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Pesquisa
mostra que os
brasileiros são religiosos,
crêem em Deus e esperam
passar a eternidade
no paraíso
Jaime Klintowitz
Ana Araujo

Reza
de Presépio em Pirenópolis, Goiás: orações no Natal |

Veja também |
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No início
do século XX, acreditava-se que quanto mais o mundo absorvesse
ciência e erudição menor seria o papel da religião.
De lá para cá, a tecnologia moderna se tornou parte essencial
do cotidiano da maioria dos habitantes do planeta e permitiu que até
os mais pobres tenham um grau de informação inimaginável
100 anos atrás. Apesar de todas essas mudanças, no início
do século XXI o mundo continua inesperadamente místico.
O fenômeno é global e no Brasil atinge patamares impressionantes.
Em resposta à pergunta "Você acredita em Deus?", feita em
pesquisa encomendada por VEJA ao instituto Vox Populi, 99% dos entrevistados
responderam "sim". Trata-se de uma maioria acachapante, de desarmar qualquer
ceticismo em relação à religiosidade dos brasileiros.
Aqueles que têm por verdadeira a existência do paraíso,
onde depois da morte as pessoas desfrutariam a vida eterna ao lado de
Deus, são igualmente numerosos: 83%. Ou seja, os brasileiros não
apenas crêem em Deus como a maioria conta compartilhar com Ele a
eternidade.
José Luís da Conceição/AE

Dia
da padroeira na Basílica de Aparecida, em 12 de outubro: missas para
170 000 fiéis |
O Brasil
sempre foi um laboratório fantástico para estudos sobre
religião. Maior país católico do mundo, ele ainda
concentra dezenas de outras crenças, de origens tão diversas
como cultos de raízes africanas e o espiritismo do francês
Alan Kardec. Até os anos 50, a fé romana era monolítica
e quem admitia não ser católico de certo modo se excluía
da sociedade e até da intelectualidade, já que muito da
educação estava nas mãos de religiosos. O cenário
atual é inteiramente diferente. O rebanho católico ainda
desfruta confortável maioria, estimada em 80%, mas vem sendo ceifado
pelo crescimento acelerado das igrejas protestantes. Calcula-se que os
evangélicos no Brasil, entre protestantes tradicionais e pentecostais,
cheguem a 22 milhões, o que representa 13% da população.
Quase o dobro dos 13 milhões registrados no censo de 1991.
Há
ainda um novo fenômeno que começa a ser captado pelas pesquisas
e está chamando a atenção dos estudiosos do assunto
no Brasil e no exterior. Boa parte dos fiéis está olhando
para a religião como se estivesse diante de uma prateleira de supermercado.
Empurrando seu carrinho, a pessoa escolhe os itens que mais lhe agradam
entre os oferecidos. Assim, é comum ver alguém que se diz
católico fazer três desejos ao colocar uma fitinha do Senhor
do Bonfim e ainda freqüentar um centro espírita. Ou um judeu
reavaliar sua espiritualidade percorrendo o caminho de Santiago de Compostela,
de tradição católica, como fez em 1999 o executivo
Herbert Steinberg, vice-presidente de RH do banco Santander. Muitas pessoas
dizem ser católicas porque se sentem assim, embora não freqüentem
a igreja. Os praticantes do candomblé quase que invariavelmente
têm fé nos santos do catolicismo. Nos casos mais extremos
desse fenômeno, as pessoas criam a própria religião,
através da qual mantêm um contato sem intermediários
com o divino. Nas pesquisas, esse grupo dos sem religião definida
é um dos que mais crescem no Brasil, ao lado daquele dos pentecostais
e do movimento de Renovação Carismática da Igreja
Católica.
Segundo
o levantamento do Vox Populi, 96% dos evangélicos acreditam que
serão recompensados com a vida eterna no paraíso. Entre
os católicos, 84% das pessoas têm a mesma expectativa. As
proporções são elevadas para um mundo que parece
viver só para valores mundanos. Mais surpreendente, no entanto,
é que também acreditem na vida eterna ao lado de Deus sete
de cada dez dos entrevistados pelo Vox Populi que se declaram sem religião
aqueles que crêem em forças transcendentais, mas não
praticam nenhum dos credos formalmente estabelecidos. De modo geral, as
religiões cristãs restringem o ingresso no céu àqueles
que se mostraram fiéis a seus mandamentos. Apesar de não
contar com o aval de uma confissão estabelecida, 18% dos brasileiros
sem religião estão confiantes em que ao morrer irão
diretamente para o céu. A enquete foi realizada com base em 1.017
entrevistas efetuadas por telefone entre a população adulta
de 184 municípios em todas as regiões do país. Além
da diversidade regional, a pesquisa reflete a variedade de rendimentos,
escolaridade e filiação religiosa dos brasileiros. Essa
abrangência permite um mergulho inédito, e um tanto intrigante,
num universo que vem sendo estudado com crescente rigor científico.
A
religiosidade do brasileiro é cheia de surpresa. A diferença
de classe social, por exemplo, tem escasso reflexo sobre algumas crenças.
A certeza de que há recompensa ou castigo após a morte é
compartilhada na mesma proporção (em torno de 70%) de alto
a baixo da pirâmide social. Não há sobressaltos também
quando a religiosidade é analisada sob o filtro da idade ou escolaridade.
A história muda de figura no que se refere à vida eterna.
Seria natural que os mais pobres e menos letrados depositassem maior esperança
na outra vida, na qual as diferenças sociais e econômicas
perdessem importância. Pois ocorre o inverso. Para 70% dos brasileiros
de classe média e escolaridade superior existe, sim, vida após
a morte. Entre aqueles com renda até cinco salários mínimos
e pouca instrução, o número cai abaixo de 60%.
José Luís da Conceição/AE

Romeiros
em Aparecida: a cidade recebe 7 milhões de visitantes por ano |
Os brasileiros
estão divididos no que diz respeito ao diabo. Apenas metade da
população acredita na existência do demônio
e, aqui, os pobres, especialmente os evangélicos, estão
mais convencidos de que existe mesmo o Satanás. A explicação
está no fato de que no culto evangélico o demônio
é tratado como uma realidade concreta, que precisa ser exorcizado
pelo pastor. Feitas as contas, a quase totalidade dos brasileiros crê
em Deus, enquanto somente a metade da população acredita
no diabo. É uma mudança significativa. Apenas meio século
atrás, as pessoas acreditavam com a mesma intensidade no Bem e
no Mal. Hoje, as pessoas crêem sem vacilar no Bem. Já o Mal
por assim dizer perdeu grande parte de sua credibilidade. É interessante
que isso ocorra naturalmente entre a população, já
que a mesma coisa acontece de maneira muito mais refletida na alta hierarquia
católica. Desde o Concílio Vaticano II, a Igreja Católica
retirou discretamente de seus ensinamentos as terríveis histórias
de punição após a morte. Há dois anos, o papa
João Paulo II decidiu que o inferno não é um lugar
físico, onde as pessoas seriam cozidas em fogo eterno, como se
apregoou durante séculos, mas um "estado da alma", em que o sofrimento
do pecador seria causado não mais pelas chamas, e sim pela ausência
de Deus. A edição em português do Catecismo da
Igreja Católica, que é o código de conduta e
de princípios da Santa Sé, tem 734 páginas. De seus
2.865 parágrafos, só seis são
dedicados ao inferno, três ao purgatório e onze ao paraíso.
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