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Roberto
Pompeu de Toledo
Velhas histórias,
outras histórias
O leitor
está cansado
de tragédias?
Aqui as de Shakespeare, em respeito
ao Natal, ganham um final feliz
Foi por
pouco. Se frei Lourenço chegasse um segundo mais tarde, Romeu teria
cometido um desatino, tal seu desespero ao contemplar Julieta morta. "Espere,
meu rapaz", disse o frei, espavorido. "Não é o que estás
pensando. Apenas, dei-lhe uma droga para fingir-se de morta, um produto
muito eficaz." Romeu mudou do desespero ao júbilo. "Ó, meu
anjo de luz", dizia. "Abre os olhos, e eles hão de brilhar tanto
que as estrelas do céu serão humilhadas como uma vela diante
do sol." Julieta aos poucos despertou. "Ó, meu amado", disse. "O
tesouro de meu amor é tamanho que nem posso contá-lo." Cai
o pano. Longe das intrigas de Verona e das rivalidades familiares, os
enamorados retomarão a paixão que os abrasa.
Natal, fim
de ano, época de doçuras e reconciliações.
Então, para soerguimento de ânimo e repouso mental do leitor,
vai-se apresentar aqui um final alternativo às tragédias
de Shakespeare. Nada de incompreensões, insânias, sangueiras.
Romeu e Julieta safam-se e o amor triunfa. E quanto a Otelo e Desdêmona?
Otelo foi se deixando desestabilizar desde o dia em que o melífluo
Iago se aproximou e, quase num sussurro, disse: "Vigiai vossa esposa,
senhor. Observai-a bem com Cássio". Tanto insistiu o outro que
o ciúme acabou por instalar-se por inteiro na alma do mouro. Um
dia Iago veio com a prova. Um lenço, exatamente aquele que fora
o primeiro presente de Otelo a Desdêmona, fora encontrado com Cássio.
Ela o dera ao amante! Otelo resolve-se. Entra no quarto da mulher. Vai
matá-la. "Por quê? Que fiz?", pergunta ela, assustada. "Prostituta!",
responde o marido. "Aquele lenço que te dei, tu o deste a Cássio."
"Então é isso", pensa Desdêmona, aliviada, e chama
a camareira. "Emília", ordena-lhe, "diz a meu marido o que acabaste
de me dizer". Emília conta que Iago, tendo se apoderado do lenço,
o contrabandeara para os aposentos de Cássio. "Ó, que idiota
fui!", grita Otelo. "E que infame aquele em cuja língua peçonhenta
acreditei!" Manda vir Iago e, com aquele mesmo pequeno e delicado lenço,
tornado arma letal em suas mãos poderosas, arremete contra o intrigante,
sufocando-o. Cai o pano.
Eis o público
satisfeito. Romeu com Julieta, Otelo com Desdêmona. Mas... e depois?
Como seria a vida dos dois casais dali em diante? Consideremos as respectivas
situações.
Romeu não
tardou a inquietar-se. Unir-se a Julieta significara renunciar ao poder
e à riqueza dos Montecchio. Renunciara à vida de dono de
terras e servos, de chefe admirado e temido, e vivia apertado. Ademais,
o amor definhava. Onde já se viu um amor adolescente, mal de amor
contraído aos 15 anos, durar? Tais considerações
empurraram-no a uma revisão geral de suas opções
de vida. Não lhe foi difícil anular o casamento com Julieta.
Afinal, fora desde sempre duvidosa a validade daquele casamento clandestino,
realizado sem testemunhas pelo bom mas algo avoado frei Lourenço.
Acresce que Julieta não opôs obstáculo. Ela partilhava
do mesmo fastio. Ambos reatam com as famílias. Anos depois, Julieta
casou-se com Páris. Romeu, com Rosália. Agora, trinta anos
passados, Romeu é o chefe do partido dos Montecchio. Manda e desmanda.
Um dia, vem-lhe à mente uma linha que ouvira nos tempos de outrora:
"Que há num nome? Aquilo que chamamos rosa, tivesse qualquer outro
nome, não exalaria o mesmo doce odor?" Romeu sorri, e pensa: "Há
muito num nome, quando esse nome é Montecchio". Ele contempla,
na outra ponta da sala, sua Rosália, o ar já matronal, as
carnes lhe sobrando. Romeu cofia a barba grisalha com uma mão,
com a outra acaricia a espada à cintura. E sorri de novo.
Desdêmona,
na idade madura, foi acometida de incômodos sentimentos. O peso
de um casamento inter-racial fazia-se sentir. Ela já não
aturava os olhares desdenhosos das futriqueiras de Veneza. Um dia, além
disso, espiando pelo buraco da fechadura, surpreendera o marido rezando
sentado sobre os calcanhares, a testa no chão. "Sim!", lembrou-se.
"Ele é um mouro." Por mais que tivesse convivido e lutado entre
os cristãos, a idade o reconduzia às origens. Era um muçulmano!
O estranhamento cultural sufocava. Que fazer? Como tantas colegas de literatura,
de Madame Bovary a Anna Karenina, foi consolar-se claro num amante.
Compensou-se nos braços do valoroso Cássio, veneziano, cristão
e branco como ela. Tudo com muita segurança. Não existia
mais Iago para intrigar. Além do mais, depois da confusão
toda de anos atrás, Otelo jamais acreditaria em quem lhe viesse
de novo com conversas daquele tipo. E, assim, até o fim os amantes
tiveram paz. Tão protegidos estavam das desconfianças que,
quando Desdêmona morreu, de morte natural, muitos anos depois, ninguém
sequer reparou no lencinho que Cássio sacou do bolso, com a maior
naturalidade, para secar as lágrimas. Era aquele.
Quis-se
alegrar o fim de ano com um final feliz para velhas histórias,
mas o que saiu foi a prova de que, entra ano, sai ano, o mundo continua
o mesmo o mesmo cínico e cansado palco de desilusões.
Sorte que se tem sempre o recurso de voltar aos desfechos do grande Shakespeare.
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