área comercial para ajudar a Argentina neste momento de crise. Os Estados Unidos estudam algo nesse sentido?
Zoellick – Nossas tarifas para os produtos argentinos já são baixas. A grande questão são as ações que o governo da Argentina tomará em termos do orçamento e na área financeira. Espero que essas ações permitam a execução de um programa de ajuda do FMI e contribuam para reestruturar o sistema bancário daquele país. O Brasil tinha uma relação comercial mais complexa com a Argentina por causa do Mercosul. A desvalorização do real teve um efeito muito negativo no comércio argentino porque o peso estava amarrado ao dólar. Como vizinhos, há alguns temas que o Brasil e a Argentina precisam resolver. Num âmbito mais amplo, a questão é como os Estados Unidos podem trabalhar com o Brasil para dar apoio aos argentinos.

Veja – Qual é o lugar ocupado pela Argentina na lista de prioridades do governo Bush?
Zoellick – Não encaro isso como uma lista. Estamos numa guerra contra o terrorismo, e obviamente esse é um assunto de extrema importância. Mas a Argentina é um país muito importante para os Estados Unidos. Há evidências disso. Quando o presidente Bush assumiu o cargo, a primeira reunião de cúpula de que participou foi com os países da América.

Veja – Quais são os desafios que o próximo presidente do Brasil terá de enfrentar?
Zoellick – Visitei o Brasil também para ouvir a opinião do governo e do setor privado sobre o futuro do país. Vim para aprender. Isso mostra nosso interesse no Brasil e na região. Acho que os desafios do próximo governo são seguir o caminho que o presidente Fernando Henrique Cardoso abriu. Certamente, há mais trabalho a fazer em termos de privatização, liberalização comercial, desregulamentação. Acredito que a longo prazo essas medidas vão transformar o Brasil em uma economia poderosa no comércio mundial. Mas não é fácil partir do ponto atual e chegar a essa condição.

Veja – Quais são os riscos de uma nova onda protecionista no mundo?
Zoellick – Isso dependerá de os países seguirem as regras ou não. Tentamos respeitar as da OMC. Não estamos dizendo que estamos acima das leis. Se tem gente que não concorda, vamos debater e, no fim, deixar que a OMC decida. A resposta a essa pergunta vai depender muito da seguinte questão: ou alguns países vão usar o caso do aço como desculpa para o protecionismo ou vão seguir as leis internacionais. No ano passado, os Estados Unidos tiveram um déficit comercial de 427 bilhões de dólares. Compramos muito do resto do mundo. À medida que nossa economia voltar a crescer, vamos comprar mais ainda. O maior perigo seria se nós não tivéssemos condições de lidar com alguns dos setores sensíveis. Se não conseguíssemos manter nosso mercado tão aberto quanto é.

Veja – Antes de 11 de setembro, a América Latina era uma das prioridades do governo Bush. Isso mudou?
Zoellick – A América Latina continua sendo prioridade. Um de meus objetivos com a visita ao Brasil é discutir questões como crescimento, liberalização comercial, a situação no Cone Sul. O presidente Bush foi governador do Texas e tem interesse em assuntos relacionados ao Nafta. Estamos em via de finalizar um acordo de livre comércio com o Chile neste ano. Vamos começar outro com os países da América Central e estamos trabalhando duro para a criação da Alca. Temos um compromisso com o sucesso dos países da América porque sabemos que vários deles deram passos importantes nas áreas de reforma econômica. Muitos têm democracias frágeis. Por isso, temos de resistir à tentação de voltar para trás. Isso apenas prejudicará milhões de pessoas que começaram a sair do estado de pobreza.

 
 
   
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