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20 de fevereiro de 2008
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Economia
O ano do cofre cheio

Bancos dos EUA derrapam na crise
– e brasileiros lucram como nunca


Cíntia Borsato

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Quadro: Mais rentáveis

As instituições financeiras brasileiras sobreviviam basicamente de emprestar dinheiro ao governo na era da inflação. Agora que reencontraram a sua vocação real, de financiar o consumo e o investimento privado, descobriram que podem ganhar muito mais. O Itaú anunciou um lucro de 8,5 bilhões de reais em suas operações no ano passado. É o dobro do obtido em 2006. Já o Bradesco, o maior banco privado do país, embolsou 8 bilhões de reais. O ano foi também de vacas gordas (ou porquinho cheio) para o Unibanco, que lucrou 3,5 bilhões de reais em 2007, 97% a mais do que no ano anterior. Ainda que os bancos continuem ganhando muito dinheiro com a dívida pública e a ineficiência do governo, esses resultados espetaculares devem-se, sobretudo, ao forte avanço das operações de crédito no país: 27% no último ano. Some-se a isso o faturamento com as tarifas e chega-se aos resultados do ano passado, com os quais as instituições financeiras do país se alçaram à condição das mais rentáveis do planeta.

Essa fase de ouro salta aos olhos no momento em que os maiores bancos europeus e americanos sangram com perdas bilionárias, resultado de apostas equivocadas no mercado hipotecário. Hoje são raras as instituições americanas com taxas de rentabilidade similares. No caso dos bancos brasileiros, elas chegam a 32% ao ano. Isso quer dizer que, para cada 100 dólares investidos, o banco e seus acionistas levam mais 32 dólares. Nos Estados Unidos, apenas o Goldman Sachs, banco que escapou ileso da crise hipotecária, consegue atingir taxas semelhantes. O Citigroup, por exemplo, que em 2006 tivera uma rentabilidade de 19%, viu a taxa cair para ínfimos 3% no ano passado. A discrepância entre os rendimentos se reflete no preço das ações. Com base nela, o valor de mercado do Bradesco e do Itaú ultrapassou pela primeira vez na história o de instituições tradicionalíssimas, como Morgan Stanley e Merrill Lynch (veja o quadro).

Isso quer dizer que os bancos brasileiros são mais competentes e eficientes que seus pares dos Estados Unidos? Não há uma resposta simples a essa indagação. Os americanos ainda possuem o sistema financeiro mais avançado e dinâmico do mundo. Mas os anos de euforia econômica e juros baixos os levaram a buscar investimentos exageradamente arriscados. Boa parte dessa pirâmide tinha como lastro hipotecas de risco elevado (subprime). Funcionou por alguns anos. Com o estouro da bolha imobiliária, entretanto, o esquema ruiu. Estima-se que o buraco financeiro dela decorrente possa somar 400 bilhões de dólares. Só o Citigroup, o maior banco dos Estados Unidos, anunciou perdas de 10 bilhões de dólares no quarto trimestre de 2007, o pior resultado desde a sua criação, em 1812. O Merrill Lynch, mais 10 bilhões de dólares. Outro que entrou de cabeça nos títulos hipotecários foi o suíço UBS. O banco teve um prejuízo de 11,3 bilhões de dólares no último trimestre de 2007 e já avisou que há o risco de perder outros 70 bilhões de dólares comprometidos em créditos podres.

O mesmo não ocorreu com os bancos brasileiros, recém-saídos de anos seguidos de crise e instabilidade financeira. Afirma o presidente do Unibanco, Pedro Moreira Salles: "Aprendemos com os passos errados lá atrás, teve gente que quebrou. Agora administramos serviços financeiros de uma forma muito eficiente". Reconhecida internacionalmente, essa eficiência provou-se valiosíssima no atual momento da economia brasileira. Desde 2002, o total de crédito na economia saltou de 25% do produto interno bruto (PIB) para 35%. Como mais e mais pessoas estão ingressando no sistema financeiro, os bancos passaram a faturar alto também com a prestação de serviços – que inclui tarifas bancárias, corretagem e administração de fundos, entre outros. A receita dessas operações quadruplicou de 2000 a 2006. Isso só é possível porque o Brasil é ainda um país em desenvolvimento. Nas economias maduras, o crédito é disseminado, e por isso tende a crescer em um ritmo menor. "Foi justamente em busca de lucratividade que alguns bancos americanos expuseram o sistema a um risco muito alto", diz Fabio Colletti Barbosa, presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e do Real. "No Brasil, ao contrário, o crescimento do crédito é saudável. Os bancos são conservadores na concessão de financiamentos." Em outras palavras, aqui o crédito chegou apenas às pessoas com bom histórico financeiro, o que não ocorreu nos Estados Unidos.

É por isso que o mercado brasileiro não sofre com a crise mundial. Ao contrário, é parte da solução em alguns setores industriais. A Coca-Cola, por exemplo, aumentou o volume de vendas em 16% no Brasil, contra 6% no resultado global. É o melhor desempenho da empresa nos últimos três anos no país. A fabricante de automóveis General Motors completou 83 anos de atuação no país com um recorde histórico de vendas. Foram 500.000 automóveis vendidos no ano passado, um crescimento de 22%. No mercado americano, ela teve prejuízo. Numa ironia do capitalismo, os países em desenvolvimento socorrem os chamados de Primeiro Mundo. Resta saber agora se a economia brasileira conseguirá manter o atual ritmo de expansão em meio à desaceleração dos países ricos. A evolução foi possível até aqui graças ao novo cenário de previsibilidade econômica, que propiciou a diminuição das taxas de juros e o aumento de prazos. Mas, para levar os financiamentos para ainda mais gente, e assim corrigir mazelas como o déficit habitacional, os juros terão de cair mais. Para isso, o país teria de atacar alguns dos entulhos que ainda obstruem sua economia. Reformar seu complicado sistema tributário já seria uma medida extremamente bem-vinda.

 



 

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