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De onde vem tudo isso? O sentido do sagrado é uma das coisas que diferenciam o homem do animal. Talvez até tenha sido mais importante que o uso da mão e da fala, duas habilidades que nos fazem únicos entre os animais. Em algum momento, ainda na Idade do Gelo, o homem começou a tomar consciência de que vivia e, portanto, morria. Como é o único animal que sabe que vai morrer, teme a morte. Foi o início das religiões. "Ao que parece, criar deuses foi uma coisa que os seres humanos sempre fizeram", escreveu a historiadora inglesa Karen Armstrong, em Uma História de Deus. As manifestações religiosas da pré-história estão por toda parte. As pinturas nas cavernas, algumas ainda visíveis depois de 25.000 anos, foram tentativas de o homem primitivo expressar o encantamento e ligar a própria vida aos mistérios do sobrenatural.

A vida em condições primitivas era obviamente frágil e assombrada pela mortalidade, mas, se homens e mulheres imitassem as ações dos deuses, dividiriam de alguma forma seu poder sobre a natureza. Foram então cunhados os rudimentos da ética. O homem precisou dela para livrar-se dos resquícios do bestialismo, como o incesto e o canibalismo, e poder viver em comunidades maiores. No período entre 800 e 200 a.C., durante uma era de prosperidade, construção de cidades e efervescência intelectual, todas as regiões do mundo civilizado, mesmo as que não tinham contato entre si, como China e Europa, criaram ideologias religiosas que estão na origem das crenças modernas. Apesar da passagem do tempo e da sofisticação da teologia, os fiéis modernos esperam da fé respostas às mesmas perguntas feitas por seus ancestrais das cavernas: qual o sentido da existência humana? O que vem depois da morte? Como devo me comportar para ser aceito pelas forças do sobrenatural?

 
Claudio Rossi

Culto na sede da Assembléia de Deus, em São Paulo: no total, 22 milhões de evangélicos

O desafio de cada denominação religiosa é como se tornar interessante para o fiel na resposta que preparou para as indagações transcendentais que atormentam a humanidade há milênios. Há dois ramos no Brasil que estão fazendo isso de forma espetacular. São eles as seitas pentecostais e o Movimento de Renovação Carismática. Não há fenômeno que se compare à conversão nos últimos dez anos de 9 milhões de brasileiros às mais de 100 denominações pentecostais que existem no país. O sociólogo Ricardo Mariano, da Universidade de São Paulo (USP), que estuda o assunto, calcula que, mantida a taxa de crescimento das últimas duas décadas, os pentecostais conquistem 1 milhão de adeptos a cada ano. O maior país católico é também o terceiro do mundo em número de protestantes, atrás apenas dos Estados Unidos e da China. No início, o rebanho era recrutado nas periferias, entre os mais pobres. Não é mais. Seitas que misturam glamour e gospel, como a Renascer em Cristo, reúnem endinheirados em bairros chiques.

Dentro da Igreja Católica também há um ramal "evangélico", o Movimento de Renovação Carismática, que pretende "reenergizar" o catolicismo. Inspirada nos televangelistas da televisão americana, a Renovação chegou ao Brasil no início dos anos 70 e na última década se converteu em fenômeno de massa. Embalada na performance eletrizante e nas megamissas do padre Marcelo Rossi, reúne com facilidade multidões com centenas de milhares de pessoas. Há dois meses, na comemoração do dia de Nossa Senhora de Aparecida no Aterro da Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, compareceram 600.000 fiéis. A Igreja Católica estimava o número de carismáticos em 4 milhões em 1994 e hoje acredita que ultrapassem 10 milhões. Os carismáticos cantam, dançam, agitam lenços, cultuam o Espírito Santo e dão muito mais ênfase à cura e ao milagre.

Um dos paradoxos do mundo atual é o sucesso das religiões que apelam às emoções. Por que ocorre isso na época da clonagem e da internet? O antropólogo Otávio Velho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, acredita que a religião é um dos únicos terrenos legítimos em que o sujeito pode ter sensações e experiências que destoam de seu cotidiano. Pode gritar, sair de si, chorar, cantar e, em alguns casos, ser exorcizado. "O importante é que a modernidade e esse tipo de religião não são excludentes", diz o antropólogo. "O sujeito pode trabalhar o dia todo em frente ao computador e freqüentar a igreja à noite."

É preciso considerar os números de religiosos no Brasil com certo relativismo. No censo de 1991, 83,3% dos brasileiros se declararam católicos, quando na verdade muitos deles dão pouca atenção à religião formal. Foram batizados no catolicismo e voltaram à Igreja para celebrar o casamento e batizar os próprios filhos. No restante do tempo, deixam-se levar por rituais do candomblé, pelo espiritismo kardecista ou pelo último modismo místico, sejam cristais mágicos, sejam mantras hinduístas. Essa é a realidade brasileira, muito influenciada pelo sincretismo religioso.

Apesar de algumas especificidades brasileiras, o fato de uma alta taxa de religiosidade conviver com certo descaso em relação aos rituais tradicionais não é incomum no mundo. A verdade é que hoje existe um espaço secular muito maior nas sociedades. Antigamente, o cotidiano, as questões sociais e até as de saúde passavam pela religião. Isso mudou. "O brasileiro acredita em céu e inferno mesmo sem ser católico praticante ou saber o que são esses lugares, porque esses conceitos são intrínsecos à cultura brasileira", diz Regina Novaes, antropóloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Foram passados de geração em geração." Como mostra a pesquisa do Vox Populi, a crença em Deus é porcentualmente tão absoluta que quase não sobram brasileiros em quantidade suficiente para um plantel de incréus que faça diferença. De qualquer forma, não se pode confundir o comportamento dos que não seguem fielmente os rituais de um credo com a ausência de espiritualidade. "A religiosidade é a relação com o divino, é o modo como a pessoa se conecta com o que acredita serem forças protetoras ou negativas em seu cotidiano", observa Mario Sergio Cortella, professor do departamento de teologia e ciência da religião da Universidade Pontifícia Católica, em São Paulo.

O fato de tantos brasileiros (55%) acreditarem no inferno significa que vão procurar só fazer o bem e evitar cair em tentação? "Não necessariamente", opina o antropólogo Otávio Velho. "Muitos podem contar com a misericórdia divina ou acreditar em outras formas de fugir do inferno. Ajuda de um santo, um jeitinho na última hora." A esse respeito, a pesquisa Vox Populi encontrou uma realidade surpreendente: muitos brasileiros (34%) acreditam que irão para o céu. Uns poucos, 11%, que passarão um período de penitência no purgatório. Mas nem um só admitiu a possibilidade de ir para o inferno. Evangélicos e carismáticos trouxeram de volta para o cotidiano do fiel brasileiro temas que as confissões tradicionais tinham colocado na prateleira das velharias, como a esperança no milagre, o êxtase e o temor ao inferno. Longe de serem modismos, essas questões perenes estão na origem das religiões. A necessidade de acreditar em "alguma coisa" é inerente ao ser humano, segundo a psicóloga Maria Cristina Mariante Guarnieri, mestre em ciência da religião pela PUC de São Paulo. "A religião serve como intermediária entre a razão e as angústias mais profundas das pessoas. Elas precisam de respostas para perguntas cruciais, como qual é o sentido da vida e da morte." Não sem bom motivo, o brasileiro é um povo cheio de fé.

 

 

Com reportagem de Daniel Hessel Teich, Eduardo
Salgado, Gabriela Carelli e Luiz Henrique Amaral

 



   
 
   
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