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A
ciência da fé
Pesquisadores
usam o método
científico para tentar explicar
fenômenos da religião e os efeitos
das preces e da meditação
sobre o organismo
Afinal,
o que é um milagre? Pergunte a um cientista e ele certamente dirá
que é algum acontecimento cuja ocorrência não se explica
pelos mecanismos de funcionamento das leis naturais. Exatamente por esse
motivo, até há bem pouco tempo essas ocorrências eram
tidas como algo fora do objeto da ciência. Deveriam, portanto, ser
tratadas no campo da metafísica, por pessoas que se ocupam de fenômenos
sobrenaturais, os místicos e religiosos. Contrariando a corrente,
porém, nos últimos anos um número considerável
de pesquisadores tem tentado aplicar o método científico
para explicar eventos antes rotulados de sobrenaturais. Não se
trata de uma rendição. A boa ciência continua sendo
feita com base em provas factuais e na idéia de que um experimento
só deve ser considerado científico se puder ser repetido,
independentemente, por diversos laboratórios. Mas existe uma mudança
significativa no ar.
Cientistas
renomados aceitaram trabalhar com religiosos do Vaticano para tentar provar
a autenticidade do Santo Sudário, o manto de linho que teria sido
usado para cobrir o corpo de Jesus depois da crucificação.
O lendário aventureiro Robert Ballard, que se tornou famoso por
encontrar os restos do transatlântico Titanic, revelou recentemente
que usará seus submarinos para vasculhar o fundo do Mar Negro,
onde espera achar provas materiais do dilúvio descrito no Velho
Testamento. O cardiologista americano Herbert Benson, da reputada Universidade
Harvard, estudou durante cinco anos pacientes que aprenderam técnicas
de meditação para tentar controlar suas doenças coronárias
crônicas. Ao cabo de cinco anos, Benson notou que os pacientes que
meditavam disciplinadamente todos os dias tiveram taxas de recuperação
superiores às do grupo de doentes que nunca levaram a sério
a meditação. Sua conclusão é que a melhora
do grupo de pacientes que meditaram pode ter sido apenas um indicador
de que eles eram pessoas mais aptas a sobreviver. Ou seja, como eram disciplinados,
tomavam seus remédios, cuidavam da dieta e se exercitavam com mais
freqüência que os pacientes do outro grupo. Benson, no entanto,
prefere não descartar a hipótese de que alguma mudança
química no cérebro dos pacientes que adotaram a meditação
possa ter ajudado a apressar a recuperação.
O médico
americano ouviu, repetidamente, dos pacientes que meditaram em profundidade
a afirmação de que eles se sentiram na presença de
um "ser superior". Benson sugeriu até mesmo a existência
do que alguns de seus colegas chamaram de "hormônio da fé".
No caso, trata-se de um supressor de outros hormônios cuja concentração
no organismo cresce quando a pessoa passa por muitas e prolongadas experiências
estressantes. O cardiologista de Harvard descobriu que a meditação
profunda pode ajudar a baixar a concentração dessas substâncias.
"Uma atividade que consiga manter a mente sob certo controle a ponto de
alterar a ação hormonal pode potencialmente ter impacto
positivo sobre o sistema imunológico", diz David Felten, do Centro
de Neuroimunologia da Universidade de Medicina Loma Linda, na Califórnia.
No Centro
de Estudos da Ciência e da Religião da Universidade Colúmbia,
um programa investiga como as experiências espirituais afetam fisicamente
a química e a estrutura do cérebro humano. Em dezembro de
2000, o Jornal de Estudos da Consciência dedicou sua edição
para assuntos religiosos que abordavam desde visões cristãs
até "estados xamânicos da consciência". O objetivo
dessas novas pesquisas é tentar medir o que acontece na mente das
pessoas quando elas se sentem em transe religioso ou num estado de elevação
espiritual. Os cientistas mediram, com a ajuda de equipamentos especializados,
quais regiões do cérebro são ativadas durante as
preces e meditações. No livro Por que Deus Não
Vai Embora, o radiologista Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia,
descreve o resultado da que é considerada a mais bem-sucedida dessas
medições.
Newberg
e seu colaborador Eugene d'Aquili recrutaram budistas tibetanos e freiras
franciscanas que aceitaram ser cobaias de um experimento. Eles foram submetidos
a exames de tomografia computadorizada que mediram as alterações
físicas de seu cérebro nos momentos de êxtase religioso.
As imagens do cérebro dos budistas mostraram que o córtex
frontal, a área de atenção cerebral, foi especialmente
ativado naqueles instantes. Por outro lado, os neurônios do lobo
superior parietal, região conhecida como a área que controla
as funções visuais e motoras do ser humano, foram desligados.
Ainda é cedo para entender as implicações dessas
experiências. Mas os cientistas consideram enorme avanço
conseguir observar numa tela de tomógrafo "as impressões
digitais químicas e elétricas da fé", como descreveu
Newberg.
O envolvimento
de pesquisadores de universidades renomadas, como Colúmbia e Harvard,
no estudo das interações entre a religião e a ciência
está se dando num nível bem superior ao dos simples instrumentos
de medição. As questões teóricas que estão
sendo propostas por cientistas talvez tragam mais inquietação
à alma investigativa que a descoberta de que certas áreas
do cérebro trabalham mais ou menos durante um transe mediúnico.
"Fizemos assombrosos avanços, mas temos de reconhecer que a ciência
não respondeu a alguns dos enigmas básicos, como a origem
da vida e do universo", diz Stephen Jay Gould, o formidável pesquisador
e ensaísta americano, que seria o último ser vivo da Terra
a ser acusado de misticismo.
Colega e
eminente adversário intelectual de Gould, o biólogo Ernst
Mayr, da Universidade Harvard, também concorda que apenas o desenrolar
das leis naturais talvez explique o surgimento da vida na Terra
mas isso certamente não pode ser invocado para explicar o aparecimento
de seres inteligentes. Lendário pelo ceticismo, Mayr não
fala em milagre. Nem pode. Ele é considerado o maior neodarwinista
vivo. Mas seu cálculo sobre a possibilidade de a natureza produzir
seres inteligentes pelos processos evolutivos conhecidos é quase
uma sugestão de que os seres humanos são mesmo produtos
sobrenaturais. Mayr lembra que, de 30 milhões de espécies
vivas atualmente, somente uma, o Homo sapiens, desenvolveu inteligência
superior. Cerca de 50 bilhões de outras espécies vivas ou
que já viveram e sumiram da face do planeta nunca atingiram o estado
de desenvolvimento cerebral do homem. Mayr adiciona a seu cálculo
o fato de que a média de sobrevivência de uma dada espécie
na Terra é de cerca de 100.000 anos.
Ou seja, a inteligência tem de nascer e se desenvolver nesse período
de tempo, equivalente a uma fração de segundo quando comparado
às eras geológicas do planeta. "A conclusão é
que o surgimento da inteligência na raça humana foi um evento
fortuito, raríssimo, e cuja possibilidade de vir a ocorrer de novo
num ambiente natural, digamos, em outro planeta, é um número
astronomicamente pequeno", diz Mayr. Diante de uma explicação
como essa, portanto, não é difícil entender por que
teólogos e outros religiosos consideram o surgimento da razão
um milagre. De certa forma, como se viu pela equação proposta
por Mayr, a boa ciência também considera.
Os grandes
cientistas quase sempre enfrentaram oposição da Igreja,
especialmente da hierarquia católica em seus períodos de
grande poder temporal, como ocorreu com Galileu Galilei no século
XVII. O sábio de Pisa comprovou a teoria de Nicolau Copérnico
sobre a disposição do sistema solar, em que o Sol ocupava
o centro e a Terra era apenas um dos planetas em sua órbita. Por
absoluta inércia, a Igreja insistia em que a Terra era o centro
do universo. Diante da perspectiva de ser queimado na fogueira por heresia,
Galileu recuou publicamente de sua demonstração da teoria
de Copérnico. Mas não renunciou à ciência,
contam seus biógrafos, nem a sua crença em Deus. Outro grande
gênio da humanidade, Charles Darwin, atrasou por delicadeza em duas
décadas a publicação de sua descoberta da evolução
dos seres vivos. Darwin não queria ferir os sentimentos religiosos
do pai, da mulher, Emma, e de Robert Fitzroy, seu capitão na famosa
viagem ao redor do mundo no navio Beagle. Quando apareceu uma teoria
parecida com a sua, ameaçando-lhe o pioneirismo na matéria,
Darwin finalmente publicou A Origem das Espécies, em 1859.
Seu pai já havia morrido. Emma Darwin se fechou em casa e nunca
mais foi vista em ocasiões sociais. Fitzroy se suicidou anos mais
tarde, deixando um bilhete com as razões. Não podia suportar
o fato de ter sido colaborador involuntário de uma teoria que destruía
a versão religiosa sobre a criação das espécies.
O pai da
cosmologia moderna, o inglês Stephen Hawking, acha fascinante a
chamada "hipótese teológica", a idéia de que entender
Deus seria o alvo supremo da física, mas alerta para o fato de
que o caminho para chegar lá é a ciência, e não
a metafísica ou o misticismo. Quando lhe perguntam se Deus teve
um papel no universo antes do Big Bang, a explosão primordial que
teria criado o cosmo, Hawking admite que sim. "Acho que só Ele
pode responder por que o universo existe", diz o famoso astrofísico.
É lendária também a confissão de Albert Einstein
sobre sua motivação básica, feita a um assistente
em 1929: "Ah, se eu pudesse saber se no instante da criação
Deus teve escolha de fazer um universo diferente e, caso tenha tido opção,
por que é que decidiu criar este universo singular que conhecemos,
e não um outro qualquer".
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