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Sérgio
Abranches
As águas
vão rolar
"Em
período tão distante da campanha
eleitoral real, as pesquisas são vulneráveis
a qualquer turbulência de conjuntura"
Ilustração Ale Setti
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A eleição presidencial deste ano já assumiu características
singulares que a marcarão até o final. A mais importante
delas foi o descolamento radical entre o processo político e o
calendário eleitoral. Só existe um bicho mais assustadiço
e volátil que investidor nos mercados de risco: o político.
A falta de candidaturas naturais e o fato de que no ano passado o desempenho
da economia alimentava franca rejeição ao governo deixaram
os políticos do campo governista com os nervos à flor da
pele. Imaginando que a eleição estava nas mãos da
oposição, saíram correndo à cata de candidatos
que representassem alternativas à oposição e ao governo.
Essa procura acendeu as vaidades e rivalidades nos partidos e entre eles.
E começaram os balões-de-ensaio.
Durante
o ano passado, as pesquisas de opinião só mostravam intenções
de voto para a oposição. Em março de 2001, por exemplo,
o instituto Datafolha registrava 59% das preferências para os quatro
presumidos pré-candidatos da oposição Lula
(24%), Ciro Gomes (17%), Itamar Franco (11%) e Garotinho (7%) ,
contra 10% para o único governista visível, José
Serra.
Campanha
precoce é assim mesmo, a conjuntura determina a pesquisa de opinião.
Se a conjuntura vira, a opinião pode mudar. Como o Brasil não
é tão de esquerda assim, faltava também uma figura
que, em não sendo de esquerda, não fizesse parte de um governo
em déficit de popularidade. Fernando Henrique tinha, naquela época,
26% de avaliação positiva e 30% negativa. Um déficit
de 4 pontos.
Foi quando
surgiu Roseana Sarney. Índice anti-FHC igual a zero, ou seja, os
eleitores a viam como alguém que nem era contra tudo isso que está
aí, nem a favor de tudo isso que está aí. Lula tinha
menos 9,5 nesse índice, supercontra tudo isso que está aí,
e Serra, mais 8,5 a favor de tudo isso que está aí. Ou quase.
Em setembro, Roseana entrava na cartela do Datafolha, para receber indicações
de 12% dos eleitores. Mas a oposição ainda capitalizava
a bronca, somando 64% das preferências. Serra recuava para 7%. Porém,
Serra e Roseana juntos já somavam 19% para "o outro lado". Roseana
cresceu mais na simpatia do povo, até chegar aos 23% no mês
passado. Serra voltava aos 10%. Os candidatos de oposição
somavam 53%.
Agora, com
os episódios que atingiram a imagem de Roseana e os benefícios
do programa partidário do PSDB, a candidata do PFL está
com 15% (menos 8), o tucano com 17% (mais 7). Mas esses dados estão
inflados pelo truco mineiro de Itamar Franco, que blefou uma candidatura
inviável e conquistou na cartela um lugar que jamais terá
na cédula eleitoral. Descontada a ilusão mineira, o voto
oposicionista está em 51% e Roseana e Serra somam 35%.
Em fevereiro,
Fernando Henrique viu sua avaliação positiva, empurrada
pela melhoria da economia, superar a negativa: 31% a 29%. Isso não
acontecia desde o início de 1999, com a crise cambial. Os ventos
da economia sopram a favor do governo. O vendaval da política está
derrubando a ainda frágil construção da candidatura
pefelista. A conjuntura está virando, as pesquisas virarão.
A situação
é de grande volatilidade, exatamente porque a opinião pública
está mudando. Cada pesquisa é uma foto instantânea
dessa coisa em movimento que é a percepção precária
e precoce do eleitor. Nenhuma ofensa. É que a eleição
está muito longe. O eleitor responde aos estímulos desiguais
da mídia dos candidatos e às oscilações "paranormais"
da conjuntura política e econômica. Estimulado pela mídia
e superestimulado pelas cartelas dos institutos, nos quais figuram os
nomes dos presumidos candidatos, ele aponta um. Provisoriamente. É
como fotografar carros de Fórmula 1 em plena corrida. Cada foto
os pega em uma posição distinta. O Ibope que saiu junto
com o Datafolha dá uma perspectiva diferente da mesma corrida:
Roseana quase não caiu (menos 1), Serra disparou (mais 12). A oposição
soma 42%, contra 36%.
Manipulação?
Tolice! Toda a divergência é metodológica, e não
ética. As pesquisas tenderão a convergir quando a volatilidade
diminuir. Em período tão distante da campanha real elas
são vulneráveis a qualquer turbulência de conjuntura.
Qualquer variação de amostra ou data de coleta nesse momento
de mudança de opinião pública apresentará
resultados diferentes. Há muita água ainda para rolar, e
com ela os números da pesquisa mudarão como a areia da praia
muda com cada onda do mar.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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