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Edição 1 743 - 20 de março de 2002
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Sérgio Abranches

As águas vão rolar

"Em período tão distante da campanha
eleitoral real, as pesquisas são vulneráveis
a qualquer turbulência de conjuntura"



Ilustração Ale Setti


A eleição presidencial deste ano já assumiu características singulares que a marcarão até o final. A mais importante delas foi o descolamento radical entre o processo político e o calendário eleitoral. Só existe um bicho mais assustadiço e volátil que investidor nos mercados de risco: o político. A falta de candidaturas naturais e o fato de que no ano passado o desempenho da economia alimentava franca rejeição ao governo deixaram os políticos do campo governista com os nervos à flor da pele. Imaginando que a eleição estava nas mãos da oposição, saíram correndo à cata de candidatos que representassem alternativas à oposição e ao governo. Essa procura acendeu as vaidades e rivalidades nos partidos e entre eles. E começaram os balões-de-ensaio.

Durante o ano passado, as pesquisas de opinião só mostravam intenções de voto para a oposição. Em março de 2001, por exemplo, o instituto Datafolha registrava 59% das preferências para os quatro presumidos pré-candidatos da oposição – Lula (24%), Ciro Gomes (17%), Itamar Franco (11%) e Garotinho (7%) –, contra 10% para o único governista visível, José Serra.

Campanha precoce é assim mesmo, a conjuntura determina a pesquisa de opinião. Se a conjuntura vira, a opinião pode mudar. Como o Brasil não é tão de esquerda assim, faltava também uma figura que, em não sendo de esquerda, não fizesse parte de um governo em déficit de popularidade. Fernando Henrique tinha, naquela época, 26% de avaliação positiva e 30% negativa. Um déficit de 4 pontos.

Foi quando surgiu Roseana Sarney. Índice anti-FHC igual a zero, ou seja, os eleitores a viam como alguém que nem era contra tudo isso que está aí, nem a favor de tudo isso que está aí. Lula tinha menos 9,5 nesse índice, supercontra tudo isso que está aí, e Serra, mais 8,5 a favor de tudo isso que está aí. Ou quase. Em setembro, Roseana entrava na cartela do Datafolha, para receber indicações de 12% dos eleitores. Mas a oposição ainda capitalizava a bronca, somando 64% das preferências. Serra recuava para 7%. Porém, Serra e Roseana juntos já somavam 19% para "o outro lado". Roseana cresceu mais na simpatia do povo, até chegar aos 23% no mês passado. Serra voltava aos 10%. Os candidatos de oposição somavam 53%.

Agora, com os episódios que atingiram a imagem de Roseana e os benefícios do programa partidário do PSDB, a candidata do PFL está com 15% (menos 8), o tucano com 17% (mais 7). Mas esses dados estão inflados pelo truco mineiro de Itamar Franco, que blefou uma candidatura inviável e conquistou na cartela um lugar que jamais terá na cédula eleitoral. Descontada a ilusão mineira, o voto oposicionista está em 51% e Roseana e Serra somam 35%.

Em fevereiro, Fernando Henrique viu sua avaliação positiva, empurrada pela melhoria da economia, superar a negativa: 31% a 29%. Isso não acontecia desde o início de 1999, com a crise cambial. Os ventos da economia sopram a favor do governo. O vendaval da política está derrubando a ainda frágil construção da candidatura pefelista. A conjuntura está virando, as pesquisas virarão.

A situação é de grande volatilidade, exatamente porque a opinião pública está mudando. Cada pesquisa é uma foto instantânea dessa coisa em movimento que é a percepção precária e precoce do eleitor. Nenhuma ofensa. É que a eleição está muito longe. O eleitor responde aos estímulos desiguais da mídia dos candidatos e às oscilações "paranormais" da conjuntura política e econômica. Estimulado pela mídia e superestimulado pelas cartelas dos institutos, nos quais figuram os nomes dos presumidos candidatos, ele aponta um. Provisoriamente. É como fotografar carros de Fórmula 1 em plena corrida. Cada foto os pega em uma posição distinta. O Ibope que saiu junto com o Datafolha dá uma perspectiva diferente da mesma corrida: Roseana quase não caiu (menos 1), Serra disparou (mais 12). A oposição soma 42%, contra 36%.

Manipulação? Tolice! Toda a divergência é metodológica, e não ética. As pesquisas tenderão a convergir quando a volatilidade diminuir. Em período tão distante da campanha real elas são vulneráveis a qualquer turbulência de conjuntura. Qualquer variação de amostra ou data de coleta nesse momento de mudança de opinião pública apresentará resultados diferentes. Há muita água ainda para rolar, e com ela os números da pesquisa mudarão como a areia da praia muda com cada onda do mar.

 

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)


 
 
   
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