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FALCATRUAS (E NÃO). Sim senhor, o mundo é um antro de falcatruas. Se eu não fosse o otimista que sou, pessoa que acredita na nobreza do ser humano, esse impoluto, diria até que no mundo existe mais falcatrua do que falca. E do que trua. Sugeriria até legalizar ambas, pra colocar o mundo numa realidade mais real. Olha em volta; irmão, os caras, nas grandes empresas, tão falsificando o leite! A gente reclama como se o pobre e nobre leiteiro, antigamente à nossa porta, não colocasse também água nesse mesmo leite. Como se o assalto do pobre-diabo que põe a mão na balança (daí vem o carcamano, carica la mano, sabia?) não fosse emulado, na outra ponta, pelo ser humano mais sofisticado do atual pedaço tecnológico o hacker. Ou como se o assalto externo a todo e qualquer banco, com pouco lucro, ocasional prejuízo, e muito risco, não tivesse um resultado melhor, em assalto e lucro, e nenhum risco, feito pelos próprios bancos. Por que falo nisso? Porque acabei de ler O Colapso e Armas, Germes e Aço, de Jared Diamond (me foram presenteados por Fernandinha Torres, minha fornecedora de livros transcendentais, sorry, periferia), e voltei a pensar na sacrossanta ciência. Onde a fraude sempre comeu solta, com conivência, com cumplicidade, e até participação, de pessoas as mais inesperadas, mais conceituadas e bem posicionadas. Pra só falar disso, o Elo Perdido, "descoberto" em 1912, por Dawson, uma fraude no mínimo grosseira, foi compartilhado por Conan Doyle (é, o do Sherlock), que andava sempre por ali, em Piltdown, onde a falcatrua foi premeditada e feita. Mas Doyle era chegado a um misticismo que o levaria a romper com o extraordinário Houdini (que proclamava publicamente que todos os seus feitos de ilusionismo eram truques) quando este desmoralizou uma "vidente" protegida dele, Doyle. E, mais assustador ainda, Teilhard de Chardin, o grande místico, teólogo, antropólogo, e o catzo, de fama invejável, também participou da trama.
Pois eu, aqui onde me vêem (lêem), imbele e fraco, por essas e outras, durante muito tempo deixei de acreditar em cavadores, buracos científicos e carcaças reveladoras da história humana. Arqueologia, o nome. Bem, mas quando a falcatrua de Piltdown foi feita, cumpre dizer, não havia nem mesmo o carbono 14, certidão de idade de qualquer passado, homem ou animal. O C14 só foi oficializado nos anos 50. Agora, vejam (leiam) como as coisas mudam. E você com elas. Quando se encontrou o corpo do careta morto nas geleiras do Tirol abrindo uma briga entre Itália e Áustria pela posse que aos primeiros indícios os "especialistas" afirmavam que era um italiano desaparecido no gelo havia quarenta anos, logo a aparelhagem científica moderna verificou que o personagem tinha 5 300 anos. Quase diziam o dia e a hora do nascimento. Talvez até o CPF. Uma preciosidade.* Pois é, eu ainda estava descrente, quando Fernandinha me mandou os dois livros de Jared Diamond, Colapso e Armas, Germes e Aço, miletantas páginas, pra ser exato 1 257 páginas. Através dos livros de Jared, com brilho único e credibilidade absoluta, a ciência moderna a geografia, a biologia evolutiva e tudo o que minha ignorância engloba como arqueologia nos dá um retrato fascinante de para onde o mundo caminha (ou não) e afasta mais de mim, definitivamente, a desconfiança de que todos os estudos de cavernas, esfinges, pedaços de estátuas, restos de caveiras, era tudo pseudociência. Agora, quando Jared Diamond, nestes livros universais pelo escopo e alcance global acompanhando e acompanhado por ciência e cientistas em todo o mundo, de repente me exibe uma semente encontrada há um milhão de anos e, através dela, me explica como, na época e no local, os seres humanos viviam, eu acredito em tudo. Assim, apesar de viver num momento de tecnologia maravilhosa e sempre surpreendente, deixo de me interessar por isso, pelas promessas do futuro, e todo dia acordo. Aguardando com ansiedade as últimas novidades do passado. *Uma revista gay da Alemanha revelou que a múmia era gay. Os cientistas negaram. Bem, mas a ciência ainda está bem atrás da fofoca.
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