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Ele continua sem rival

Só uma coisa entrega a idade de
Apocalypse Now: o filme é bom
demais para ter sido feito hoje

Isabela Boscov

 
Fotos divulgação

Martin Sheen, como o capitão Willard: infarto aos 36 anos, no meio das filmagens

Foram quinze meses de filmagens na selva filipina, em locações tão remotas que muitas delas só eram acessíveis por meio de aviões fretados. Furacões destruíram vários dos cenários construídos com imensa dificuldade, e freqüentemente as Forças Armadas filipinas tomavam de volta os helicópteros que haviam emprestado, interrompendo o trabalho. Às vezes, as chuvas tropicais punham tudo a perder. Outras vezes, era a falta delas que arruinava as cenas. O diretor estava à beira da falência e o ator principal teve um ataque cardíaco bem no meio das filmagens – aos 36 anos de idade. Quando o filme pronto foi exibido em Cannes, em 1979, Francis Ford Coppola apresentou-o com uma frase que ficou célebre: "Este não é um filme sobre o Vietnã. É o próprio Vietnã".

Apocalypse Now é também um dos últimos momentos de verdadeira grandeza do cinema americano, um lembrete incômodo de um tipo de ambição que não existe mais. Por isso é imprescindível assistir a Apocalypse Now Redux (Estados Unidos, 1979/2001), que estréia nesta sexta-feira em São Paulo e no Rio de Janeiro. A palavra latina redux significa "trazido de volta", no sentido de alguém que retornou, por exemplo, da guerra. Com 49 minutos acrescentados às suas duas horas e meia anteriores, essa nova versão contabiliza ganhos e perdas em relação ao original. Mas, como ele, provoca uma espécie de epifania: é por causa de filmes assim que o cinema se tornou uma das maiores forças culturais do século XX.

 

Duvall, dono da fala mais célebre do filme: "Adoro o cheiro de napalm pela manhã"

Brando, numa das cenas inéditas de Redux: finalmente, à luz do dia

Em 1979, porém, Apocalypse Now passou longe de ser uma unanimidade. Boa parte da crítica detestou o clima surreal em que transcorre a história do capitão Willard (Martin Sheen), convocado pelo comando americano durante a guerra no Vietnã para uma missão secreta. Willard deve localizar e eliminar o coronel Kurtz (Marlon Brando), um oficial brilhante que formou uma milícia particular no vizinho Camboja e reverteu à selvageria. Segundo seus superiores, ele perdeu o juízo. Coppola discorda. Desde a primeira e antológica cena (aquela em que helicópteros cruzam uma selva em fogo, ao som da canção The End, do grupo de rock The Doors) até o final da longa descida de Willard pelo Rio Mekong, o filme defende a tese de que não há diferença entre a loucura de Kurtz e a insanidade da presença americana no Vietnã. É a guerra como expressão do horror que existe dentro de cada homem.

Coppola sabia que, para os padrões da época, seu filme era estranho e longo. Temeroso de não recuperar o investimento de 31 milhões de dólares – o dobro do plano inicial –, impôs-se a tarefa de cortar duramente o material filmado. Eis o porquê de Apocalypse Now Redux. A nova versão traz seqüências inéditas e reorganiza outras, de forma a se aproximar do corte que o diretor imaginara a princípio. O magnífico Robert Duvall, por exemplo, tem agora mais tempo em cena como o coronel Kilgore, que chacina um vilarejo inteiro só para poder surfar nas ondas de sua praia. Os soldados do capitão Willard ganham algumas horas de intimidade com duas coelhinhas da Playboy, em troca de combustível para o helicóptero das moças. E Marlon Brando aparece de corpo inteiro, à luz do dia – dizia-se que as tomadas fechadas e escuras do astro serviam para ocultar sua obesidade.

O problema é que há várias razões objetivas pelas quais um filme é bom, mas muitos motivos imponderáveis para que ele se torne extraordinário – e foi nesses que Coppola mexeu. Em Redux, o roteiro tem mais nexo e os personagens agem mais de acordo com as regras convencionais da dramaturgia. Um exemplo: a cena em que o soldado Mr. Clean (Laurence Fishburne, com 14 anos no início das filmagens) massacra os camponeses de um barco vietnamita é precedida pelo interlúdio com as coelhinhas, do qual Mr. Clean ficou de fora. Seu descontrole ao gatilho pode, assim, ser atribuído à sua frustração. Faz mais sentido. Ironicamente, isso é um prejuízo enorme. O aspecto mais arrasador do Apocalypse Now original – livremente inspirado no clássico O Coração das Trevas, de Joseph Conrad – é que seus personagens não têm nenhuma motivação além do horror ou do absurdo, e nenhuma reação além da indiferença ou da perplexidade. É o cerne do comentário de Coppola sobre a guerra. Por isso também atrapalha a seqüência inédita (e arrastada) em que Willard encontra uma milícia de franceses e trava com eles um didático debate sobre a ocupação do Vietnã. Ela quebra a espinha do filme bem no momento em que o pesadelo vai atingir seu clímax – o encontro entre Willard e o capitão Kurtz.

Nenhuma dessas alterações empana o brilho maior de Coppola como cineasta – sua intela seqüência inédita (e arrastada) em que Willard encontra uma milícia de franceses e trava com eles um didático debate sobre a ocupação do Vietnã. Ela quebra a espinha do filme bem no momento em que o pesadelo vai atingir seu clímax – o encontro entre Willard e o capitão Kurtz.

Nenhuma dessas alterações empana o brilho maior de Coppola como cineasta – sua inteligência, sua capacidade de fundir um tema existencial a uma execução operística e a elegância de seu estilo, comparável apenas à do japonês Akira Kurosawa. Como em todos os grandes filmes de Coppola, não há em Apocalypse Now nada que denote a época em que foi rodado – nem um movimento de câmara datado, nem um recurso que seja típico dessa ou daquela década. O filme existe num tempo que é só seu, e apenas sua excelência entrega a sua idade. A rigor, seria melhor que ele tivesse ficado do jeito que estava. Mas é bom ver a nova versão, nem que seja só para lembrar a existência de cineastas que arriscam tudo para fazer certos filmes.

   
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