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Edição 1 731 - 19 de dezembro de 2001
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Outro carimbo

Vem aí o tombamento de
tradições populares

 
Montagem sobre fotos de Iugo Koyama/João Ramid e Bruno Schultze

O toque dos sinos, a santa do Círio, as panelas e o queijo: pode dar em tunga

Criado nos anos 30, o tombamento é um meio de preservar prédios e monumentos históricos. Agora, inspirado em iniciativas semelhantes de países como a França e o Japão, o Ministério da Cultura instituiu um equivalente do tombamento a ser aplicado a festas populares e artesanatos regionais relevantes: é o registro de patrimônio imaterial. Os primeiros registros estão prestes a ser expedidos. Serão beneficiados o Círio de Nazaré, a tradicional procissão realizada em Belém do Pará, e o ofício das mulheres que produzem panelas de barro no Espírito Santo. Há também duas manifestações mineiríssimas em análise. Uma delas é o dobrar dos sinos das igrejas barrocas de São João del Rei – que anuncia desde a morte do bispo até um incêndio. A outra é o processo de fabricação de queijos da cidade de Serro, no Vale do Jequitinhonha. Ao contrário do que ocorre com imóveis, o governo não terá controle direto sobre o patrimônio imaterial. Não poderá impedir, por exemplo, que as fabricantes de panelas mudem características de sua prática. O registro funcionará apenas como atestado da importância de certa tradição e da conveniência de preservá-la.

Governos municipais e estaduais e instituições sem fins lucrativos estão habilitados a requerer o registro de patrimônio imaterial. Para que ele seja emitido, é necessário apresentar um levantamento com estudos etnográficos e vídeos sobre a manifestação popular em questão. As pesquisas referentes ao dobrar dos sinos de São João del Rei, por exemplo, custaram cerca de 150.000 reais. Em breve, o Ministério da Cultura abrirá uma linha de financiamento específica para a realização desse tipo de trabalho. É aí que mora o perigo. Com dinheiro público envolvido, não se deve descartar o risco de que a idéia do registro se transforme em brecha para malandragens. É possível, por exemplo, que os tais levantamentos subam incrivelmente de preço. Não é improvável, ainda, que manifestações secundárias adquiram súbita relevância, só para ser estudadas a bom soldo. Um deputado federal recém-convertido ao interesse cultural já sonha com a possibilidade de inventariar todo o folclore do litoral norte de Pernambuco. Isso mesmo, todo. O tombamento é imaterial, mas a tungada no contribuinte pode ser bem concreta.

   
 
   
 
 
   
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