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Delírios sob
controle
As drogas
modernas permitem
que os portadores de esquizofrenia
levem uma vida quase normal
Karina Pastore
Poucos transtornos
psiquiátricos são tão devastadores quanto a esquizofrenia.
Do grego skizo, divisão, e phrenos, espírito,
a "doença do espírito dividido" faz com que sua vítima
seja assaltada por delírios e alucinações. Vozes
e seres imaginários solapam a percepção da realidade.
Falsas idéias de perseguição e possessão tornam
a vida um inferno. Os surtos de esquizofrenia duram, em média,
um mês. Depois que acabam, o terror continua: a lembrança
dos acessos é forte demais para ser cancelada e passa-se a viver
na expectativa de que outro ocorra. Essa aflição faz com
que quatro entre dez doentes tentem o suicídio pelo menos uma vez.
O horror da esquizofrenia é conhecido de quase 2 milhões
de brasileiros. Em um passado não muito remoto, estariam todos
condenados aos manicômios e asilos, sob o estigma de "loucos que
ouvem e vêem coisas". A esquizofrenia não tem cura, mas,
graças aos avanços da neurociência e ao desenvolvimento
de drogas mais potentes e seguras, os doentes estão conseguindo
levar um cotidiano razoavelmente normal.
Antonio Milena
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"A
cada surto, minha vida era interrompida. Eu perdia o ano na faculdade
e, quando voltava, tinha de fazer novos amigos. Agora, com a doença
sob controle, espero manter o ritmo."
Luiz Cláudio Lima Freire, estudante de 28 anos, portador de
esquizofrenia desde os 21 |
O tratamento
da esquizofrenia é uma luta contra o relógio. "Quanto mais
tempo o paciente permanecer em crise e quanto mais surtos ele tiver, pior
será o prognóstico", diz a psiquiatra Ana Cristina Chaves,
coordenadora do Programa de Esquizofrenia da Universidade Federal de São
Paulo. Ao primeiro sinal de alucinação, delírio ou
agitação motora, a pessoa tem de ser imediatamente medicada.
Dada a importância da intervenção precoce, a indústria
farmacêutica tem investido pesado no desenvolvimento de remédios
de ação rápida. O mais moderno deles chega ao Brasil
no primeiro semestre de 2002. É a olanzapina injetável,
ou Zyprexa IM, do laboratório Eli Lilly. Primeiro antipsicótico
de nova geração a ser administrado sob a forma de injeções,
a olanzapina começa a funcionar em quinze minutos metade
do tempo exigido pelas drogas antigas. Passada a fase de controle do surto,
os pacientes são tratados com medicação oral.
O primeiro
antipsicótico foi descoberto por acaso, em 1950. Na procura por
um novo anestésico, os cientistas perceberam que, quando administrada
em pacientes em surtos esquizofrênicos, a clorpromazina minimizava
os principais sintomas das crises. Foi uma revolução. A
droga abriu as portas para a criação de uma classe de antipsicóticos.
Graças a esses medicamentos, as internações começaram
a se restringir apenas aos casos em que o doente se recusava a tomar remédio
ou colocava a sua vida e a de outros em perigo. Os antipsicóticos
clássicos, no entanto, apresentam graves efeitos colaterais
rigidez muscular, tremores e contração involuntária
dos músculos. Foi só no início da década de
90 que surgiram os antipsicóticos de segunda geração,
sem as reações adversas dos seus antecessores. A olanzapina,
que ganhou a versão injetável, é um deles.
A esquizofrenia
é um dos mais intrigantes distúrbios mentais. Sua causa
exata ainda não foi determinada. Tem-se por certo que a base é
orgânica: um desequilíbrio da química cerebral, com
forte componente genético. Um exército de pesquisadores
tenta identificar quais são os genes associados à doença.
Seis de cada dez portadores de esquizofrenia têm ou tiveram algum
parente com o mesmo problema. A esquizofrenia se manifesta principalmente
no final da adolescência e no início da idade adulta. Dos
16 aos 25 anos, entre os homens; dos 25 aos 30, entre as mulheres. O estudante
paulista Luiz Cláudio Lima Freire, de 28 anos, convive com a esquizofrenia
desde os 21. Já ouviu vozes, viu George Bush e Saddam Hussein no
campus da universidade em que estuda, fugiu de policiais imaginários
e foi internado duas vezes. Hoje, devidamente medicado, ele mantém
a doença sob controle. "Estou preparado para enfrentar um possível
surto", diz. Seu espírito está inteiro.
| RAIO
X DA DOENÇA |
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No Brasil, estima-se que haja 2 milhões de portadores de
esquizofrenia
De
cada 10 pacientes, 4 tentam o suicídio pelo menos uma vez
Com os novos medicamentos, as internações e as reincidências
de surtos caíram 50%
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