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A praga dos mares
Os oceanos
do Hemisfério Sul estão
tomados pelos piratas. Só no ano
passado, eles mataram 72 pessoas

Leonardo
Coutinho
AFP

Execução
de um pirata na China |
O navio Petro Ranger deixou o porto de Cingapura com uma carga
de combustível avaliada em 1,5 milhão de dólares.
Os piratas atacaram poucas horas depois. A lancha que emparelhou com o
petroleiro não foi percebida pelo radar. Doze bandidos subiram
a bordo, por escadas de bambu e pelas cordas do próprio Ranger.
Encapuzados, com facões e revólveres, eles renderam e amarraram
o capitão escocês Ken Blyth e toda a tripulação.
Navegaram treze dias, até encontrar dois navios menores no Mar
da China. Eram comparsas dos assaltantes e começaram a transferir
o óleo de seus tanques. Um pirata usou o rádio para falar
com os parceiros. A comunicação foi interceptada pela guarda
costeira. A polícia os alcançou. Os piratas se renderam.
Blyth foi libertado. "Eles sabiam o nome de nossos filhos e nossos endereços",
contou depois o capitão. "Ameaçavam matar nossa família
se reagíssemos." Pouco tempo depois, o navio Tenyu, de bandeira
panamenha, foi tomado de assalto no lugar mais perigoso para navegar no
planeta, o Estreito de Málaca, na Indonésia. Os tripulantes
foram atirados ao mar. Detalhe: antes, foram amarrados com corda. O navio
desapareceu, levando 3.000 toneladas de alumínio.
Três meses depois, as autoridades portuárias de Zhangjiagang,
na China, estranharam um nome pintado de novo no casco enferrujado do
Sanei 1. Era o Tenyu, tripulado por indonésios famintos
que não sabiam nem quem eram seus patrões.
Essas parecem
histórias do século XVIII, mas aconteceram nos últimos
três anos. Os ratos-d'água que mataram o velejador neozelandês
Peter Blake no Amapá, há duas semanas, são a ralé
de uma praga dos mares. Na Amazônia, com seus 1.000
rios navegáveis, eles são como os assaltantes de semáforo
das grandes cidades. Roubam os botijões de gás, as correntinhas
e os relógios e geralmente não matam suas vítimas.
Não fosse a morte de Blake, seriam um dado desprezível nas
estatísticas do International Maritime Bureau (IMB), órgão
da Câmara Internacional do Comércio, que estima em 200 bilhões
de dólares por ano as perdas provocadas pela pirataria. Fenômeno
típico do Hemisfério Sul, os assaltos no mar e nos portos
deixaram 72 mortos e 99 feridos nas 469 ocorrências verificadas
no ano passado. Os casos aumentaram 57% em um ano. Indonésia, Bangladesh,
Índia e Equador lideram o ranking dos lugares perigosos. O Brasil,
apesar de ter poucos casos e registrar agora a primeira morte desde 1992,
também é considerado inseguro porque os portos são
vulneráveis e mal vigiados. Como num assalto relâmpago em
que o cidadão acha que não vale a pena dar queixa do roubo
de um relógio de pulso, capitães também colaboram
para manter a estatística aquém dos fatos. Um navio parado
pode ter um custo operacional de até 10.000
dólares por dia. "Geralmente é mais negócio seguir
viagem que perder tempo esperando uma investigação", explica
um oficial da capitania dos portos do Rio de Janeiro.
A pirataria
pesada reapareceu nos anos 80 porque o fim da Guerra Fria levou a uma
enorme redução no patrulhamento marítimo. Iatistas
e navios de carga são os maiores alvos. Barcos de cruzeiro, embora
carreguem muito dinheiro, levam gente demais, são praticamente
impossíveis de dominar. Os piratas, segundo o consultor de segurança
no mar Yp Loke, de Cingapura, dividem-se em categorias, conforme a região
do globo. Os do litoral da Índia e da Indonésia, por exemplo,
campeões de ataques, agem à noite contra navios em movimento.
Com duas lanchas capazes de fugir a mais de 110 quilômetros por
hora, passam um cabo de aço diante do barco e se deixam arrastar
até encostar para fazer a abordagem. Armados com fuzis russos AK-47
e até com lança-mísseis, não são violentos
quando não encontram resistência. Têm por objetivo
dinheiro, cargas e equipamentos. Na América do Sul e no oeste da
África, roubam-se muitos objetos de embarcações atracadas
nos portos. Como no caso de Blake e seu Seamaster, não é
raro os bandidos roubarem também um bote para a fuga. No Sudeste
Asiático, perto das Filipinas, concentram-se grupos que agem em
alto-mar, seqüestram a tripulação e conseguem descarregar
em qualquer porto, sob o nariz das autoridades. Os piratas mais violentos
estão no Extremo Oriente, nos mares da China e do Japão.
Matam os tripulantes e levam o navio, para o qual obtêm documentos
falsos. Depois, vendem o barco ou o utilizam para transporte de cargas
clandestinas.
Entre velejadores
experimentados, não há quem não tenha sido vítima
de piratas. Os integrantes da família Schürmann, composta
de brasileiros que deram a volta ao mundo num veleiro alguns anos atrás,
foram atacados no Equador, nas Filipinas e na Indonésia. Perderam
um motor de popa na primeira vez, espantaram os assaltantes na segunda
e foram alvo de tiros, sem ser abordados, na terceira. "Os bandidos são
mais perigosos que os desafios do mar", resume o capitão Vilfredo
Schürmann.

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