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Edição 1 731 - 19 de dezembro de 2001
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Haja memória

Como lembrar senhas para sacar
dinheiro, usar celular e acessar
a
internet sem fazer confusão

Adriana Negreiros

 
Claudio Rossi

Hora da verdade: como lembrar qual código deve ser usado em cada ocasião

Uma pessoa que tenha conta corrente em banco, celular, cartão de crédito, provedor de internet, e-mail, acesso a um site de compras – bem, só aí essa pessoa já tem pelo menos seis senhas para decorar. Essa é uma conta que não pára de aumentar. Já há senha para entrar na academia de ginástica, pegar um filme na locadora e ler publicações no computador. As instituições financeiras, por segurança, tornam mais difícil a cada dia o acesso dos intrusos – e dos clientes, por conseqüência. A mais recente novidade são as letras incorporadas às senhas bancárias, para usar em conjunto com os números. É natural que alguns códigos acabem sendo esquecidos, por desuso ou confusão. Mas especialistas em memória garantem que o cérebro pode dar conta dessa variedade – independentemente da idade.

O principal segredo é fazer associações de idéias. O método não é novidade. No século XVI, o jesuíta italiano Mateo Ricci conseguia arquivar na memória todos os seus compromissos. Ligava uma reunião com o abade – um comilão – às refeições, por exemplo. Diante da mesa do café da manhã já se lembrava do encontro. Por um princípio semelhante, há quem atribua à senha do celular a data de aniversário da pessoa para quem mais telefona. Com 100 bilhões de neurônios, o cérebro faz essas conexões sem maiores problemas. Quanto mais relevante a informação, maior o número de neurônios envolvidos. Se é maior o total de conexões, também será maior a possibilidade de recordação. Por isso se diz que o cérebro também pode ser exercitado com uma espécie de musculação intelectual para mantê-lo ágil.

O neurofisiologista Gilberto Fernando Xavier, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, garante que qualquer informação utilizada cotidianamente por mais de três anos se torna definitiva. "Basta um pequeno esforço e alguma concentração para trazê-la à tona", diz Xavier. Por isso muita gente se surpreende ao lembrar um número antigo de telefone e ao mesmo tempo não conseguir recordar o nome de alguém postado à sua frente. Disso decorre ainda o fato de que uma pessoa de 70 anos está, pelo menos fisiologicamente, mais aparelhada para lembrar todas as suas senhas que um jovem de 20. Como exercitou por mais tempo suas conexões cerebrais, o idoso tem facilidade para criar as associações, mesmo que demore para absorver as informações. Isso vale mais, é claro, para quem tenha mantido atividade intelectual ao longo da vida. Não precisa ser a leitura de tratados de filosofia. Fazer lista de compras e organizar o carrinho do supermercado também é um exercício válido.

No mundo das senhas, não há outra saída senão seguir esses conselhos. Bancos que não permitem que o cliente escolha sua senha informam considerar esse método o mais seguro para os próprios correntistas. Sistemas de computador que vivem pedindo mudança de senha, muito comum em escritórios, também foram adotados por quem acredita estar protegendo os usuários. O melhor, como aconselha a psicóloga Cândida Camargo, do serviço de neuropsicologia do Hospital das Clínicas de São Paulo, é usar senhas em que se possam escolher as mesmas combinações, se possível coincidindo também com as atribuídas por instituições. "Eu ficaria louca se não fizesse isso", diz Cândida, que tem um único código para os sites de publicações médicas que costuma freqüentar. Como está quase aprovada a legislação que permitirá controlar a programação de televisão, o momento é adequado para preparar a memória – esse controle também será feito por senha.

 
 

 

 

   
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