| Fale conosco |
| Ajuda |
| Mapa do site |
![]() |
|
|
Crie seu grupo |
De onde vem tudo isso? O sentido do sagrado é uma das coisas que diferenciam o homem do animal. Talvez até tenha sido mais importante que o uso da mão e da fala, duas habilidades que nos fazem únicos entre os animais. Em algum momento, ainda na Idade do Gelo, o homem começou a tomar consciência de que vivia e, portanto, morria. Como é o único animal que sabe que vai morrer, teme a morte. Foi o início das religiões. "Ao que parece, criar deuses foi uma coisa que os seres humanos sempre fizeram", escreveu a historiadora inglesa Karen Armstrong, em Uma História de Deus. As manifestações religiosas da pré-história estão por toda parte. As pinturas nas cavernas, algumas ainda visíveis depois de 25.000 anos, foram tentativas de o homem primitivo expressar o encantamento e ligar a própria vida aos mistérios do sobrenatural.
O desafio de cada denominação religiosa é como se tornar interessante para o fiel na resposta que preparou para as indagações transcendentais que atormentam a humanidade há milênios. Há dois ramos no Brasil que estão fazendo isso de forma espetacular. São eles as seitas pentecostais e o Movimento de Renovação Carismática. Não há fenômeno que se compare à conversão nos últimos dez anos de 9 milhões de brasileiros às mais de 100 denominações pentecostais que existem no país. O sociólogo Ricardo Mariano, da Universidade de São Paulo (USP), que estuda o assunto, calcula que, mantida a taxa de crescimento das últimas duas décadas, os pentecostais conquistem 1 milhão de adeptos a cada ano. O maior país católico é também o terceiro do mundo em número de protestantes, atrás apenas dos Estados Unidos e da China. No início, o rebanho era recrutado nas periferias, entre os mais pobres. Não é mais. Seitas que misturam glamour e gospel, como a Renascer em Cristo, reúnem endinheirados em bairros chiques. Um dos paradoxos do mundo atual é o sucesso das religiões que apelam às emoções. Por que ocorre isso na época da clonagem e da internet? O antropólogo Otávio Velho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, acredita que a religião é um dos únicos terrenos legítimos em que o sujeito pode ter sensações e experiências que destoam de seu cotidiano. Pode gritar, sair de si, chorar, cantar e, em alguns casos, ser exorcizado. "O importante é que a modernidade e esse tipo de religião não são excludentes", diz o antropólogo. "O sujeito pode trabalhar o dia todo em frente ao computador e freqüentar a igreja à noite." Apesar de algumas especificidades brasileiras, o fato de uma alta taxa de religiosidade conviver com certo descaso em relação aos rituais tradicionais não é incomum no mundo. A verdade é que hoje existe um espaço secular muito maior nas sociedades. Antigamente, o cotidiano, as questões sociais e até as de saúde passavam pela religião. Isso mudou. "O brasileiro acredita em céu e inferno mesmo sem ser católico praticante ou saber o que são esses lugares, porque esses conceitos são intrínsecos à cultura brasileira", diz Regina Novaes, antropóloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Foram passados de geração em geração." Como mostra a pesquisa do Vox Populi, a crença em Deus é porcentualmente tão absoluta que quase não sobram brasileiros em quantidade suficiente para um plantel de incréus que faça diferença. De qualquer forma, não se pode confundir o comportamento dos que não seguem fielmente os rituais de um credo com a ausência de espiritualidade. "A religiosidade é a relação com o divino, é o modo como a pessoa se conecta com o que acredita serem forças protetoras ou negativas em seu cotidiano", observa Mario Sergio Cortella, professor do departamento de teologia e ciência da religião da Universidade Pontifícia Católica, em São Paulo.
Com
reportagem de
Daniel Hessel Teich, Eduardo
|
|
|