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Edição 1 731 - 19 de dezembro de 2001
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Delírios sob controle

As drogas modernas permitem
que os portadores de esquizofrenia
levem uma vida quase normal

Karina Pastore

Poucos transtornos psiquiátricos são tão devastadores quanto a esquizofrenia. Do grego skizo, divisão, e phrenos, espírito, a "doença do espírito dividido" faz com que sua vítima seja assaltada por delírios e alucinações. Vozes e seres imaginários solapam a percepção da realidade. Falsas idéias de perseguição e possessão tornam a vida um inferno. Os surtos de esquizofrenia duram, em média, um mês. Depois que acabam, o terror continua: a lembrança dos acessos é forte demais para ser cancelada e passa-se a viver na expectativa de que outro ocorra. Essa aflição faz com que quatro entre dez doentes tentem o suicídio pelo menos uma vez. O horror da esquizofrenia é conhecido de quase 2 milhões de brasileiros. Em um passado não muito remoto, estariam todos condenados aos manicômios e asilos, sob o estigma de "loucos que ouvem e vêem coisas". A esquizofrenia não tem cura, mas, graças aos avanços da neurociência e ao desenvolvimento de drogas mais potentes e seguras, os doentes estão conseguindo levar um cotidiano razoavelmente normal.

 
Antonio Milena
"A cada surto, minha vida era interrompida. Eu perdia o ano na faculdade e, quando voltava, tinha de fazer novos amigos. Agora, com a doença sob controle, espero manter o ritmo."
Luiz Cláudio Lima Freire, estudante de 28 anos, portador de esquizofrenia desde os 21

O tratamento da esquizofrenia é uma luta contra o relógio. "Quanto mais tempo o paciente permanecer em crise e quanto mais surtos ele tiver, pior será o prognóstico", diz a psiquiatra Ana Cristina Chaves, coordenadora do Programa de Esquizofrenia da Universidade Federal de São Paulo. Ao primeiro sinal de alucinação, delírio ou agitação motora, a pessoa tem de ser imediatamente medicada. Dada a importância da intervenção precoce, a indústria farmacêutica tem investido pesado no desenvolvimento de remédios de ação rápida. O mais moderno deles chega ao Brasil no primeiro semestre de 2002. É a olanzapina injetável, ou Zyprexa IM, do laboratório Eli Lilly. Primeiro antipsicótico de nova geração a ser administrado sob a forma de injeções, a olanzapina começa a funcionar em quinze minutos – metade do tempo exigido pelas drogas antigas. Passada a fase de controle do surto, os pacientes são tratados com medicação oral.

O primeiro antipsicótico foi descoberto por acaso, em 1950. Na procura por um novo anestésico, os cientistas perceberam que, quando administrada em pacientes em surtos esquizofrênicos, a clorpromazina minimizava os principais sintomas das crises. Foi uma revolução. A droga abriu as portas para a criação de uma classe de antipsicóticos. Graças a esses medicamentos, as internações começaram a se restringir apenas aos casos em que o doente se recusava a tomar remédio ou colocava a sua vida e a de outros em perigo. Os antipsicóticos clássicos, no entanto, apresentam graves efeitos colaterais – rigidez muscular, tremores e contração involuntária dos músculos. Foi só no início da década de 90 que surgiram os antipsicóticos de segunda geração, sem as reações adversas dos seus antecessores. A olanzapina, que ganhou a versão injetável, é um deles.

A esquizofrenia é um dos mais intrigantes distúrbios mentais. Sua causa exata ainda não foi determinada. Tem-se por certo que a base é orgânica: um desequilíbrio da química cerebral, com forte componente genético. Um exército de pesquisadores tenta identificar quais são os genes associados à doença. Seis de cada dez portadores de esquizofrenia têm ou tiveram algum parente com o mesmo problema. A esquizofrenia se manifesta principalmente no final da adolescência e no início da idade adulta. Dos 16 aos 25 anos, entre os homens; dos 25 aos 30, entre as mulheres. O estudante paulista Luiz Cláudio Lima Freire, de 28 anos, convive com a esquizofrenia desde os 21. Já ouviu vozes, viu George Bush e Saddam Hussein no campus da universidade em que estuda, fugiu de policiais imaginários e foi internado duas vezes. Hoje, devidamente medicado, ele mantém a doença sob controle. "Estou preparado para enfrentar um possível surto", diz. Seu espírito está inteiro.

 
RAIO X DA DOENÇA

No Brasil, estima-se que haja 2 milhões de portadores de esquizofrenia

De cada 10 pacientes, 4 tentam o suicídio pelo menos uma vez

Com os novos medicamentos, as internações e as reincidências de surtos caíram 50%

 

   
 
   
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